domenica, luglio 19, 2009

"Tudo principia na própria pessoa"


Um pouquinho sobre mim nesse mês de julho

Poderia escrever sobre a solidão, que tem sido a tônica do mês. Podia falar da minha mania de solidão, desde pequena. Do gosto de estar só pelos cantos, lendo, ouvindo músicas, escrevendo, pensando nas coisas do mundo. Não, eu não era uma criança que não se envolvia com os outros. Fui uma criança falante, falava pelos cotovelos, ria, brincava, fugia de casa com fraldas para ir à casa da vizinha. Mas a solidão sempre me acompanhou, mania de ficar só, com os olhos parados. Mania de gostar de dia chuvoso, gostar de silêncio. Necessidade de um pouco por dia ficar sozinha, apenas com meus sentimentos, pensamentos.. Por isso sofri um bocado na época da faculdade, precisava dividir o quarto, o tempo, espaço, a minha bagunça costumeira, o meu canto com alguém. O tempo todo. E as pessoas que moravam comigo, queridíssimas, que eu amo, eram, no entanto, muito diferentes de mim. Para ficar só era difícil, apenas nos banquinhos do condomínio ou nos cantinhos da USP. O condomínio era, aliás, muito bonito, sinto saudades de lá. Durante essa época de faculdade eu aprendi muito sobre convivência, sobre o outro, sobre respeito, sobre amizade. Sobre a solidão.

Então eu poderia falar de solidão, agora que eu estou há quase dois anos morando só. Poderia falar desse mês de julho, frio e silencioso, em que a maioria dos amigos está viajando.. Mês passado, conversando com a Renata, concluímos que um paulistano que mora sozinho e não faz faculdade e não tem parentes em São Paulo... esse pode falar com propriedade sobre a solidão.

Podia contar da agitada vida cultural das últimas semanas, de alguns planos que se tornaram de repente mais palpáveis e tendem a virar realidade.

Vai ao cinema sozinha? Sempre ouço essa pergunta quando alguém quer saber o que eu vou fazer em tal horário. Vou, ué. Ao cinema, ao teatro, a shows, palestras, passeios. Até convencer alguém para ir comigo... às vezes me dá uma preguiça e acabo só. Claro que existem amigos mágicos, como o Gil - que aparece assim, no meio do nada, e me acompanha e passa dias comigo e gosta das coisas que eu gosto e é uma companhia das mais bonitas desse mundo.

Podia ainda falar de amor. De um e-mail bonito que recebi e das lágrimas que derrubei no meio do show da Elba Ramalho no Anhangabaú. Podia falar de saudade. De fins e começos.

De Piedade. Da família. Da saudade de estar perto e dos dias que vou ficar juntinho deles.

Podia falar da última vez que estive lá e fui na manhã de segunda para a casa da minha avó. Encontrei meu avô na varanda, lendo, tomando um fiozinho de sol do inverno piedadense. Podia falar da minha avó na cozinha. Do cheiro da casa, das cores, das florzinhas na entrada. Podia contar que é a casa mais bonita que eu conheço. E é mesmo, não é exagero. É a casa que mais amo, a mais delicada, a mais colorida, a mais verdadeira. Podia falar da conversa com meu avô sobre meus planos, da delicadeza dele, dos comentários e sugestões, podia até contar que ele, dessa vez, esqueceu de casamento e marido e filhos e dividiu comigo as minhas alegrias. Podia falar dele, do meu avô lendo na varanda. Da hora que eu saí correndinho, com mala, indo para a rodoviária (que fica bem perto). Do momento que olhei para trás e vi seu Argemiro lendo, sentadinho na casa florida. E meu coração apertou com vontade de ficar lá por mais mil horas, dividindo todas as histórias, as leituras, os gostos. Da vontade de sentar ao lado da minha avó e conversar com ela por horas. Ultimamente eu não vejo mais novela, falta de tempo, de interesse.. Mas lembro que no ano passado eu vi Ciranda de Pedra na casa da minha avó. Em julho. Eu estava de férias e passei o mês todo indo lá, vendo novela, conversando, gravando histórias deles (que eu ainda não transcrevi, preciso fazer isso com urgência!). Era julho e frio. Eu ia lá muitos dias, sentava, ouvia as histórias. E na TV passava Ciranda de Pedra. Novela inspirada no livro da Lygia. Eu li alguns livros da Lygia (e são muito bonitos) mas não li esse, então não sei dizer se a novela seguia o livro ou não. Ultimamente, como eu disse, eu não gosto de novelas. Isso de uns bons anos pra cá, talvez nove, talvez oito. Mas essa novela, essa Ciranda de Pedra, com a música do início cantada pela Elis, música que faz a Júlia, minha priminha caçula, se agitar e cantar e dançar junto, essa novela eu gostei. Vi durante um mês. Depois, aqui em São Paulo, vi mais alguns capítulos. Gostava de ver a novela porque me lembrava a minha avó, me lembrava Piedade no final da tarde, me lembrava aquele aconchego todo que eu sinto quando estou lá, na casa dos meus avós. Ontem, passeando pela loja de CDs, esperando a hora do cinema, achei um CD com a trilha da novela. E comprei. Agora ele toca aqui em casa. Bonito o CD. Engraçado eu comprar trilha de novela.. Mas o CD é bonito e me lembra muito as tardes todas que passei em julho do ano passado com a minha avó.

