Mundo, quinta-feira, feriado. Faz um frio absurdo e eu gosto de frio. Só não estava esperando um dia tão gelado assim, não tinha me programado. Ontem dormi com meu pai, na casa do meu pai, no colo dele. Cheguei tarde, mais tarde do que tínhamos combinado e o encontrei bêbado, não como já vi muitas vezes, mas bem alto. Me disse que estava me esperando num bar e que bebeu somente quinze doses de whisky, coisa pouca, não? Não entendo de whisky, mas entendo do meu pai e ele nem estava bêbado do jeito que estava quando me ligou na semana passada - imaginei o quanto ele bebe pra ficar daquele jeito -, dizendo que me amava, que eu tinha esquecido dele. Tinha não. Mas estava um pouco cansada e num ritmo de vida bem alucinado de trabalhos e trabalhos. Estava um tanto chateada também com ele. Ele me liga sempre de madrugada, sempre bêbado e chorando, mas quando preciso dele de verdade, nunca está lá. E o que mais dói: quando minhas irmãs precisam dele, ele nunca está. Seus telefonemas parecem coisa de adolescente, de namorado, não de pai. Coisas do meu pai. Não nos víamos há uns bons meses e eu também sentia saudades, mas estava chateada. Meu pai é um cara friozão, durão, mas quando bebe amansa um pouco - e ele bebe sempre. Poucas vezes carinhoso, menino que perdeu a mãe aos dois anos e foi criado pela minha bisavó, senhorinha que eu amava tanto, mas que era osso duro de roer, brava, muito difícil mesmo. Ontem não. Ontem ele se derreteu em carinhos, me chamava de linda, dizia-se encantado, como eu podia estar sempre mais e mais linda? rs.. Me apresentou para todos os amigos... Eu, descabelada e com sono. Meu pai é um cara de muitos amigos, com quarenta e muitos anos ainda não aprendeu a distingüir - como eu sempre tive dificuldade - colegas de amigos. Acha sempre todo mundo igual, todo mundo confiável, amigo. Ontem, amigos do meu pai, ele todo orgulhoso, mostrando o quanto a filha dele era linda... Os amigos dele me abraçando e eu disfarçando o sono. Os amigos que chegavam na pizzaria, olhavam e diziam: Nossa, Pedrão, como é linda a sua nova namorada! Claro, entramos de mãos dadas, ele estava a noite inteira mexendo nos meus cabelos, me paparicando. Namorada? Não, minha filha mais velha. Inúmeros amigos tentando fazer com que eu lembrasse deles, viviam em casa, quando eu era pequena. Desculpe, mas não lembro de todos. Amigos jovens, de vinte e alguns anos me paquerando, pedindo meu celular. Como ela é tímida! Tímida eu? Penso. Acho que sim, um pouco. Mas dar meu celular por aí não é coisa que eu faça e nem é caso de timidez mesmo... rs. Dormi no colo dele, abraçada com ele, ele me dizendo o quanto fiz bem para seu coração indo até lá. Me conta do bar que pretende abrir, me mostra as coisas. Eu sorrio e não sei o que dizer. Me pergunta se eu lembro da banda dele, das músicas dele. Lembro, claro que lembro. Me pergunta se lembro do Serjão e do Nelsinho. Como eu poderia esquecer do Jesus? Do Xororó? Jesus morreu de cancêr, Xororó está numa cama há mais de dez anos, bem mais, por causa da bebida. Meu pai vive, atropelando o sono, emagrecendo trinta quilos e voltando a engordar, financiando uma casa bonita, que ele desenhou. A casa é bagunçada, instrumentos, roupas, cigarro, Ades, muitos Ades... rs. Uma cozinha iluminada, que ele mesmo projetou, arrumadinha. Muitos cachorros que me causam pânico mas que não mordem. Antes de dormir me pergunta se eu sei o motivo dele e minha mãe terem se separado. Sei, pai, sei. Vocês são muito diferentes, levam a vida e acreditam em coisas muito diferentes. É, ele me olha. Acho que não era isso que queria dizer, mas