
Hoje eu sinto que cresci bastante
Hoje eu sinto que estou muito grande
Sinto mesmo que sou um gigante
Do tamanho de um elefante
É que hoje é meu aniversário
E quando chega meu aniversário
Eu me sinto bem maior, bem maior, bem maior, bem maior
Do que eu era antes
Hoje eu tenho sono, trabalhei muito, mas chego em casa e tenho uma vontade imensa de escrever, mesmo que sejam coisinhas bobas, mesmo que a aniversariante mereça um texto tão mais bonito, tão mais profundo, tão mais grande. Hoje é nove do nove de dois mil e oito. Nove do nove de mil novecentos e nove (09/09/09) nasceu minha bisavó Hercícilia que faria 100 anos no ano que vem se não tivesse morrido em 2002. E eu jurava que ela não iria morrer nunca. Minha linda "Vorcília", pequenininha, mirradinha, brava, costureira durante a vida, senhorinha irrritada que fazia canudinhos recheados com doce de leite e bolacha, que me fazia tomar café. Hoje é aniversário dessa senhorinha que já se foi desse mundo.
Mas hoje também é aniversário da menina Ana Clara. Menina que me inunda o mundo de significado. Só de saber que ela existe, que em algum cantinho do mundo lá está minha amiga Ana Clara. Por muito tempo eu olhava pra ela, lembrava dela e só tinha vontade de chorar, de chorar. Era difícil desvincular a Aninha de uma série de outros sentimentos, era difícil esquecer que ela se enfiava no meio das cobertas, pequenina nos seus dois anos, e dormia comigo. Ou brincava de dormir. E então eu lembrava dela, como lembrava de muitos outros queridos daquele mundo e me punha a chorar. O corte da relação com ela doeu muito. E se misturou com outras dores. Não era preciso ser muito inteligente para perceber como meu coração andava misturado e triste, ardendo ausências.
Hoje não. Hoje eu ouvi a voz dela, mansinha. Ela vem crescendo. E já fala como gente grande ao telefone. Hoje eu não chorei. Choro agora escrevendo o texto, mas é de saudade. E uma saudade alegre. Hoje eu liguei e disse: Parabéns. Ela me disse: Camiiiila, você sabe que hoje é meu aniversário? Eu disse: Claro que sei, Aninha, claro que sei. Então ela disse: Então fala: Feliz aniversário! rsrs... Para ela parabéns não é feliz aniversário... rsrs... E ela me fez rir de novo. Na calçada, com um monte de livros, ônibus passando e indo, Avenida Paulista. Eu ali feito besta rindo no telefone, conversando com a minha amiga mais nova e tão amiga. Não, ela não me esqueceu. Ainda lembra e diz: Te adoooro! Pergunta; "Vocês aí estão com frio?". Eu respondo que não tem vocês, mas você, pois eu moro sozinha e estava sozinha no momento. Ela fala, então, para eu ligar para seu pai, pois ele também mora em São Paulo e poderia ir me buscar.... E eu rio. E me impressiono com o tempo que ela consegue ficar falando. Ela resolve cantar uma música pra mim... Que aprendeu. Me fala coisas engraçadinhas, diz que está gripada. Grita: Você sabe quantos anos estou fazendo? Eu grito que sei, 5 anos, Aninha, 5 anos.
Às vezes eu fico triste ao lembrar que não posso mais vê-la sempre. Que será de vez em quando (muito de vez em quando). Mas eu lembro dela quando entro em livrarias, em lojas de criança, lembrei quando fui à Bienal. Lembro dela quando vejo crianças bonitas sorrindo. Lembro dela quando vou à sorveteria e quando vejo desenhos bonitos. É minha amiga, pequenina, de imensos 5 anos, minha amiga. No ano passado, no seu aniversário, teve esfirrinhas do Ieiê. Gostosas, muito gostosas. Saudade das esfirrinhas e da menina Ana Clara saltando pela casa, brincando de dormir, de desenhar, escrever, aprendendo comigo a canção de quando eu era pozinho, pozinho, pozinho eu fazia assim, assim, assim...
