lunedì, agosto 10, 2009

Pequenininha



Agora já é 10 de agosto, aniversário do meu pai. Dia em que meu avô (pai do meu pai) morreu há muitos anos atrás, quando eu tinha mais ou menos nove anos.

Hoje eu tive um dia todo bonito. Me reunir com meu avô materno e com meu pai é coisa rara. Nesse ano fará nove anos que meus pais se separaram. Nesses nove anos dá para contar nos dedos de uma mão quantas vezes conseguimos estar perto do meu pai e da família da minha mãe ao mesmo tempo.

Meus pais têm lá seus problemas (e seus laços) mas se dão bem. Meu pai não tem problema algum com a família da minha mãe. Ou tem. Acho que a sensação de não pentencer àquele mundo. Mas meus tios e avós têm um carinho enorme por ele. Alguns choram ao falar dele, com um carinho que sempre me faz chorar.

Meu pai é um cara complicado, mas acho quase impossível não gostar dele, não sentir o que ele é. Meu pai é um grande sonhador, um cara de uma sensibilidade única. É comum as pessoas falarem dele e ficarem com os olhos cheios d'água. Porque quase sempre ele é ausente, ele falta. E como diz Drummond, a ausência é um estar em mim, só sentimos falta de quem está presente, de quem está dentro de nós.

Hoje conseguimos reunir o avô materno e o pai. Tive um dos fins de semana mais bonitos do ano. Ontem fui com a minha avó a um recital de piano. Depois fiquei até às duas da manhã conversando com meu tio na casa dele. Hoje estive com muitas das pessoas que eu mais amo nesse mundo. Família imensa, reunida, desde manhãzinha até às 23 da noite. Passei o dia entre comidinhas, doces, abraços e beijos, conversas, colo. Passei o dia bebendo vinho com a prima Mariana, conversando sobre o mundo. Rindo. Dançando. Conversando com a tia Clau. Recitando Pessoa com meu avô. Conversando sobre o curso que a minha tia está fazendo. Comendo queijo. Almoçando e jantando. Fazendo carinho nas pessoas que eu amo. Passei o dia numa leveza só, me sentindo grande, preenchida.

...

Mas o dia acaba com o pai bêbado, querendo pegar estrada. O pai muito bêbado, querendo dirigir, fazendo as gracinhas todas que ele sempre fez, mas que hoje em dia me machucam muito mais. Domingo é dia dos pais. Segunda é aniversário do meu pai. No ano passado ele sumiu, as duas datas caiam no mesmo dia e ele desligou o celular e desapareceu. Não gosta do dia 10 de agosto, data em que perdeu o pai.

Eu lembro bem do dia. Meu pai fazia uma festinha em casa. Tinha música, comidinhas, tios e amigos queridos. O telefone tocou, ele atendeu e disseram que meu avô havia morrido. Não houve mais festa. Nem em outros anos. Nem bolo. Eu estava dormindo quando o telefone tocou, mas me contaram. Acordei de manhã cedinho com um monte de gente em casa. Me disseram que meu avô tinha ido morar com papai do céu. Minha bisavó (mãe do meu avô) sofria uma dor aguda, dor que aos nove anos eu não podia compreender (e agora posso menos ainda).

Eu nada entendia de morte. Lembro de ter pensando, tentando entender. Por que é que o avô decidira morar com o papai do céu sem avisar, sem se despedir?

Meu pai é um cara chorão. Hoje me disse que aprendi o excesso de lágrimas com ele. Só que ele só chora quando bebe. Ver meu pai chorando são é absurdamente raro. Vi uma vez, aos treze anos, quando o melhor amigo dele, companheiro de violão e festas, de alegrias e cantorias, principal pecinha da banda que ele tinha, morreu. Eu ajudava minha avó na cantina italiana que eles tinham. Meu pai chegou, eu servi café pra ele. Ele derrubou a xícara. E chorou. Não era o café que ele chorava, claro. Mas dizia chorar o café. Aos treze anos, eu fiquei com o coração na mão, ao ver a fortaleza que era o meu pai pra mim chorar.

Minha mãe contou que no dia 10 de agosto de alguns anos atrás, quando meu avô morreu, meu pai não chorou quando soube, nem no velório, nem no enterro. Chorou na hora de dormir, deitado na cama. Chorou baixinho.

Agora já é 10 de agosto. Aniversário do meu pai, data mais forte e masculina de todo o calendário pra mim. Quando pequena não chorei a morte do meu avô. Eu era pequena e o avô era um tanto distante. Mas fui sentindo a falta dele. Compreendendo através do tempo o que era a morte. Que com a morte a pessoa não voltava a nos visitar. Nem a gente podia ver a pessoa quando quisesse. Nem se sentisse a maior saudade do mundo.

Em 2007 o pai de um aluno morreu. O aluno tinha 11 anos e perguntou para a tia, alguns dias depois da morte do pai: Eu nunca mais voltarei a vê-lo? Ela respondeu que não, que a morte era aquilo, mas que havia a religião, que cada uma interpretava a morte de um jeito.. Ele respondeu: Obrigado, eu tinha quase certeza, mas só queria confirmar...

