
Ou isto ou aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
qual é o melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles
Escolher. O que fazer com o tempo, que é sempre curto. O que fazer do dia. O que fazer da noite. O que fazer do mundo. O que fazer da vida. Escolher. Estive tanto tempo ausente, nesse tempo tanta coisa aconteceu na minha vida, tanta coisa aconteceu na vida dos outros. A vida não se cansa nunca, nunca para, prossegue sempre, muda sempre. O tempo não tem dó nem piedade, passa sem nem deixar espaço para nostalgia, quando vemos lá se foram dez anos. E quantas coisas mudaram nos últimos dez anos. Quantas coisas mudaram no último ano.
Há um ano e um mês eu conheci um menino, que grudou os olhos em mim numa noite de chorinho. Menino, meu menino. Quem diria que ele seria o meu menino, que chegaria transformando tudo na minha vida. Menino que eu sempre procurei e achei de repente, meio sem querer. Meu menino com quem eu vivi tanta coisa nos últimos tempos. Como pode uma pessoa fazer parte da sua vida, todos os dias, em todos os cantos, ser tão essencial e estar na sua vida há apenas um ano? Nas noites no centro cultural, no colo do menino, havia uma menina pequena, de cabelo comprido, pouco dinheiro no bolso, morando sozinha, inventando um mundo dela.. Quem diria que agora a mesma menina estaria em outro trabalho, em outro bairro, cursando uma nova faculdade? Quem diria que ela estaria ao lado do menino, vivendo algo que nunca experimentou? Quem diria tanta coisa que aconteceu?
Olho para o lado, volto a olhar para os outros, a saber dos outros, o vendaval parece ter passado ou ao menos os ventos parecem menores. Olho para o lado. Os outros vivem. Uns terão filho. Outros tiveram. Uns separaram. Outros casaram. Uns viajaram. Alguns sofrem, uns fazem bolo e brigadeiro. Alguns fazem as pazes, outros visitam, outros acabam. Há sempre encontros e separações por todos os lados.
Quem diria que em cada escolha que a gente faz há um mundo de coisas novas - e tão novas! - nos esperando? Entrar ou não no chorinho? Ligar ou não? Dar ou não dar uma chance? Pedir ou não pedir desculpas? Contar ou não contar? Ir ou não ir? Ficar? Sair? Levantar? Partir? Tomar café na esquina ou em casa? Dançar? Dançar!
Eram duas, três, quatro da manhã no centro cultural. Havia música. E a gente dançou. O menino tinha um jeito.. de menino. Me daria a lua se eu pedisse com jeitinho. Me beijava com os olhos. Com os olhos entrava em mim, me levava a lugares tão bonitos, tão distantes, era tão profundamente lírico. Me dizia: "Nunca, em toda a minha vida, nunca encontrei alguém assim como você". Eu respondia que era exagero, imagine, a vida é longa, há muitas pessoas, como nunca? E pensava que as pessoas são sempre únicas mesmo, que nunca, nunca encontraremos alguém igual a outro alguém e aí está a graça de tudo. Até conhecer o menino de vez. Era vez de samba. Era dia em que ele cantou comigo a noite toda. Era dia em que eu comecei a entender a dimensão das coisas, dos sentimentos, da entrega. Era ele, ele que, como eu, se entregava na mesma medida, com a mesma intensidade, o mesmo desejo, a mesma pureza, a mesma fé. E eu me questionando se eu ainda possuia algo dessa fé no mundo. Era um 16 de agosto. Há meses o menino na minha vida, mas eu não permitia que ele entrasse. Então ele entrou. E nunca mais saiu. Mesmo. E passamos dias sem dormir, sem comer, indo jantar às 3 da manhã. Nem sei como trabalhei - e olha que o trabalho era muito. Percebi que havia encontrado o mais importante e o mais importante era um menino verdadeiro, com os olhos grudados em mim para sempre, num enterno enamoramento.
A vida veio soprando, a gente veio forte. Grandes tempestades, grandes problemas, alguns que eu nunca havia visto de perto. O mundo era mais denso, muito mais denso do que eu imaginava. O mundo podia arder de verdade. O mundo podia inundar de verdade. Podia perder as estribeiras. Então veio o concurso, o que eu sempre sonhara, na cidade que eu vivia dizendo que ia morar. A decisão tinha que ser feita em 30 dias. 30 dias que voaram, literalmente voaram. Eu que escolhi ficar. Tantos fatores pesando para eu ficar. A faculdade. A casa nova. Os empregos novos. A impossibilidade de ir e voltar todo dia. Mas.. o principal motivo foi estar ao lado do menino. O dos olhos grudados em mim. O que andava sofrendo, de um jeito que eu não sabia fazer passar. O que por uns instantes pareceu estar já longe, o encanto que pareceu ter se perdido. Há encanto que resista a tantos problemas de uma só vez? Se eu listasse pareceria invenção....
