
Em Piedade tem um ar bom de se respirar. Tem calma. Muita calma. O tempo mais lento do que em outros lugares Em Piedade o dia rende, a noite rende, a vida rende mais.
Em Piedade tem a minha família, a maior parte dela, com seu ritmo mais lento, mesmo os mais agitados.
Em Piedade não tem cinema. Não tem livraria.
Tem? Não, provavelmente não.
Mas tem cachoeira. Tem a Praça da Bandeira e a Casa da Cultura, ao menos o prédio. Tem o calçadão e a pastelaria com seu pastel de alcachofra. Tem alcachofra.
Tem o restaurante japonês. Que é mais caro e não tão bom quanto os restaurantes que eu costumo ir. Mas tem.
Tem a casa da minha avó, que é a casa mais bonita que existe em todo o mundo. Com seus banquinhos envelhecidos, suas roseiras, seus livros, seu silêncio durante a semana, seu barulho aos fins de semana. Com meu avô e minha avó velhinhos, eternos. Meus avós que tinham 50 anos há bem pouco tempo. É, o tempo não para. Nem mesmo em Piedade. Agora são os pais que têm 50 anos. Daqui a pouco seremos nós.
Piedade tem a banca do Samuel. Tem a sorveteria. A Oásis. Tem a Kimura pra quem gosta de sorvete um pouco mais doce. Ou pra quem quer relembrar tardes e tardes na sorveteria.
Tem a igreja matriz silenciosa quando não é dia de missa ou casamento.
Não, Piedade quase não tem amigos. Eles se foram, se perderam pelo tempo, espaço... Foram para outros lugares ou ficaram por aqui. Mas ou o amigo envelheceu ou a amizade envelheceu. Eu mesma envelheci um bocado.
Não, não há mais madrugadas frias, eu sentadinha na frente de casa com a turma do teatro, conversando, fazendo teorias várias, chorando, amando o mundo com tanta força...
Mas você pode encontrar o Juliano no ônibus. Se der muita sorte. Pode ligar para algum amigo perdido e dizer: Boa noite, estou com saudade de você.
Pode ir à biblioteca.
Ir ao clube de campo.
Ir à padaria e encontrar a Mariangela e seu sorriso bonito, escancarado. Ou pode ir a padaria e não encontrá-la, como foi no meu caso. Ela havia saído...
Você pode ir à casa dos tios, ver os filhos dos primos. Os primos já têm filhos...
Pode ler um livro a tarde toda sem interrupções.
Pode ir ao centro tomar um passe. Detalhe: da avó. O melhor passe do mundo.
Pode caminhar.
Pode comer com pouco dinheiro.
Aviso: você terá muitas saudades. De um tal bar que se chamava Tranchan (não sei como escreve). De suco de morango ou suco de coco. De videokê, acredite se quiser.
De ciranda no meio da rua, de corrida de madrugada. De chocolate quente e ruazinhas estreitas. Do ano de... 1999?
Prepara-se para sentir saudades. Da adolescência. Do não saber para onde ir. De sentar e escrever tudo o que se passa pela sua cabeça.
De vitrola.
De ensaio.
De gargalhar mais, brincar mais, dançar mais.
De não ter um puto no bolso e mesmo assim estar feliz. De não pensar muito no futuro e, quando pensar, ter uma certeza muito grande de algo muito bom.
Mas guarde a saudade num canto e continue andando. Há muito para ver. Isso para os que realmente veem a cidade, para os que realmente a conhecem.
Ela diz: fique. Você diz: como? Ela diz: calma. Você já partiu.
Piedade tem a Paineira. E a Vila Maria que ficou baixinha. E o bar do Bertão. E o parquinho da rodoviária. E o Mercado Municipal. Piedade tem a rua que era a mais cheia que eu conhecia na infância: a rua de cima.
Não, não tem sebo. Mas tem a casa da avó, as gavetas de casa, sempre há algum livro esperando para ser lido, relido.
Não, não tem livraria. Mas tem a casa do Dodito. Onde, se não me falha a memória, você podia pedir um livro que ele vinha. Segundo minha mãe ou minha tia ou.. Eram tempos sem internet.
Piedade tem a minha infância, a minha adolescência, um pedaço grande de mim.
Tem as escolas onde estudei. Tem sonho. Sonho recheado. Ai, ai...
Teve por algum tempo a cantina da minha avó. Salgados quentinhos saindo do forno, chocolate. Cochinha de batata.
Piedade tem dia de feira. Quarta-feira.
Tem a casa dos tios e domingo algum almoço - ou janta - bom.