Então eu podia falar sobre os meus avós. E ficaria horas contando as histórias deles, as ruas de Piedade nos anos 30, as dificuldades, as dores, as alegrias, os filhos, os medos, as perdas, as soluções, a religião..

Podia ainda falar da falta de tempo. Do tempo que vai martelando e passa numa velocidade impressionante. E da sensação de perda que isso me causa. O tempo acelerado. 2002 que virou passado do passado. 2005 que já faz quatro anos. 2007 que já faz dois. O tempo e sua mania de correr. O medo que isso me causa. A falta de tempo para tantos compromissos. A minha vontade de organizar todas as coisas, as da casa, as da cabeça, as do coração. E a minha incapacidade de manter as coisas organizadas por muito tempo. A briga que travo comigo para tentar manter as coisas em ordem. Os pesadelos da noite de ontem. O pensamento que vai longe, eu segurando o pensamento, eu tentando manter a ordem dentro de mim, mas o pensamento correndo, sozinho, solto, indo e voltando e parando num mesmo lugar por vezes.

As conversas com a Renata pelo telefone, as risadas. A saudade dela que eu ando sentindo.

Podia falar de Deus e de mim. Do quanto ando mística e um tanto religiosa.. No sentido de conversar com Deus em alguns momentinhos do dia, conversar como eu fazia quando pequena, conversar como eu faço ainda grande, quando acho que preciso de orientação. Conversar e mostrar os sentimentos como não mostro para ninguém. Falar dos medos, das angústias, das alegrias. Agradecer. Ando agradecendo muito todas as pessoas que ele colocou na minha vida, tudo o que melhorei nos últimos anos, todas as oportunidades que tive de crescer. Sexta-feira, num choro desabado no meio do show, pensei no quanto aquele menino do e-mail me fez crescer e no quanto eu também o fiz crescer. E agradeci. Chorando um choro de saudade, de despedida, de alegria, de começo. Sexta-feira, dançando e chorando, percebendo que o menino não era tão insensível quanto eu julgava, percebendo que aprendeu comigo algumas coisas.. Sexta-feira eu aprendi com ele muitas coisas sobre mim, sobre o mundo. Aprendi a não julgar as pessoas, aprendi a ser ainda mais compreensiva.

Eu podia falar do menino. Da paixão que eu tive pela cidade dele. Da paixão que eu tive pelas histórias. Da paixão que eu tive pelo mundo dele, pela novidade, pelo gosto novo que ele me trouxe. Podia falar que o conheci no dia do aniversário da Mariana, no final de outubro do ano passado. E que talvez eu nunca tenha me apaixonado por ele, talvez tenha. Mas que me apaixonei pelo mundo dele. Que ele me irritava, que tinha defeitos que desde o ínicio eu percebia que não poderiam estar em alguém pra mim. E que ele não era pra mim e nem eu pra ele. No entanto ele me trouxe algumas coisas no beijo. Me trouxe algumas coisas entre os dedos. Mexeu com algumas certezas, mexeu com alguns preconceitos. Mexeu comigo, com a minha realidade, com o meu mundo. Não tenho tanta certeza se mexi isso tudo com o mundo dele. Talvez sim. Ele mexeu com meus horários, com meu tempo.. Mas não consigo declarar mais que foi uma paixão. Foi mais um cutucão. Um chacoalhão. E eu, na minha mania de amor, nesse coração que tem mania de amor, como a canção do Paulinho, misturei com amor. Não houve amor. Não esse que conhecemos, não esse que eu espero viver outras vezes por aí. Não. Mas houve uma ruptura. Com velhos padrões, velhas manias de ver o mundo...

Eu podia falar muito sobre ele, o menino. Mas não. Tem coisas que são só minhas. Podia contar outras coisas que andam acontecendo, podia falar de encantamentos-desencantados, de um príncipe desencantado que conheci há um tempinho. E de como ele parecia doce e de como ele é... de como não o conheço. Podia falar sobre príncipes e sapos, encantamento e desencantamento. Mas não.

