
Tem dias que a realidade dá uns tapas na cara da gente. Que machuca. Agride. Deixa a gente de bochecha quente, fervilhando por dentro.
Lá vem o mundo, lá vêm as pessoas, todo mundo e é tanta gente...
A pancada é dolorida. A gente vê que o outro é realmente outro. Vê de outra forma, pertence a outra realidade, de verdade. Tem outros valores, exerga o mundo com olhos que a gente nem consegue entender. Com olhos do outro. E o mais assustador... Enxerga a gente com olhos completamente distantes do nosso.
Nesse ano eu levei alguns tombos na vida pessoal. Conheci gente assustadoramente mal intencionada. Isso me deixou dias estática, sem acreditar. Descobri que a justiça dos homens nada mais é do que uma palavra, onde a lei do mais forte é sempre a lei que reina. Mas não foi descoberta olhando os outros. Foi descoberta na pele. E por mais que digam, a pele, quando é nossa, é sempre uma experiência maior. Nada sabe da fome nós que não passamos fome. Nada sabe do medo quem nunca passou medo. Nada sabe do amor quem nunca provou o amor. E assim por diante.
Hoje eu levei um tombão dentro da escola onde trabalho. Assustador. Percebi que um ser de quinze anos pode ser extremamente cruel, mentiroso, maldoso, agressivo... perigoso. E isso me assustou. Me deixou de cabelo em pé, estática, de queixo caído, olhos vermelhos, rosto quente. Respirei fundo e tentei compreender quem era aquele aluno, quem era aquela mãe. De onde vinham, de que realidade, de que mundo, de que espaço, com quais crenças, valores. Percebi a diferença, na pele. Me assustei. Lutei comigo para não ser preconceituosa, não ser agressiva, agir dignamente. Mas foi difícil.
Andei levando uns tombos na profissão. Por acreditar demais, por sonhar demais, por ser idealista demais, por não conseguir entender que as diferenças não existem bonitinhas só no papel e no discurso do politicamente correto. Elas existem, ali, firmes, fortes e diferentes. Como agir? O que fazer? Que caminho tomar? A minha primeira ideia era fugir, sair correndo, ir para nunca mais voltar. Ficar só onde interessa, com as crianças com as quais consigo lidar. Mas.. Será? Que valor eu terei se apenas recuar... Se olhar para a realidade como ela é e virar as costas? Não sei... São questões que não consigo responder.
Hoje eu permaneci forte e não chorei. Ouvi, respondi com educação. Voltei para casa com o rosto quente, mas sem chorar. Entrei em casa e algumas poucas lágrimas caíram.
Hoje eu cresci. Percebi que mais da metade do que venho fazendo como professora em determinadas realidades é nulo. É zero. É errado, não faz sentido. Que a minha maneira de lidar com alguns problemas estava errada. E ninguém me disse isso. Eu percebi sozinha, amadureci durante o caminho, refletindo sobre as minhas atitudes, sobre a minha maneira de lidar com os problemas, sobre o quanto elas não estão apropriadas, sobre como eu desconheço essa realidade.
Chateada. Sem ainda ter uma outra ideia. Sem saber como interagir com essa realidade. Apenas sabendo que é necessário um outro tipo de abordagem, um outro tipo de interação. Mas ainda sem encontrar solução. Num ambiente que me é tão hostil, tão diferente...
Estou no meio do caminho, mastigando a realidade.
1 commento:
Uma moça já disse: "O tempo faz tudo valer a pena. E nem o erro é desperdício."
E não é que é isso mesmo?
Beijos!
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