eu também não queria discutir os motivos pelos quais eles se separaram. Sei de todos. Não consigo imaginar os dois juntos, como não conseguia lembrar do meu pai tão carinhoso. E ele era. Quando eu era criança ele era meu urso, onde eu me escondia à noite, no frio. No bar-pizzaria, um dos amigos pergunta: Camila não é aquela sua filha que tocava violão? É, penso eu. Tocava, tocava. Em aniversários da família, em domingos, tocava e todos gostavam de ouvir... Aquela vozinha desafinada cantando Felicidade foi se embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora porque sei que a falsidade não vigora. Meu pai me preocupa, mas seus sonhos são tão difíceis de entender. Um bar. Meu pai novamente com um bar seria alcoolismo na certa. Mais problemas, colesterol, pressão alta, ele esquece dos seus quarenta e muitos anos. Emprego estável, daqui uns anos se aposenta... Concorda com a minha mãe nesse ponto. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Mantém duas vidas, uma de trabalho durante o dia, outra de outros trabalhos durante a noite. E de bares, músicas e amigos. Meu pai. Talvez seja por eu estar lendo o livro... Mas acho que meu pai é o próprio Dom Quixote.giovedì, maggio 01, 2008
De la mancha
Mundo, quinta-feira, feriado. Faz um frio absurdo e eu gosto de frio. Só não estava esperando um dia tão gelado assim, não tinha me programado. Ontem dormi com meu pai, na casa do meu pai, no colo dele. Cheguei tarde, mais tarde do que tínhamos combinado e o encontrei bêbado, não como já vi muitas vezes, mas bem alto. Me disse que estava me esperando num bar e que bebeu somente quinze doses de whisky, coisa pouca, não? Não entendo de whisky, mas entendo do meu pai e ele nem estava bêbado do jeito que estava quando me ligou na semana passada - imaginei o quanto ele bebe pra ficar daquele jeito -, dizendo que me amava, que eu tinha esquecido dele. Tinha não. Mas estava um pouco cansada e num ritmo de vida bem alucinado de trabalhos e trabalhos. Estava um tanto chateada também com ele. Ele me liga sempre de madrugada, sempre bêbado e chorando, mas quando preciso dele de verdade, nunca está lá. E o que mais dói: quando minhas irmãs precisam dele, ele nunca está. Seus telefonemas parecem coisa de adolescente, de namorado, não de pai. Coisas do meu pai. Não nos víamos há uns bons meses e eu também sentia saudades, mas estava chateada. Meu pai é um cara friozão, durão, mas quando bebe amansa um pouco - e ele bebe sempre. Poucas vezes carinhoso, menino que perdeu a mãe aos dois anos e foi criado pela minha bisavó, senhorinha que eu amava tanto, mas que era osso duro de roer, brava, muito difícil mesmo. Ontem não. Ontem ele se derreteu em carinhos, me chamava de linda, dizia-se encantado, como eu podia estar sempre mais e mais linda? rs.. Me apresentou para todos os amigos... Eu, descabelada e com sono. Meu pai é um cara de muitos amigos, com quarenta e muitos anos ainda não aprendeu a distingüir - como eu sempre tive dificuldade - colegas de amigos. Acha sempre todo mundo igual, todo mundo confiável, amigo. Ontem, amigos do meu pai, ele todo orgulhoso, mostrando o quanto a filha dele era linda... Os amigos dele me abraçando e eu disfarçando o sono. Os amigos que chegavam na pizzaria, olhavam e diziam: Nossa, Pedrão, como é linda a sua nova namorada! Claro, entramos de mãos dadas, ele estava a noite inteira mexendo nos meus cabelos, me paparicando. Namorada? Não, minha filha mais velha. Inúmeros amigos tentando fazer com que eu lembrasse deles, viviam em casa, quando eu era pequena. Desculpe, mas não lembro de todos. Amigos jovens, de vinte e