venerdì, agosto 10, 2007

De músicas, amores e esquecimento...





“Eu faço samba e amor até mais tarde


E tenho muito sono de manhã


Escuto a correria da cidade, que arde


E apressa o dia de amanhã




De madrugada a gente ainda se ama


E a fábrica começa a buzinar


O trânsito contorna a nossa cama, reclama


Do nosso eterno espreguiçar




No colo da bem-vinda companheira


No corpo do bendito violão


Eu faço samba e amor a noite inteira


Não tenho a quem prestar satisfação




Eu faço samba e amor até mais tarde


E tenho muito mais o que fazer


Escuto a correria da cidade, que alarde


Será que é tão difícil amanhecer?




Não sei se preguiçoso ou se covarde


Debaixo do meu cobertor de lã


Eu faço samba e amor até mais tarde


E tenho muito sono de manhã”





Este é um texto que deve ser breve. São muitas as coisas da vida, as coisas pra fazer. É sexta-feira e é como se não fosse.
Escrevo porque é necessário. Necessário dizer as coisas que não entendo. Acho que se eu pudesse mudar somente uma coisa na minha personalidade não mudaria a minha maneira passional de viver e de sentir o mundo, não mudaria as minhas bruscas mudanças de humor, mas mudaria a minha forma de me organizar, de selecionar o que deve ir embora e o que deve ficar. A minha mania de guardar tudo: papéis, revistas, roupas, sentimentos. Tenho uma imensa vontade de abraçar o mundo. Esse é um grande problema. Nunca posso estar fazendo pouco e se estou faço pouco transformo esse pouco em muito num instantinho. Tenho mania de exagero. Mania de querer fazer tudo ao mesmo tempo. E fazendo tudo ao mesmo tempo sempre vou deixando pra lá coisas importantes: organizar o armário, o quarto, a caixa de e-mails, a vida. Acontece que tenho uma propensão à desordem, à bagunça. Gosto de ir guardando tudo: um dia leio, um dia aprendo, um dia faço, um dia irei usar. E não sei lidar com despedidas, com fins, com a palavrinha triste e sem sentido chamada adeus. Por isso, vou me enchendo de coisas, de promessas, de sonhos, de projetos, de compromissos, de emoções. E de datas. Pergunte-me. Sei todas as datas, os anos, os meses, os segundos. Manias. Detesto perder as coisas. Detesto as coisas que passam rápido e nunca mais voltam. Uma pessoa que conhecemos no ônibus, um passeio, um domingo. O tempo vai indo e isso me desespera. Por isso vou guardando as datas, as sensações, as dores e alegrias. Os amores. É certo que eu tenho imensa incapacidade para lidar com fim. Há pouco tempo descobri que nem sei lidar com fim do amor dos outros. Esses meus amigos que vão terminando um namoro, vão começando outro e vão me deixando com saudades daquele casal que foi um dia e que não é mais e que provavelmente nunca mais será. Esse nunca mais será me agride. Nunca se sabe se nunca mais será. Mas onde poderei vê-los juntos? Rindo, de mãos dadas, cantando uma música, se abraçando, dividindo um dia de almoço e sol comigo? Onde?



“É sobre-humano amar


cê sabe muito bem


é sobre-humano amar, sentir


,doer, gozar,


ser feliz”



Se nem o fim dos outros eu entendo, quem dirá o fim dos meus amores? E amor tem fim? E amor a gente apaga de uma vez? E amor a gente consegue apagar um dia? Nunca sei o que é verdade de todos e o que é verdade minha. Verdade minha é que não sei apagar as coisas. È verdade também que como me disse um amigo um dia o coração é como uma folha de papel que a gente vai escrevendo com lápis e quando apagamos o que foi escrito, ainda fica aquela marquinha, que só será apagada quando escrevermos uma outra vez. É certo. Mas lá no fundo (é só olhar um poquinho com atenção) a marquinha tá lá. E acho que isso até é bom, sinal de que vivemos, de que sentimos.... O problema é conseguir apagar o que foi escrito. Ou acreditar que seja realmente necessário apagar.



Andando pela rua onde moro há seis anos, com seus barulhos e carros, com sua falta de silêncio e excesso de cores e placas e vozes, vim pensando sobre a delícia que é se apaixonar. A gente pode estar assim, andando. Então a gente conhece alguém que nunca viu na vida. E de repente, muito de repente, alguma coisa acontece. De repente vem vindo, de algum lugar, um sentimento novo, um querer estar perto, bem perto, um querer estar dentro e não sair nunca mais. E um amor é sempre maior que o outro. Por mais que a gente demore para se dar conta disso. Um amor sempre vem bem grande, sempre vem mudando tudo, mudando a gente, mudando o mundo, a rua, as cores, os dias, os motivos, e principalmente as noites. Um grande amor sempre muda as noites. Se não mudar as noites não é grande amor.



Como apagar tudo o que o amor trouxe? Nunca entendi. Nunca compreendi que mágica é essa de trocar de um dia para o outro um amor por outro. Mágica de desistir de repente, de deixar o amor pela metade e sair andando pelo mundo, como se nada tivesse acontecido.
O amor é o que deixa um gosto bom na boca, no corpo, nos pensamentos. Amor é estar em todos os lugares ao mesmo tempo, é olhar as pessoas e sorrir, é não ver problema em nada, é dormir tarde e acordar cedo e nem ligar. É fazer amor a noite toda.



“é sobre-humano viver


e como não seria?”



