Ju Fidelis e eu
(última visita da Ju ao Brasil, agosto de 2008)
(última visita da Ju ao Brasil, agosto de 2008)
Olha essa hora! Cheguei em casa tardão, mas sem sono. Resolvo abrir o e-mail para procurar um e-mail perdido com algumas informações importantes. Uso o sistema de busca... e o que encontro? Uma cartinha aberta que escrevi para a Ju Fidelis, que botei no blog e depois tirei, e mandei por e-mail mesmo, achei íntima demais na época... Foi escrita nos dias 03 e 04/04/08.
É de uma coincidência sem tamanho eu me deparar justamente com essa cartinha aqui. Coincidência porque foi escrita para a Ju, pessoa que me ajudou muito na semana passada, numa longa conversa por telefone, a tomar uma decisão.
A carta já caducou. As tristezas (e algumas alegrias) da época também caducaram. Algumas relações mudaram. É até engraçado ler isso hoje. Nessa semana também tive uma conversa longa com a Mari e com o Rafa. Mas a conversa foi... completamente diferente, completamente surpreendente.
Engraçado ler meus sentimentozinhos de um ano e quatro meses atrás... Escrever, ler, reler... para mim tudo isso foi sempre instrumento de autoconhecimento. Exatamente por isso escrevia desde os 7 anos todas as coisas que se passavam pelo meu coração e pela minha cabeça...
Registro aqui, para os que têm paciência com textos camilísticos, a carta - imensa, enorme, gigantesca, mas cheia de amor, carinho e amizade. Carta para uma grande, grande, grande amiga...uma das pessoas que mais admiro nesse mundo. E com quem divido a certeza de que sentir é muito (mas muito, muito, muito, muuuuuuito) mais importante do que compreender.
"Ognun vede quel che tu pari, pochi sentono quel che tu sei..."
Ju... Cá estou eu, é um pouco tarde, mas eu gostaria de te dizer algumas coisas. Ando lendo cartas, muitas cartas... Cartas minhas, cartas de outros. Deixe-me explicar. No meu aniversário ganhei do Gil um livro lindo, com as correspondências trocadas entre a Clarice Lispector e suas irmãs. Lendo o livro, lembrei muito de você. Sempre que leio o livro, penso em você. Os sentimentos que lá estão, aquele amor fraternal, aquele amor macio de dividir o mundo com as irmãs, é exatamente o amor que divido com você, é exatamente o que a nossa amizade significa. Em grande parte do livro, Clarice está na Itália, então isso me faz lembrar mais e mais você. Tenho pensado muito em cartas nos últimos tempos. Preciso do seu endereço, preciso e quero muito lhe mandar cartas, muitas cartas minhas, contando das coisas desse meu mundinho. Nesses dias li muitas cartas antigas que mandei, que recebi. Um mundaréu de cartas. Namorados antigos, amigos... Cartas, cartões, bilhetinhos. Tudo isso aquece a alma de um jeito sem fim. Aquilo que fomos e somos, nossa história. Infelizmente as cartas e bilhetes que recebi até os 17 anos foram todos para o lixo - idéia da moça que trabalhava em casa e que me fez chorar uns três dias em 2006. Dessas cartinhas de infância e de adolescência, trago só a lembrança. As outras estão cá vivas, materialmente, cheias de histórias de mim e do mundo. Tenho pensando em você. Esses dias ouvi que não sou doida, sou apenas uma menina triste. E não é que achei bonito? Eu e a minha mania de achar bonitas algumas coisas assim tristes. Também sei que para muitos eu sou uma menina alegrinha. Acho que sou os dois, a menina alegrinha e a menina triste, a menina e o mundo difícil de manejar. Lembro do Gil e de você me chamando de espevitada, gosto da palavra espevitada, tenho um texto bobinho mas bonitinho em que digo "espevitar palavras". Um outro dia escrevo mais sobre a idéia que os outros têm do que somos. Outro dia. Hoje quero falar do meu amor, do imenso amor que sinto por você e da alegria viva que me traz a sua lembrança. Pena você morar tão longe, pena. Qualquer dia dou um pulinho aí pra te ver... Na verdade tenho pensando muito nisso. Sabe o que acho, sinceramente? Que se eu for para aí nunca mais vou querer voltar. Me parece. De tudo o que li, estudei, vi e ouvi... Acho que ficarei. E tenho medo desse meu desejo de não voltar. Cá no meu mundinho, no meu canto colorido, as coisas andam um tanto sozinhas. E isso tem me feito mal e isso tem me feito bem. Gosto de um canto meu, mas às vezes me falta calor humano no decorrer do dia. Tenho uma amiga nova - e bem bonita - que vem colorindo meu mundo de um jeito tão gostoso. O nome