Devagarinho, aos nove anos, eu percebi que a morte era um para sempre. O espiritismo, que me era ensinado desde pequena, dizia que não. Então eu pensava que se a morte não era um para sempre era um até daqui a muito, muito tempo. E isso fazia as pessoas chorarem, fazia doer.

Convivi muito pouco com meu avô paterno, mas convivi muito com os bisavós, a mãe e o pai dele. Perdi os dois, o bisavô no ano de 1997 e a bisavó em 2002. Essas perdas doeram muito. Doem ainda. Os dois viveram muito, chegaram perto dos cem anos, tinham mesmo que descansar... Mas às vezes a saudade aperta.

Está ficando tarde e não tenho a mínima ideia se o meu pai chegou em casa. Se parou em algum lugar. Não tenho ideia onde ele está. E tenho medo de ligar e atrapalhá-lo na estrada. Ele realmente bebeu demais, meu tio me pediu para não deixar que ele pegasse a estrada. Todo mundo bebe, mas ele sempre bebe mais, mais e mais.

Eu não consegui segurar meu pai, nem tive paciência com as atitudes dele. Disse, chorando, tchau pra ele, como há muito tempo não fazia. Ele queria que eu esperasse, que ele ameaçasse pegar a estrada, que eu pedisse para ele ficar várias vezes. Então ele ia chorar, como já estava quase... Ia me dizer que me amava, ia me falar das suas coisas. Ia ameaçar ir embora. Ia dizer que é imortal e que nunca vai morrer na estrada. Que nunca vai morrer. Ia me esgotar. E ia acabar indo pra casa dele ou ia dormir no carro no meu colo. Quando eu tentasse acordá-lo, ia dizer que queria ir embora. Bêbado. Quando eu era pequena e mesmo quando era adolescente, eu odiava a bebida com todas as minhas forças. Vi alguns amigos do meu pai indo embora por causa da bebida. Nessa mania de associar bebida a música. Tinha raiva dessa mania dos outros de achar divertido ficar bêbado. Sofria com isso. Sempre achei que a bebida era responsável por muita coisa na vida dele.

Agora estou com o coração aos pedacinhos. Hoje é dia 10 de agosto e ele não está aqui, como não esteve em tantas ocasiões importantes. É uma data que dói nele. Mas não é só isso... É uma mania de solidão, de ficar longe, de deixar os outros apreensivos. É essa ausência que ele sempre causa. Quando ele não está perto, sempre fica um buraquinho em mim.

Hoje não houve buraquinho. Tive o pai e o avô materno. Tive os tios e tias, primos e primas. É, eu sou uma pessoa muito família. Muito. A minha família tem um monte de coisas complicadas, como todas. Brigas, problemas, separações, casamentos, dores... Mas é a minha família. É onde me sinto mais quem sou. E eu aprendi a amar cada um deles assim como eles são, com seus defeitos e falhas. São humanos. E são pedacinhos de mim. Me ensinam a compreender, a respeitar, a tolerar, a pedir perdão, a amar. E sei que para eles eu sou importante.

Estou cá longe, no quartinho. O coração apertado, apertado. Preocupada com a estrada, com ele sozinho. Meu pai é um cara complicado. Mas eu aprendi a amá-lo do jeito que ele é. Não dá parar amar as pessoas de acordo com o que achamos que elas deveriam ser. Se for para ter algo em troca não é realmente amor. Amar uma pessoa é amá-la como ela é e não como poderia ser. Meu pai é um cara complicado, me tira do sério, me deixa assim chorando até quase duas horas da manhã. Mas eu o amo intensamente, com todo o coração. Compreendo a sua natureza desprendida, seus valores tão outros, seus sonhos, quase todos não realizados, seu jeito quixotesco de olhar o mundo. Compreendo e o amo pelo carisma, pelo coração, pela sensibilidade, pelo jeito que ele me ensinou a olhar para o mundo, para as pessoas.

Só que tem dias que queria muito terminar um dia dos pais em paz. Queria menos bebida ou menos confusão. Queria ir dormir feliz, cheia de toda a alegria que eu fui recebendo durante o dia.

Meu pai é um cara incrível. Mas às vezes ele me magoa tanto..

2 commenti:

Anonimo ha detto...

Não tenho palavras, Cá. Só quero deixar registrado que li. Talvez eu te entenda. Só talvez.
Bj

Gil ha detto...

Difícil comentar pontualmente. Tanta coisa... Sei lá por que, isso me lembrou o filme "Há tanto tempo que te amo". É isso, né? Família (pai, mãe, irmãos, avós, tios) são essas pessoas que amamos há tempos imemoriais e que independente do que nos façam são sempre essas pessoas fundamentais. Não são só filhos que dão preocupação. E a gente percebe que cresceu quando se sente responsável por nosso pai ou nossa mãe, mesmo que ainda sejamos crianças.