alguns anos me paquerando, pedindo meu celular. Como ela é tímida! Tímida eu? Penso. Acho que sim, um pouco. Mas dar meu celular por aí não é coisa que eu faça e nem é caso de timidez mesmo... rs. Dormi no colo dele, abraçada com ele, ele me dizendo o quanto fiz bem para seu coração indo até lá. Me conta do bar que pretende abrir, me mostra as coisas. Eu sorrio e não sei o que dizer. Me pergunta se eu lembro da banda dele, das músicas dele. Lembro, claro que lembro. Me pergunta se lembro do Serjão e do Nelsinho. Como eu poderia esquecer do Jesus? Do Xororó? Jesus morreu de cancêr, Xororó está numa cama há mais de dez anos, bem mais, por causa da bebida. Meu pai vive, atropelando o sono, emagrecendo trinta quilos e voltando a engordar, financiando uma casa bonita, que ele desenhou. A casa é bagunçada, instrumentos, roupas, cigarro, Ades, muitos Ades... rs. Uma cozinha iluminada, que ele mesmo projetou, arrumadinha. Muitos cachorros que me causam pânico mas que não mordem. Antes de dormir me pergunta se eu sei o motivo dele e minha mãe terem se separado. Sei, pai, sei. Vocês são muito diferentes, levam a vida e acreditam em coisas muito diferentes. É, ele me olha. Acho que não era isso que queria dizer, mas eu também não queria discutir os motivos pelos quais eles se separaram. Sei de todos. Não consigo imaginar os dois juntos, como não conseguia lembrar do meu pai tão carinhoso. E ele era. Quando eu era criança ele era meu urso, onde eu me escondia à noite, no frio. No bar-pizzaria, um dos amigos pergunta: Camila não é aquela sua filha que tocava violão? É, penso eu. Tocava, tocava. Em aniversários da família, em domingos, tocava e todos gostavam de ouvir... Aquela vozinha desafinada cantando Felicidade foi se embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora porque sei que a falsidade não vigora. Meu pai me preocupa, mas seus sonhos são tão difíceis de entender. Um bar. Meu pai novamente com um bar seria alcoolismo na certa. Mais problemas, colesterol, pressão alta, ele esquece dos seus quarenta e muitos anos. Emprego estável, daqui uns anos se aposenta... Concorda com a minha mãe nesse ponto. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Mantém duas vidas, uma de trabalho durante o dia, outra de outros trabalhos durante a noite. E de bares, músicas e amigos. Meu pai. Talvez seja por eu estar lendo o livro... Mas acho que meu pai é o próprio Dom Quixote.
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2 commenti:
Acho que as 'zero' palavrinhas até o momento traduzem a sensibilidade e a impossibilidade de se manifestar diante de coisa tão bonita.
A vida não é perfeita, as pessoas menos, mas à vezes dá a impressão que pai e mãe deveria ser infalíveis...
Mas se a gente não é, qual o direito que temos sobre essa cobrança?
Com certeza, Deinha.
Isso me lembrou Legião Urbana... Quero enfatizar que nunca fui mto fã da banda, mas algumas músicas são hinos de uma geração, né?
"São crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?"
Certeza. Pai da gente é a gente daqui a pouquinho. Você já reparou que daqui para os quarenta é um pulinho? Daqui a pouco temos sessenta anos e nem percebemos. Dentro todo mundo é menininho, tropeça, cai, escorrega, levanta, tenta de novo... Infalíveis nunca seremos. Somos humanos.
Por isso compreendo meus pais e amo os dois, bem grande. Mas às vezes fico um tantinho triste por ver que eles não estão tão felizes com as escolhas que fizeram... E que são pequenos e não se cuidam direito dia ou outro.
Beijo para vc, linda.
Saudade e amor
Cá
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