dela é Mariana e durante a semana é um calor humano muito doce. Você gostaria um tantão assim de conhecê-la. Penso sempre em você assim. Tem dia que vejo um filme, vou a um show, tomo um suco de melancia. Tem dias que estou distraída, com os pensamentos soltinhos e esqueço de pensar... Mas tem dias que penso muito em você, em como você gostaria de estar ali, em como eu gostaria de te ter ali, do meu lado, só para compartilhar a alegria que aquela música me traz, por exemplo. Você está internalizada. Gosto do seu jeito de ser amiga, de ser amiga e muito, de lembrar de mim quando vê coisas bonitas. Gosto de lembrar de você falando que quando vê uma flor bonita lembra sempre de mim. Isso me emociona. Sempre lembro de você também quando as coisas vão acontecendo. Lembro dos seus conselhos... De você me mandando cuidar do meu jeito - exagerado - de viver o mundo, de você pedindo para eu cuidar do meu coração. Gosto da sua imensa compreensão sobre quem sou eu, sobre a minha maneira de ver e sentir as coisas. De você achar bonito o meu jeito de só querer estar se estou feliz, de só querer trabalhar com o que me agrada, de brigar pelas coisas que acredito. Gosto de como você compreende as minhas paixões e de como me olha quando nos encontramos. Gosto de lembrar que eu li pra você a maior carta que já escrevi e que nunca mandei para o destinatário... Gosto de lembrar do colar verde que você fez pra mim só para me dizer que eu era importante, isso antes da nossa amizade existir. Gosto dos seus e-mails grandes - saudades deles - nos quais você descreve seu mundo, seus cantos, as comidas, os gestos, os olhares, a ausência de abraços, os cheiros, as cores, o cotidiano, os desejos. Gosto e me sinto absolutamente feliz só de saber que em algum cantinho do mundo você existe. Gosto de chorar com você em qualquer lugar. De você contando histórias tão suas e chorando. Gosto da sua maneira de ver o mundo - ainda que às vezes ela seja diferente da minha. Gosto de discutir com você sobre vários assuntos, gosto quando você me critica. Venho pensando numa crítica que você fez, quando disse que sou extremamente doce com quem amo e indiferente com o resto, que esqueço de cumprimentar, de dizer oi - esqueço mesmo, mas é uma espécie de moleza, de preguiça, de vontade de ficar quietinha, venho tentando melhorar, mas me incomoda chegar nos lugares e ter uma multidão de pessoas para cumprimentar... Essa sua crítica me fez pensar sobre como sou, sobre a minha impaciência em estar em lugares com muita gente e na minha imensa preguiça de ser gentil. É, eu sou contraditória. Tem dias que não quero a companhia de ninguém e quero me esconder do mundo... Penso em você caminhando por aí. O mundo por aqui anda igual, exatamente da mesma maneira da última vez que conversamos. O mundo é complicado e bonito. Hoje ele amanheceu complicado e agora ele está bonito, levinho, cheio de algumas alegrias mansinhas. Lembro de você, do seu jeito sapeca de ser. Lembro do dia que te apresentei a Camilla e que levamos para ela a carta-resposta da Befana... Passamos no correio e queríamos que o bendito moço carimbasse a cartinha - Camilla é uma menina pequena, mas bem espertinha. O moço não queria por toda a lei e enquanto eu tentava convencê-lo, você puft, carimbou a cartinha na frente dele. Achei aquilo de uma "sapequice" sem tamanho. E lá fomos nós, cartinha carimbada e tudo, para a casa da Camilla. Aulas de italiano me lembram você, aulas que dou. Tenho estado bem feliz e recebido uns elogios bem bonitos. Esses dias eu estava indo dar aula, Biel (um amigo novo e fofíssimo também) me pergunta: Mas você vai dar aula para crianças? Não, Biel, vou não. Mas para que tantos joguinhos? Muitos jogos, muitas brincadeiras, para mim o italiano é uma coisa lúdica e colorida. Nada combina com consulado e com gente séria. Será isso um erro meu? Para mim ensinar italiano é ensinar um jeito de ser feliz e mais alegrinho, um jeito de ver o mundo como uma brincadeirinha bonita. Lembro de você, nos nossos sonhos de aulas e de casa pintada de verde - existem sonhos que de tão bonitos, mesmo que não cheguem a existir é como se existissem. Quanto aos sonhos, tenho tido muitos. Alguns coloridos, alguns cheios de caquinhos (literalmente), alguns confusos, outros loucos, outros clarinhos. Se penso em floricultura, lembro de você. Da gente caminhando - nos desejos - de chapéu pelas areias, dividindo um jeito de ver o mundo. Lembro de quanto você é meu espelhinho e de quanto te amo e de como pessoas importantes entram na nossa vida por acaso. Está um tanto tarde e eu tenho que dormir. Mande seu endereço por e-mail. Decidi escancarar aqui essa carta; sou mesmo uma pessoa escancarada e a carta também não conta nada de muito especial. Além do mais você gosta do meu blog e eu queria uma carta bem colorida pra te dar hoje. Uma última coisa que lembrou você... Voltando pra casa hoje, sentada no metrô, com os olhos mergulhados no livro que te falei, lá ia eu pensando - e muito - em você. Eis que um moço bonito - bem bonito mesmo - não pára de me olhar e sorri. Trocamos duas palavrinhas e eu volto a ler. O moço olhando com uma ternura, como se eu já o conhecesse de qualquer lugar. (Tenho conhecido muita gente assim pelos ônibus e estradas do mundo...) Penso: o que será que ele viu demais em uma garota com os cabelos desarrumados, lendo um livro... no metrô? Certo que naquele momento eu estava levinha, muito levinha, pensando em você, na amizade, na mágica do dividir. Então era uma menina de cabelo bagunçado, cheia de papéis, lendo um livro no metrô, feliz, bem feliz. O moço falou mais algumas coisas e sorriu. Desceu uma estação antes da minha. Quando ele desceu, eu fiquei pensando: Puxa vida, São Paulo é mesmo uma loucura... Nunca mais voltarei a ver esse moço que me parece tão conhecido! Então, quando resolvi voltar a ler o livro, bem lá no meio tinha um papelzinho de Trident com seu nome e telefone. Tenho, nos últimos tempos, muitos telefones novos na minha agenda, sem dúvida. Mas telefones que vieram de conversas longas, de novas amizades, de grandes encontros, não telefones de moços que mal conheço. Quase certeza que nem vou ligar, coisa de doidinhos. Mas que achei bonito e que lembrei mais e mais de você e das coisas que acontecem nesse mundo, isso lembrei sim. E saí feliz do metrô, com minhas novas sensações de leveza, de amizade, de mundo, de felicidade. Beijos e abraços cheios de uma imensa saudade. Você anda comigo por todos esses lugares do mundo, mas sinto falta da sua voz. Te amo grande, grande, muito grande. Camila
*Dia 4: Ontem escrevi essa cartinha aí, mas tinha muito sono e nem cheguei a colocar no blog. Hoje, dado que não publiquei a carta, ainda dá tempo de dizer mais algumas coisinhas. Sabe o que me deixa bem feliz? Lembrar de você em casa no ano passado, com o mesmo livro que eu estava lendo, na época, da Clarice (A Descoberta do Mundo). E mais: lembrar de você dizendo que quando lê Clarice lembra de mim. Outra coisa que me faz pensar são os seus conselhos... Você dizendo para eu escrever mais, que eu deveria ser escritora - meu grande sonho de infância, sabia? Há quanto tempo não paro para fazer uma poesia, para escrever um conto, para dizer as coisas. Acho que preciso pegar no meu pé talvez. Mas só talvez... Existem tantas pessoas boas escrevendo por aí, desde que entrei na Letras concluí que ser escritora era uma coisa um tantinho difícil, tanta gente escrevendo maravilhosamente bem, tantos poemas de amigos... Me delicio com os textos de amigos, vivo brigando para a Sol voltar a escrever, por exemplo. Agora pensando me dá saudade de sarau - quanto tempo não vou a um sarau! Dos que organizávamos... E dos saraus de brincadeira... Da Déia recitando "Quem quer pão, quem quer pão... Que tá quentinho, tão gostosinho...". Encontros maravilhosos na casa do Marco... Acho que escrever é sempre uma forma de dividir o mundo... Desde pequena trago amigos poetas, amigos que escrevem cartas, amigos que escrevem poemas e que trocam palavrinhas comigo. Acho que para mim escrever é uma forma de amizade, uma forma de estar mais próxima. A leitura em voz alta, os textos feitos em conjunto, as risadas, os arrepios... Nada como amigos que se arrepiam com as mesmas coisas... Ju, aqui hoje faz frio e chove. Eu estou com os cabelos desarrumados (como sempre). Hoje numa conversa com a menina Mariana e com o Rafa, ele contou uma história triste, mas tão triste que eu acabei ficando triste por ele e pensando: Por que esse mundo é assim? Não, a história não fala de morte, nem de doença. Fala de amor. De um menino abandonado, de abraço que envolve o mundo, de um menino carente. Mas é bem triste mesmo. Daí a tristeza (dele) que ficou comigo (e com a Mariana) custou