As últimas vezes que ela me viu, eu chorava. Por causa dela, por causa do mundo, sempre acabava chorando. Ela me olhava e dizia: Por que você está chorando, Camila? Eu dizia: Chorando, eu? Imagina... E abria um sorriso. É uma poeirinha que entrou nos meus olhos... E chorava.
Se eu pudesse eu faria um mundo melhor, todo mais colorido, só para ela nunca precisar chorar, para mostrar pra sempre o sorrisinho lindo, os imensos olhos verdes, azuis, ela diz, azuis. Você puxou o titi e a vovó, eu dizia. E ela ria, me puxando, dizendo que não, que não tinha puxado ninguém, não. E fazia desenhos e cortava papel. Muitos desenhos, muito papel. Tinta e potinhos da cozinha. Festa de aniversário das bonecas. Dançar enquanto o titi tocava alguma coisa improvisada, ela adorava dançar. E tocar nos instrumentos e mexer nas coisas que não podia. E virar as coisas da tia Má. E brincar de assustar, brincar de esconder. E de dar abraço de elefante, de formiguinha, de peixinho. E de chorar quando eu ia embora. E de brigar comigo às vezes, na verdade foi uma vez. E de escovar os dentes comigo, colocar a roupa igual, vestir igual. De pentear o meu cabelo (e embaraçar a escova nele). De tomar banho comigo do lado, de ir ao banheiro junto. De dizer "Vou comer os brócolis", quando eu disse: "Você quer comer arvorezinhas?" e me deixar com cara de boba. De ler comigo seus livros, de andar pra cima e para baixo com a sua biblioteca ambulante. de ler os meus livros, de me fazer contar a mesma história quatro vezes. De brincar de bailarina, de cantar: "Só a bailarina DI não tem". De ficar triste porque a bailarina não tem namorado: Coitada! De dar a mão na hora de dormir, tomar mamadeira com a mãozinha na minha, deitada no berço.
Nunca deixei que ela me chamasse de tia. E não é por medo do termo, não, é por medo de magoá-la um dia. Como é que a gente perde um tio assim de repente? Como um tio some no mundo assim? Achei que ela poderia sofrer. Lembro do querido Titio Tateu dela e de como ficou chateadinha quando descobriu que ele não namorava mais a tia Má. Então eu era a amiga Camila, não a tia. E ela era a amiga Ana Clara, não a sobrinha. Não tenho sobrinhas, nem sobrinhos. Mas acho que a Aninha será, para sempre em meu coração, a minha primeira sobrinha, a menina filósofa, dos olhos grandes, do carinho imenso, menina que me faz acreditar em filhos, no mundo, no amor. Queria um dia saber escrever um texto tão bonito quanto ela, tão suave quanto ela, tão especial e único na minha vida quanto ela. Ela ainda não sabe ler. Até onde sei, lê apenas algumas coisas. Espero que quando ela aprender a ler direitinho eu já saiba escrever direitinho e encontrar palavrinhas para dizer o quanto ela é também a minha Aninha, a minha menina, o quanto será para sempre, no meu coração, minha pequena sobrinha.
Eu sou uma menina que gosta de crianças. Mas a Ana Clara eu não gosto, eu amo. Grande, grande, bem grande. Do tamanho de um elefante. E para sempre.
A gente não faz amigos, reconhece-os.
As últimas vezes que ela me viu, eu chorava. Por causa dela, por causa do mundo, sempre acabava chorando. Ela me olhava e dizia: Por que você está chorando, Camila? Eu dizia: Chorando, eu? Imagina... E abria um sorriso. É uma poeirinha que entrou nos meus olhos... E chorava.