Podia falar de música, de coisas novas que ando ouvindo (e são muitas), da necessidade absoluta de música boa, sempre, toda semana, sempre. Da necessidade diária de música, de poesia, do alimento que são pra mim.

Podia ainda falar da Queiroz, da nossa conversa por horas e horas e horas num bar. De como chorei, ela quase chorou, de como me abri com ela e contei coisas novas e velhas, de como eu gosto dela. De como ela me emociona. Também poderia falar que ela, de certa forma, não me conhece. E tem um olhar diferente sobre mim, a partir do que ela viveu, assim como eu, a partir do que vivi, a observo. Podia falar do quanto ela é importante na minha vida e de como eu ficaria mais horas e horas e horas conversando, rindo e chorando com ela. Do quanto estou feliz com a viagem dela, do quanto ela é linda, forte e mulher. E de como é uma das pessoas mais bonitas que eu já conheci e de que quero ela sempre na minha vida e de que quero me esforçar muito para estar perto dessas pessoas que são as fundamentais, as que eu amo de verdade, as que me amam, as que valem a pena. E de como, por tantas vezes, eu deixei de lado amizades assim... em nome de namoros, de querer ficar sozinha, de estudo, de provas, de trabalho. Deixei de lado, dormindo, amizades que são mais importantes que todas essas coisas. E de como não quero mais fazer isso. De como foi bonita essa nossa conversa de horas e quanta vida eu vi ali. Dos olhos brilhantes dela, da sensibilidade, da sinceridade.

Eu poderia falar de tantas coisas, são tantos os acontecimentos, tantas coisas acontecendo... Poderia me prender em apenas um aspecto do mundo: a música. Ou poderia falar sobre o amor. Ou poderia falar sobre amizade. Sobre Deus, sobre a família, sobre leituras novas (e são muitas). Poderia não falar de nada e silenciar. Poderia. Mas escolhi pincelar o mundo, falar um pouquinho de quase tudo e não falar de quase nada. Escolhi não falar sobre as coisas que mais andam me deixando agitadas, sobre o pensamento... Escolhi pincelar o mundo, agora, julho de 2009, domingo, dia de arrumar as coisas, de ver tantas coisas atrasadas. Dia de teatro.

Estava ouvindo a música do CD... Tudo principia na própria pessoa. É isso. É isso. O meu mundo nada mais é do que eu, a forma com que olho pra ele, o tratamento que dou, o que construo. O meu mundo principia em mim.

Hoje eu busco forças para ser mais forte que o tempo e conseguir resolver as pendências, as bagunças. As de fora, que são dessa vez poucas. E as de dentro. Essas que não pude contar. Mas que andam bagunçadas, bagunçadas. Essas. Hoje eu busco coragem para organizar a casa, o coração, o pensamento, o tempo.

7 commenti:

Li ha detto...

Eu já te disse que o seu coraçãozinho é um dos mais lindos que eu já conheci nesta vida?
Definitivamente eu sou uma garota de sorte!

Déia ha detto...

Um dos teus textos mais bonitos e maduros. Obrigada!

Van Pelt ha detto...

Belo texto! e bem maduro como diz a Déia...
E foi bem propício que eu abrisse agora...precisando tanto de algumas palavras...
Beijo Ca

Anonimo ha detto...

Adorei o texto.

Igor Pushinov ha detto...

Que lindo Cá!
Eu sei como é a vontade de falar do mundo inteiro e não dar conta... É que é vida demais, amor demais, gente demais... Nós, água que somos (digo isso porque te entendo!), vivemos a vida assim: no demais, no muito, no grande...
Mas posso falar? Amo meu jeito água de ver a vida...


PS1: Domingo, dia de teatro? Quando é que vc vai me ver, falando nisso?

PS2: Você sempre pode dizer que me ama... no meu blog, na minha cara, na minha vida... Te amo e sinto saudades!

Gil ha detto...

Amor meu
Os seus textos mexem com tanta coisa ao mesmo tempo em mim que é difícil falar de tudo. E nessa história de "poderia falar" você acabou falando tudo... Mais uma vez - jamais devo me cansar de agradecer - obrigado por me permitir fazer parte desse seu bagunçado, intenso e lindo mundo.

Camila ha detto...

quantos comentários bonitos...

preciso ver o Igor no teatro mesmo... que desnaturada que eu estou...

é... não falei, mas falei. não disse, mas disse. não dá pra falar tudo, mas tem coisa que está bem clara, né? é só ver com atenção (como vocês fazem). fui falando um pouquinho de cada canto...

nesses comentários estão 6 das pessoas que eu mais amo no mundo.

beijinhos e obrigada por lerem minhas coisinhas de camila. :)