Tem as crianças pequenas da família, a família de repente se encheu de crianças novamente.
Não, não tem mar. Nem tem lagoa. Mas foi em Piedade que eu conheci Drummond, Bandeira. Poesia, lirismo, música, dança.
Tinha aula de poesia, aula de teatro, aula de dança do ventre (numa época em que não era moda, bem, bem antes da moda).
Tem o conservatório.
Tem aulas de judô, de onde eu saí antes do primeiro semestre de tanto apanhar.
Tinha aulas de vôlei, onde eu era ótima em... alongamento. A mais alongada.. rs
Tem hidroginástica.
Tem o melhor clima do Brasil. Do mundo.
Piedade tem um lado de mim do qual sinto saudades. Meu silêncio. Minha calma.
Tem a prefeitura e os banquinhos. Bons banquinhos. Pra gente rir. Namorar. Ler. Conversar. Chorar sozinho.
Piedade tem, hoje, uma menina com dores, com a alma ressentida de saudades, com o corpo pedindo calma, com a alma pedindo calma, querendo diminuir o ritmo do mundo, querendo mudar o seu ritmo, querendo retornar a viver de maneira mais calma, mais certa, mais apropriada. Pelo menos para ela.
Uma menina sozinha. Todo mundo dorme em Piedade a essas horas. Pelo menos na minha casa.
Piedade tem a solidão boa e ruim. Não, não há como usar o celular. Pra quem ligar? Pra onde olhar? Ler, ver filmes, ler, ver filmes, ritmo acelerado.
Piedade, hoje, tem uma menina medrosa, com as lágrimas guardadas dentro, a ponto de escapulirem... Uma menina sozinha. Querendo um mundo outro. Querendo tentar de novo. Por onde vai começar? O que vai fazer com tudo o que começou?
Piedade, hoje, tem uma menina com vontade de jogar tudo o que construiu pelos ares e recomeçar, bem devagarinho, passo por passo, a construção de uma nova maneira de viver.
Piedade, hoje, tem uma paulistanazinha, muito mais paulistana do que Piedadense, querendo reaprender a viver, a sentir, a ser como era antes. Querendo ficar bem.
Pra onde ela pode olhar, Piedade? Por onde ela começa o seu caminho?
Em Piedade tem a minha família, a maior parte dela, com seu ritmo mais lento, mesmo os mais agitados.
Em Piedade não tem cinema. Não tem livraria.
Tem? Não, provavelmente não.
Mas tem cachoeira. Tem a Praça da Bandeira e a Casa da Cultura, ao menos o prédio. Tem o calçadão e a pastelaria com seu pastel de alcachofra. Tem alcachofra.
Tem o restaurante japonês. Que é mais caro e não tão bom quanto os restaurantes que eu costumo ir. Mas tem.
Tem a casa da minha avó, que é a casa mais bonita que existe em todo o mundo. Com seus banquinhos envelhecidos, suas roseiras, seus livros, seu silêncio durante a semana, seu barulho aos fins de semana. Com meu avô e minha avó velhinhos, eternos. Meus avós que tinham 50 anos há bem pouco tempo. É, o tempo não para. Nem mesmo em Piedade. Agora são os pais que têm 50 anos. Daqui a pouco seremos nós.
Piedade tem a banca do Samuel. Tem a sorveteria. A Oásis. Tem a Kimura pra quem gosta de sorvete um pouco mais doce. Ou pra quem quer relembrar tardes e tardes na sorveteria.
Tem a igreja matriz silenciosa quando não é dia de missa ou casamento.
Não, Piedade quase não tem amigos. Eles se foram, se perderam pelo tempo, espaço... Foram para outros lugares ou ficaram por aqui. Mas ou o amigo envelheceu ou a amizade envelheceu. Eu mesma envelheci um bocado.
Não, não há mais madrugadas frias, eu sentadinha na frente de casa com a turma do teatro, conversando, fazendo teorias várias, chorando, amando o mundo com tanta força...
Mas você pode encontrar o Juliano no ônibus. Se der muita sorte. Pode ligar para algum amigo perdido e dizer: Boa noite, estou com saudade de você.
Pode ir à biblioteca.
Ir ao clube de campo.
Ir à padaria e encontrar a Mariangela e seu sorriso bonito, escancarado. Ou pode ir a padaria e não encontrá-la, como foi no meu caso. Ela havia saído...
Você pode ir à casa dos tios, ver os filhos dos primos. Os primos já têm filhos...
Pode ler um livro a tarde toda sem interrupções.
Pode ir ao centro tomar um passe. Detalhe: da avó. O melhor passe do mundo.