Se eu pudesse eu faria um mundo melhor, todo mais colorido, só para ela nunca precisar chorar, para mostrar pra sempre o sorrisinho lindo, os imensos olhos verdes, azuis, ela diz, azuis. Você puxou o titi e a vovó, eu dizia. E ela ria, me puxando, dizendo que não, que não tinha puxado ninguém, não. E fazia desenhos e cortava papel. Muitos desenhos, muito papel. Tinta e potinhos da cozinha. Festa de aniversário das bonecas. Dançar enquanto o titi tocava alguma coisa improvisada, ela adorava dançar. E tocar nos instrumentos e mexer nas coisas que não podia. E virar as coisas da tia Má. E brincar de assustar, brincar de esconder. E de dar abraço de elefante, de formiguinha, de peixinho. E de chorar quando eu ia embora. E de brigar comigo às vezes, na verdade foi uma vez. E de escovar os dentes comigo, colocar a roupa igual, vestir igual. De pentear o meu cabelo (e embaraçar a escova nele). De tomar banho comigo do lado, de ir ao banheiro junto. De dizer "Vou comer os brócolis", quando eu disse: "Você quer comer arvorezinhas?" e me deixar com cara de boba. De ler comigo seus livros, de andar pra cima e para baixo com a sua biblioteca ambulante. de ler os meus livros, de me fazer contar a mesma história quatro vezes. De brincar de bailarina, de cantar: "Só a bailarina DI não tem". De ficar triste porque a bailarina não tem namorado: Coitada! De dar a mão na hora de dormir, tomar mamadeira com a mãozinha na minha, deitada no berço.
Nunca deixei que ela me chamasse de tia. E não é por medo do termo, não, é por medo de magoá-la um dia. Como é que a gente perde um tio assim de repente? Como um tio some no mundo assim? Achei que ela poderia sofrer. Lembro do querido Titio Tateu dela e de como ficou chateadinha quando descobriu que ele não namorava mais a tia Má. Então eu era a amiga Camila, não a tia. E ela era a amiga Ana Clara, não a sobrinha. Não tenho sobrinhas, nem sobrinhos. Mas acho que a Aninha será, para sempre em meu coração, a minha primeira sobrinha, a menina filósofa, dos olhos grandes, do carinho imenso, menina que me faz acreditar em filhos, no mundo, no amor. Queria um dia saber escrever um texto tão bonito quanto ela, tão suave quanto ela, tão especial e único na minha vida quanto ela. Ela ainda não sabe ler. Até onde sei, lê apenas algumas coisas. Espero que quando ela aprender a ler direitinho eu já saiba escrever direitinho e encontrar palavrinhas para dizer o quanto ela é também a minha Aninha, a minha menina, o quanto será para sempre, no meu coração, minha pequena sobrinha.
Eu sou uma menina que gosta de crianças. Mas a Ana Clara eu não gosto, eu amo. Grande, grande, bem grande. Do tamanho de um elefante. E para sempre.
A gente não faz amigos, reconhece-os.
5 commenti:
Que texto lindo, Ca... Crianças têm uma capacidade enorme de sentir esse amor que a gente tem por elas, mas, adultamente, tem vergonha de falar... Bjo.
Estou tentando formar uma visão dessa natureza sobre as crianças. Tentando enxergar o lado puro. Está um tanto difícil... mas acho que tu me ajudou. É realmente lindo o teu texto, pessoa!
Que lindo presente pra ela Cá, texto meigo! Ela é linda tbm!
bjo bjo
Cá que lindo!, e Ana Clara é linda também!
beijo grande!
Ca,
Demorei um tanto para escrever aqui... Acho que na verdade, porque qualquer coisa viraria um tremendo clichê, qualquer coisa que eu dissesse...
Me senti meio boba quando olhei para os lados, e poderia alguém me ver chorando tanto, tanto, em frente a tela do computador.
Este texto um dia ela vai ler, eu li um pedaço e mostrei a foto...
Ela fez um desenho...
No dia do aniversário, eu com ela, a Tia Má pegando um urso e o pai dela indo te buscar...
*A pequena filosofa se reconheceu na grande...
um beijo enorme
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