venerdì, febbraio 23, 2007

Encontro


Voltando. Após longos meses de ausência. Descobri que não fui feita para ter um blog. Talvez se eu tivesse os meus treze anos (aquela idade em que eu parava tudo para escrever os meus sentimentos em longas folhas de papel, uma idade em que nada era mais importante pra mim do que relatar o que eu sentia, o que eu vivia), mas agora, com esse turbilhão de pensamentos e descobertas, com essas coisas para serem feitas, planos, sonhos, viagens, amores, esses sentimentos que não encontram mais parada e vão indo, indo, indo... Agora parece que não existem mais palavras capazes de me relatar. No entanto hoje, precisamente hoje, sofro de uma solidão aguda, sem som, nem dor. Uma solidão que vai se deitando sobre mim, que vai invadindo os meus compromissos, a minha incapacidade de organização, uma solidão macia que invade a minha saudade e a minha noite de sexta-feira. Agora eu talvez possa escrever algo, sobre mim, sobre o mundo, sobre o tempo, sobre esse meu cansaço, sobre crianças e flores, talvez sobre o mar e sobre desejos, talvez sobre livros, ou sobre a minha avó. Talvez sobre tudo isso junto.

Acontece que agora eu PRECISO escrever. Sei bem que quando preciso escrever e não o faço, mato em mim coisas importantes, coisas sobre o que sou, sobre o mais profundo de mim mesma. De tudo que li hoje - e foi pouco - duas coisas me fizeram pensar. Uma li no blog de uma amiga - na verdade não é bem uma amiga no sentido que as pessoas dão à palavra, mas é uma amiga no sentido que a palavra me toca, pois é uma pessoa linda, que eu conheço pouco, mas que me emociona e pra quem eu desejo toda a felicidade, e poesia, e amor do mundo - uma reflexão importante sobre o tempo, se é que posso classificá-la assim. No texto, minha amiga se questionava sobre como a menina que ela foi um dia olharia para a pessoa - com seus vinte e poucos anos - que ela é hoje. Ela imaginou uma grande decepção e algumas pequenas surpresas. Então passei a pensar no meu encontro, isto é, pensei no que ocorreria se a menina que eu fui aos oito ou nove anos pudesse encontrar essa moça, ou mulher, ou menina mesmo, que eu sou hoje, com meus vinte e tantos anos. Será que a decepção seria muito grande? Acontece que eu estou exatamente na idade que planejava ter filhos - por ser a idade em que a minha mãe teve filhos - e eu teria que explicar para ela - eu pequenininha - que hoje em dia é difícil, que o mundo andou mudando muito e que ela não sabe porque além de novinha, vive - ou viveu - há alguns anos atrás. Eu teria que lhe explicar muitas coisas sobre o amor, sobre a vida e a morte, sobre as dificuldades, sobre o medo, sobre o tempo, sobre literatura e pão, sobre sonhos e realidades. Acho que a decepção seria grande. Acho, realmente acho, que ela ficaria muito triste, que não iria me reconhecer, que iria erguer o dedinho para me dizer o quanto fui mesquinha e o quanto deixei de cumprir o que prometi. Com certeza ela teria muito mais a me explicar. Me diria, por exemplo, o silêncio. Me contaria da alegria de passar o dia todo lendo um livro desesperadamente, da aflição das últimas páginas, lidas frase a frase, com o coração disparado. Me falaria que apesar da dor de cabeça e da dor nos olhos, apesar da necessidade de ficar no escuro depois de um dia de leitura exagerada, tudo valia a pena. Acho que ela me falaria que para passar, era só escrever o medo, a rejeição, o desamor. Acho que ela me falaria da tristeza e da tristeza escrita que é bem menos triste do que a não escrita. Acho que ela cantaria baixinho as minhas músicas preferidas, e me falaria que quando o medo é muito grande é só pegar o violão e cantar.

Felicidade foi se embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora porque sei que a falsidade não vigora

Nesse momento, eu cruzo com o outro texto que andei lendo. Uma pequenina crônica da Clarice Lispector, que falava sobre o ser você mesmo. Não é tão simples quanto parece. Clarice conta que quando perde coisas importantes, como um documento, por exemplo, costuma pensar "Se eu fosse eu onde guardaria tal coisa?". A partir disso ela começa a discorrer sobre essa frase aparentemente sem lógica "Se eu fosse eu" e descobre que se ela fosse ela faria tanta coisa diferente. Então tá. É exatamente isso que ocorre comigo. Se eu realmente fosse eu faria tudo diferente. Sim, ler Clarice é melhor do que imaginamos. Sim, minha querida menininha que mora dentro de mim, a literatura tem bastante serventia na vida. Eu sei, você já sabia disso.
Acho que passei longos anos esquecendo sobre mim. Esquecendo de mim. Me desaprendendo. Desaprendi a escrever, desaprendi a cultivar meus amigos queridos, desaprendi a escrever longas cartas, desaprendi a tocar violão e acho que até desaprendi a amar. Desaprendi a estranhar as coisas -o que eu fazia como ninguém aos sete anos. O estranhamento é uma das coisas mais importantes do mundo. Quando não estranhamos -não questionamos, não viramos os acontecimentos de cabeça pra baixo pra ver qual é a sua cor, como eles se comportam, quantas perninhas têm - passamos a aceitar tudo. Deixamos de ser, de participar, de inventar a vida. Acho que há algum tempo não ando inventando nada. As coisas me parecem normais e aceitáveis, e então o medo e o desamor e o ciúme e as pequenezas andaram tomando conta de mim.

Acho que preciso me reaprender. Reaprender a minhas respiração, o meu sorriso. Reaprender a ser eu mesma independente de qualquer coisa ou pessoa. Reaprender a música e a alegria. Reaprender a chorar.

2 commenti:

Sol ha detto...

Cá, desculpe a demora em ler....

Bem, este ainda não é o comentário que eu gostaria de fazer ... Não sei se a desculpa é a falta de tempo, a falta de organização da vida... ou a falta de mim mesma dentro disso que chamo de 'eu' já há algum tempo tb... Mas eu não me falto com tristeza, eu me falto dessa maneira que seu texto tão bem explica, me falto pq não estranho mais tanto assim o mundo... Aceito tudo ou temo tudo antes de tão somente me surpreender com estranhamentos e perguntas e curiosidades e palavras...

Sol ha detto...

... e embora já tenha me dado conta disso, não sei como voltar no tempo e me surpreender novamente... Kd a nossa 'eterna criança', Camila? Aquela que olhava e para sempre olharia o mundo como se fosse a primeira vez? Sinto falta de meus olhos recém-nascidos...