Pode caminhar.
Pode comer com pouco dinheiro.
Aviso: você terá muitas saudades. De um tal bar que se chamava Tranchan (não sei como escreve). De suco de morango ou suco de coco. De videokê, acredite se quiser.
De ciranda no meio da rua, de corrida de madrugada. De chocolate quente e ruazinhas estreitas. Do ano de... 1999?
Prepara-se para sentir saudades. Da adolescência. Do não saber para onde ir. De sentar e escrever tudo o que se passa pela sua cabeça.
De vitrola.
De ensaio.
De gargalhar mais, brincar mais, dançar mais.
De não ter um puto no bolso e mesmo assim estar feliz. De não pensar muito no futuro e, quando pensar, ter uma certeza muito grande de algo muito bom.
Mas guarde a saudade num canto e continue andando. Há muito para ver. Isso para os que realmente veem a cidade, para os que realmente a conhecem.
Ela diz: fique. Você diz: como? Ela diz: calma. Você já partiu.
Piedade tem a Paineira. E a Vila Maria que ficou baixinha. E o bar do Bertão. E o parquinho da rodoviária. E o Mercado Municipal. Piedade tem a rua que era a mais cheia que eu conhecia na infância: a rua de cima.
Não, não tem sebo. Mas tem a casa da avó, as gavetas de casa, sempre há algum livro esperando para ser lido, relido.
Não, não tem livraria. Mas tem a casa do Dodito. Onde, se não me falha a memória, você podia pedir um livro que ele vinha. Segundo minha mãe ou minha tia ou.. Eram tempos sem internet.
Piedade tem a minha infância, a minha adolescência, um pedaço grande de mim.
Tem as escolas onde estudei. Tem sonho. Sonho recheado. Ai, ai...
Teve por algum tempo a cantina da minha avó. Salgados quentinhos saindo do forno, chocolate. Cochinha de batata.
Piedade tem dia de feira. Quarta-feira.
Tem a casa dos tios e domingo algum almoço - ou janta - bom.
Tem as crianças pequenas da família, a família de repente se encheu de crianças novamente.
Não, não tem mar. Nem tem lagoa. Mas foi em Piedade que eu conheci Drummond, Bandeira. Poesia, lirismo, música, dança.
Tinha aula de poesia, aula de teatro, aula de dança do ventre (numa época em que não era moda, bem, bem antes da moda).
Tem o conservatório.
Tem aulas de judô, de onde eu saí antes do primeiro semestre de tanto apanhar.
Tinha aulas de vôlei, onde eu era ótima em... alongamento. A mais alongada.. rs
Tem hidroginástica.
Tem o melhor clima do Brasil. Do mundo.
Piedade tem um lado de mim do qual sinto saudades. Meu silêncio. Minha calma.
Tem a prefeitura e os banquinhos. Bons banquinhos. Pra gente rir. Namorar. Ler. Conversar. Chorar sozinho.
Piedade tem, hoje, uma menina com dores, com a alma ressentida de saudades, com o corpo pedindo calma, com a alma pedindo calma, querendo diminuir o ritmo do mundo, querendo mudar o seu ritmo, querendo retornar a viver de maneira mais calma, mais certa, mais apropriada. Pelo menos para ela.
Uma menina sozinha. Todo mundo dorme em Piedade a essas horas. Pelo menos na minha casa.
Piedade tem a solidão boa e ruim. Não, não há como usar o celular. Pra quem ligar? Pra onde olhar? Ler, ver filmes, ler, ver filmes, ritmo acelerado.
Piedade, hoje, tem uma menina medrosa, com as lágrimas guardadas dentro, a ponto de escapulirem... Uma menina sozinha. Querendo um mundo outro. Querendo tentar de novo. Por onde vai começar? O que vai fazer com tudo o que começou?
Piedade, hoje, tem uma menina com vontade de jogar tudo o que construiu pelos ares e recomeçar, bem devagarinho, passo por passo, a construção de uma nova maneira de viver.
Piedade, hoje, tem uma paulistanazinha, muito mais paulistana do que Piedadense, querendo reaprender a viver, a sentir, a ser como era antes. Querendo ficar bem.
Pra onde ela pode olhar, Piedade? Por onde ela começa o seu caminho?
1 commento:
Amor... vamos (re)começar juntos? Tenho me sentido perdido mais vezes do que gostaria também. Mãos amigas sempre ajudam a achar o norte... Que tal darmos mais as mãos nesses momentos? A gente aproveita que é Ano Novo e faz tudo novo. Se cuida. Um bjo.
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