a passar. Sabe o quanto gosto das histórias dos outros? Gosto tanto, mas tanto, tanto... Gosto de ouvir pessoas queridas contando suas coisinhas, seus caminhos, seu jeito de ver o que passou... Mas me envolvo. Me envolvo enormente com as histórias... Eu não serviria - e nunca - para ser médica, acho que nunca conseguiria dormir. Não saberia separar a dor dos outros da minha (se dói tão perto nos outros, dói em mim também), a morte dos outros, as perdas todas... Deus me livre! Lembro até hoje (com aperto no coração) de uma moça muito querida da minha cidade chorando no banquinho do hospital a morte do seu namorado. Eles estavam juntos há 11 anos. Eu estava lá coincidentemente pois minha mãe estava meio doentinha. E foi uma coincidência triste. A moça tão, mas tão bonita - menina que nem é amiga minha muito próxima, mas que eu admiro muito - soluçando alto no banquinho, agarrando o pai - isso quando resolveram contar pra ela que que o namorado tinha realmente morrido; todos já sabiam, já tinha percebido, menos ela. Sonhei com ela, minha ternura por ela duplicou, fui ao velório, achei de uma força enorme a maneira que ela encontrou de viver - e sorrir. Não sirvo para lugares onde todos os dias acontecem grandes tragédias. Ainda hoje o banquinho do hospital me lembra aquela menina chorando, chorando uma dor que nunca - verdadeiramente nunca - irá se resolver de vez. Quem explica a morte? Eu já choro as tragédias dos alunos, tão pequenos, tendo que conviver com preconceitos, separações, mortes, paixões, desafetos, violências, com o mundo... Ju, como eu falo, não? Só queria te dizer que sinto falta das nossas longas conversas e que você é muito, muito linda mesmo. Espero que por aí as coisas estejam bem coloridas - e as roupas também! Que o seu amor esteja cada dia mais lindo... Que vocês sejam cada dia mais e mais felizes. Sabe o que imagino? O seu primeiro filhinho - ou filhinha. Coisa que você deseja de um jeito tão bonito... Imagino você com barrigão, enchendo a casa de flores e de sorrisos... Essas coisas de vida e morte. Esses dias pensei... Prometo que se você morrer - coisa que você não vai de jeito nenhum - boto uma música bem linda pra tocar e tento fazer a festinha que você pediu. Isso tudo não me parece bonito, como no filme Sonhos. Você é muito novinha e tem milhões de coisas pra fazer, para viver, filhos para ter, amor para dividir (com os amigos e com seu grande amor). Concordo somente um pouco contigo... As famílias são todas problemáticas mesmo, o que importa é aprender a conviver. Mas as mortes prematuras... Não consigo concordar que são coisas do mundo... E se você morrer eu vou ficar tão brava contigo, dona moça! Conversas, conversas... Ju... Estive pensando... Falando de novo em Clarice - ok, estou numa fase bem "clariciana" mesmo - numa coisa que ela escreveu ao contar sobre uma senhora gorda, bem gorda que conheceu numa festa. Disse que se a gente tivesse duas vidas não teria tanto problema em gastar uma delas sendo tão gorda. Então eu fui pensando... A gente tem só uma vida - única, bem única - será que devemos gastá-la com coisas bobas, com coisas que não fazem sentido e que não sejam verdadeiramente o que somos? Queimar a vida num trabalho que não gostamos, com pessoas que não gostamos, em lugares que não gostamos? Acho que não devemos. Acho que sempre que começarmos a ser bobos, devemos pensar "só temos uma vida" e ir fazer o que queremos mesmo. Não falo em sair por aí atropelando pessoas e sentimentos ou mesmo em carpe diem - não é bem isso. Falo na mágica que é existir e na bobeira que é perder momentos especiais com bobeiras. A gente só tem uma vida. Bonito pensar assim. A carta ficou imensa. Será que você dará conta de ler? E os outros freqüentadores do meu cantinho (já que é uma carta aberta, carta sobre o amor bonito dos amigos)? Sei não, sei não. Muitos beijos nesse mundo. Hoje faz frio aqui - eu já disse, né? - e nesse momentinho tenho uma imensa vontade dos seus abraços, dos seus sorrisos, das suas palavrinhas. Te amo amo amo amo. Cá.
Ps. A ortografia da carta é de 2008. Claro que eu não ia consertar.. preguicinha..rs
3 commenti:
Você falando de amizade é tão bonito.
Bj. Te amo.
Tb te amo, querida Mel.
Ah, pessoa. Que lindo tudo isso. Amo sua intensidade. E amo saber que gostou tanto do livro...
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