Mas a gente escolheu reinventar, reviver, continuar. Sem palavras. Escolha dupla, em silêncio. Escolha que só poderia ser essa mesma, escolha que nem era escolha, de tão grudada na gente estava - feito os olhos do menino.
Agora a casa grande. Tantos ajustes para fazer, tantos livros para ler, tantos trabalhos de alunos, tantas coisas que eu invento, tantos projetos grandiosos, tudo para ser arrumado, tudo para ser ajustado. E a vida vai acontecendo. Porque a vida é isso aqui, não é dezembro na época de viajar, nem é o futuro. A vida é a casa grande, ainda com caixas pela sala. Ainda com estantes e armários por comprar e organizar. A casa gostosa de morar. A gente que andava merecendo.
Agora a gente acorda, olha para o lado e lá está o amor da vida, mais leve, com menos medo, com mais certeza. Não sei ainda o que aprendi com tudo o que vivi nesses meses. Não sei. As coisas ainda estão andando, ainda não consegui entender. Mas sei que foi muito. Aprendi que eu não sou a melhor pessoa do mundo, que tenho meus limites, não que eu já não soubesse. Mas aprendi que meus limites existem mesmo, que sou de carne e osso, que tenho muita coisa para melhorar em mim. Aprendi que a vida é breve. Que ela se acaba um dia. Que a gente não sabe ao certo o dia. Que a gente joga fora muitas vezes momentos que poderiam ser... Aprendi que amor não se faz só de encantamento, de lirismo e de magia. Amor se faz todo dia, com um beijo, com um pedido de desculpas, com um abraço, com silêncio, com palavras quentes. Amor se faz é no fazer.
Há escolhas por todos os lados e o mundo anda muito diferente para mim. A gente muda. De repente há coisas que gostava tanto e que me parecem tão sem sentido. Há novas coisas surgindo, novas pessoas fazendo parte. A vida não para, é só olhar. Os amigos, a família. Há sempre gente nova, há sempre novos passos. Todo dia.
Eu sempre tive medo das escolhas porque detesto perder coisas que gosto, papéis, lembranças, amigos... Detesto que as pessoas se percam pelo mundo, mas elas muitas vezes se perdem, eu muitas vezes me perco.
Sempre temi escolher. Mas algumas escolhas são certeiras. Sempre tive a impressão, depois de algum tempo, que havia alguém comigo na hora de tomar decisões, que as coisas já vinham prontas, que faziam todo o sentido do mundo. Mas isso a gente conclui depois que as decisões já estão longe.. Na hora de escolher há sempre a dúvida, sempre há medo, insegurança...
Há uns meses - na verdade há bons nove meses - eu escolhi casar.
Há um ano e um mês eu conheci um menino, que grudou os olhos em mim numa noite de chorinho. Menino, meu menino. Quem diria que ele seria o meu menino, que chegaria transformando tudo na minha vida. Menino que eu sempre procurei e achei de repente, meio sem querer. Meu menino com quem eu vivi tanta coisa nos últimos tempos. Como pode uma pessoa fazer parte da sua vida, todos os dias, em todos os cantos, ser tão essencial e estar na sua vida há apenas um ano? Nas noites no centro cultural, no colo do menino, havia uma menina pequena, de cabelo comprido, pouco dinheiro no bolso, morando sozinha, inventando um mundo dela.. Quem diria que agora a mesma menina estaria em outro trabalho, em outro bairro, cursando uma nova faculdade? Quem diria que ela estaria ao lado do menino, vivendo algo que nunca experimentou? Quem diria tanta coisa que aconteceu?
Olho para o lado, volto a olhar para os outros, a saber dos outros, o vendaval parece ter passado ou ao menos os ventos parecem menores. Olho para o lado. Os outros vivem. Uns terão filho. Outros tiveram. Uns separaram. Outros casaram. Uns viajaram. Alguns sofrem, uns fazem bolo e brigadeiro. Alguns fazem as pazes, outros visitam, outros acabam. Há sempre encontros e separações por todos os lados.
Quem diria que em cada escolha que a gente faz há um mundo de coisas novas - e tão novas! - nos esperando? Entrar ou não no chorinho? Ligar ou não? Dar ou não dar uma chance? Pedir ou não pedir desculpas? Contar ou não contar? Ir ou não ir? Ficar? Sair? Levantar? Partir? Tomar café na esquina ou em casa? Dançar? Dançar!
