domenica, aprile 13, 2008

As vertigens e o foco


1. O mundo, quando tudo gira no mundo, fica sobre outra perspectiva. As coisas que pareciam importantes deixam de ser e as que não pareciam passam a ser importantíssimas. O mundo muda de foco, as nossas prioridades, os nossos desejos. Serve como um alerta.

2. Historinhas de vô num domingo. Gandhi. Nietzsche. A metarmorfose do Kafka. Hinduísmo. Sofrimento. Religiões. Piedade na década de 30, as ruas. Onde morava meu bisavô Dante. Com quantos anos meu tataravô Giovanni chegou. O ofício de pedreiro. O pai que morreu cedo. Piedade toda de terra, o comércio ainda pequeno. Uma jardineira (ônibus) que ia para Sorocaba duas vezes por dia apenas. Um estacionamento de carroças em Sorocaba. Ir lá pra comprar colchão de mola (em Piedade não tinha), alugar uma carrocinha para trazer o colchão de lá até aqui. "Colchão bom, durou anos". As ruas de Piedade nos anos seguintes. A bisavó Maria que tinha uma casa onde hoje é a Sumirê. O ponto de ônibus. O preço alto para mandar fazer uma calça e um sapato. Um tal de enxuga-poça (sapato improvisado, barato). Um menino de 14 anos (meu avô) que conheceu o espiritismo. Um senhor de quase 78 que diz que deixou de ser espírita e passou a ser espiritualista. Um senhorzinho que estudou até a quarta série mas que é absurdamente culto, inteligente - claro que tem suas próprias opiniões sobre o que vê, sobre o que lê, todos devíamos ter. Gosta de Raul Seixas, de Chico Buarque. Um avô que briga com os filhos por causa do PT (vez ou outra ainda defende o partido). Um avô que gosta de música clássica (seria melhor dizer erudita?), viola caipira, Renato Teixeira, Tom Jobim, uva, doce, manga, bacalhau e todas as massas. A única pessoa do mundo com que falo e calo. Quem ouço em silêncio dizer as coisas mais lindas. O mundo, a política, o mar, os animais, o sofrer, o amar, o viver, as dores, os planos, os esportes. A conversa começa assim: - Vô, você gosta de tênis? (ele estava assistindo a um jogo) - Quando era criança praticava esportes? A conversa começa assim e vai para o mundo. Sempre. Ele lê para mim um trechinho de um livro, fala de borboletas, fica me olhando fixo e diz: - Entendeu? Hoje visitei Piedade nos anos 30. O moço de posses que chegou e comprou algumas propriedades, as duas filhas bonitas do moço: Dircinha e D... Não lembro o nome. O campo de futebol, o rio, o casamento aos 24 anos. E os filhos, tantos filhos do meu avô. O passado, o presente e o futuro entrelaçados. Nos olhos dele um mar de conhecimentos. Que ele construiu sozinho ou que trouxe de outros mundos. Nos olhos dele o foco. O meu mundo.

3. Domingo à noite e o mundo ainda está meio desiquilibrado - reflexos de emoções outras - mas por dentro uma calma, minha avó e os olhinhos azuis cheios de preocupações e desejos de uma linda semana, minha avó que é mar de coisas para contar, outros tempos, outros sonhos, minha avó e os conselhos. Meu avô e suas historinhas maravilhosas.

2 commenti:

Gil ha detto...

Avô, Avó, Mãe, Pai, raízes... Que bonita sua história. O mundo gira e a gente delira. E pode até ser bom. Fique bem. Se cuida. Ah, e passa no meu blog. Beijo.

Camila ha detto...

Que delícia ter você para comentar o que digo pelo mundo. Love you...