Então é isso que vim dizer. Vim escrever o que não entendo. Vim dizer que nada sei de tudo isso. Nada sei de terminar o amor em mim, de jogar tudo fora e ir ao cinema. Nada sei de esquecer, de apagar, de rasgar desenhos coloridos há tantos anos, poemas escritos há tanto tempo, bilhetes, canções, recordaçõezinhas tolas. Juro que me disponho a aprender se alguém aí tiver a fórmula. Mas duvido que alguém me apresente uma forma de ser fácil, de não doer, de sumir de vez algo que demorou tanto para ir se fazendo dentro da gente. Mas quem disse que o amor não é feito de esquecimento? De música que vai e vem? Quem disse que amor é sem dor? Que amor é fácil, que é só bonito?



Caminho pela praia. A água é azul, a areia é macia, o sol é ameno. É tudo muito bonito. E e tenho um livro. À tarde, depois de almoçar e me espreguiçar, vou à floricultura da Juliana. Depois volto para a livraria. Passeio pelas prateleiras. Verifico se há flores, se as janelas estão bem abertas. Respiro. Trabalho até o comecinho da noite. Já é outono, mas por aqui ainda demora para escurecer. Então saímos para passear pelas ruas. É noite, as pessoas sorriem. Parece que a minha avó está em todos os cantos da cidade. Parece que ela está em cada sorriso. E eu também estou sorrindo. Nos sentamos na praça, hoje tem música. E parece que vai chover. Talvez eu fique na chuva, sentindo cada gotinha bater na pele, uma por uma... Talvez eu vá pra casa. E fique quietinha, ouvindo o barulhinho da chuva bater no telhado, sem pensar em nada, só na chuva, na chuva, na chuva...



“mas deixa tudo e me chama


eu gosto de te ter


como se já não fosse a coisa mais


humana


esquecer”



Entre as músicas que esqueci e as que me lembro. No meio da minha coleção de pedras, de sopros, de vento... Em todos os lugares por onde passei, os tombos que levei na infância, a escada que era grande e foi ficando pequena, pequena, pequena, pequena... E as pessoas que fui encontrando, que fui esquecendo, que fui recordando. Cá estou eu. Nessa vida que fiz pra mim. Com um pezinho no que fui, no que sou e no que quero ser. Cercada de histórias, de medos e coragens. Cheia de vontade de ir dizendo, mas sem saber. Cá estou eu, calminha. Sentada, de mãos dadas com alguém. Nâo, é lembrança. De mãos dadas com um amigo tão querido, que só de olhar pra ele tudo vai ficando leve. Tudo vai ficando bonito, arrumadinho, delicado. Tudo vai fazendo sentido.



“a vida leva e traz


a vida faz e refaz


será que quer achar


sua expressão mais simples”

7 commenti:

Rosely Zenker ha detto...
Questo commento è stato eliminato dall'autore.
Rosely Zenker ha detto...

ai, que bom post novo!!! estava com saudades!!!
e veio para arrebentar, hein! quanta coisa, quanta informação!

quando um texto fica assim tão pessoal, tão presente de si mesmo, não tem como não envolver as outras pessoas, e a gente (nós, os leitores) sai dizendo: "eu sinto isso também"!
impressionante...

eu, por exemplo, guardo muita coisa. mas isso é muito natural de quem quer sempre ler o mundo, saber o mundo, ter o mundo presente na alma. às vezes me dá uma impressão de que há uma cobrança em relação a vc mesma, como se algumas qualidades fossem defeitos - mas não são, não...
a gente fica meio frustrado por não conseguir dar conta de muita coisa, mas isso porque a vida das pessoas cheias de energia são assim movimentadas à beça.
tudo em volta fica assim movimento, tudo em processo ao mesmo tempo, tudo aqui e agora já.
ah, muitas coisas não vaõ terminar nunca porque estão sempre se transformando.

aliás, isso é tão legal que vou colocar no meu blog: porque eu acho que a gente pode ter uma imensa oportunidade de enxergar tudo o que está à nossa frente de uma maneira diferente todos os dias: todo dia beijando uma pessoa diferente; e quando a gente acorda e beija a mesma pessoa todo dia para sempre, sabe que esta pessoa está sendo uma nova pessoa todos os dias.

a gente está sempre se transformando!!!
tudo sempre está em nós.
agora, já, aqui neste momento!

Anonimo ha detto...

sei que não tem muito a ver, mas seu post me fez lembrar um poema do antonio cícero, "guardar":

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

amo vc no mundo, viu? e trate de aprender a guardar as coisas direito! beijinho.

Gil ha detto...

Ah, Camila. Tanta coisa pra falar, mas parece que não cabe em um comentário. Talvez caiba em olhares, em colo, em abraço, em ouvidos... Aceita?

Sol ha detto...

Esquecimento....


Ora, mas seu mestrado não é sobre memória???



O Gil tb falou em esquecimento no blog dele, mais especificamente em não guardar memórias... e as boas, o q é mais estranho!

Parece q o q te faz mal é ter de esquecer, qdo o Gil se sente mal em não conseguir deixar de lembrar...


E eu não sei o q falar aos dois, a não ser a minha imensa vontade de parar o tempo presente. Sem exigências de futuro, de texto pra ler ou para fazer, de trabalho, de emprego, de mundo q não pára de pedir..

Eu só queria juntar amigos num parque grande pra andar de bicicleta e fazer piquenique... Sem motivo nenhum a não ser estar feliz...Mas com esse tempo q não pára, o q me parece é q só posso fazer isso em imaginação..

E ao menos sei bem, neste meu imaginar, todos aqueles q estariam certamente por lá...


Espero q vcs saibam tb!

Camila ha detto...

Esquecer de lembrar... Lembrar de esquecer... Lindos comentários. Hoje eu queria saber guardar as coisas que servem e deitar fora as que ferem. Amo vcs!

Camila ha detto...

Ops... Esqueci de dizer, Sol!!! Para lembrar é preciso esquecer. Não há memória sem lembrança!!! Beijos.