Eram duas, três, quatro da manhã no centro cultural. Havia música. E a gente dançou. O menino tinha um jeito.. de menino. Me daria a lua se eu pedisse com jeitinho. Me beijava com os olhos. Com os olhos entrava em mim, me levava a lugares tão bonitos, tão distantes, era tão profundamente lírico. Me dizia: "Nunca, em toda a minha vida, nunca encontrei alguém assim como você". Eu respondia que era exagero, imagine, a vida é longa, há muitas pessoas, como nunca? E pensava que as pessoas são sempre únicas mesmo, que nunca, nunca encontraremos alguém igual a outro alguém e aí está a graça de tudo. Até conhecer o menino de vez. Era vez de samba. Era dia em que ele cantou comigo a noite toda. Era dia em que eu comecei a entender a dimensão das coisas, dos sentimentos, da entrega. Era ele, ele que, como eu, se entregava na mesma medida, com a mesma intensidade, o mesmo desejo, a mesma pureza, a mesma fé. E eu me questionando se eu ainda possuia algo dessa fé no mundo. Era um 16 de agosto. Há meses o menino na minha vida, mas eu não permitia que ele entrasse. Então ele entrou. E nunca mais saiu. Mesmo. E passamos dias sem dormir, sem comer, indo jantar às 3 da manhã. Nem sei como trabalhei - e olha que o trabalho era muito. Percebi que havia encontrado o mais importante e o mais importante era um menino verdadeiro, com os olhos grudados em mim para sempre, num enterno enamoramento.
A vida veio soprando, a gente veio forte. Grandes tempestades, grandes problemas, alguns que eu nunca havia visto de perto. O mundo era mais denso, muito mais denso do que eu imaginava. O mundo podia arder de verdade. O mundo podia inundar de verdade. Podia perder as estribeiras. Então veio o concurso, o que eu sempre sonhara, na cidade que eu vivia dizendo que ia morar. A decisão tinha que ser feita em 30 dias. 30 dias que voaram, literalmente voaram. Eu que escolhi ficar. Tantos fatores pesando para eu ficar. A faculdade. A casa nova. Os empregos novos. A impossibilidade de ir e voltar todo dia. Mas.. o principal motivo foi estar ao lado do menino. O dos olhos grudados em mim. O que andava sofrendo, de um jeito que eu não sabia fazer passar. O que por uns instantes pareceu estar já longe, o encanto que pareceu ter se perdido. Há encanto que resista a tantos problemas de uma só vez? Se eu listasse pareceria invenção....
Mas a gente escolheu reinventar, reviver, continuar. Sem palavras. Escolha dupla, em silêncio. Escolha que só poderia ser essa mesma, escolha que nem era escolha, de tão grudada na gente estava - feito os olhos do menino.
Agora a casa grande. Tantos ajustes para fazer, tantos livros para ler, tantos trabalhos de alunos, tantas coisas que eu invento, tantos projetos grandiosos, tudo para ser arrumado, tudo para ser ajustado. E a vida vai acontecendo. Porque a vida é isso aqui, não é dezembro na época de viajar, nem é o futuro. A vida é a casa grande, ainda com caixas pela sala. Ainda com estantes e armários por comprar e organizar. A casa gostosa de morar. A gente que andava merecendo.
Agora a gente acorda, olha para o lado e lá está o amor da vida, mais leve, com menos medo, com mais certeza. Não sei ainda o que aprendi com tudo o que vivi nesses meses. Não sei. As coisas ainda estão andando, ainda não consegui entender. Mas sei que foi muito. Aprendi que eu não sou a melhor pessoa do mundo, que tenho meus limites, não que eu já não soubesse. Mas aprendi que meus limites existem mesmo, que sou de carne e osso, que tenho muita coisa para melhorar em mim. Aprendi que a vida é breve. Que ela se acaba um dia. Que a gente não sabe ao certo o dia. Que a gente joga fora muitas vezes momentos que poderiam ser... Aprendi que amor não se faz só de encantamento, de lirismo e de magia. Amor se faz todo dia, com um beijo, com um pedido de desculpas, com um abraço, com silêncio, com palavras quentes. Amor se faz é no fazer.
Há escolhas por todos os lados e o mundo anda muito diferente para mim. A gente muda. De repente há coisas que gostava tanto e que me parecem tão sem sentido. Há novas coisas surgindo, novas pessoas fazendo parte. A vida não para, é só olhar. Os amigos, a família. Há sempre gente nova, há sempre novos passos. Todo dia.
Eu sempre tive medo das escolhas porque detesto perder coisas que gosto, papéis, lembranças, amigos... Detesto que as pessoas se percam pelo mundo, mas elas muitas vezes se perdem, eu muitas vezes me perco.
Sempre temi escolher. Mas algumas escolhas são certeiras. Sempre tive a impressão, depois de algum tempo, que havia alguém comigo na hora de tomar decisões, que as coisas já vinham prontas, que faziam todo o sentido do mundo. Mas isso a gente conclui depois que as decisões já estão longe.. Na hora de escolher há sempre a dúvida, sempre há medo, insegurança...
Há uns meses - na verdade há bons nove meses - eu escolhi casar.
4 commenti:
É Linda... Viver!! Acabei de reclamar que meus amigos blogueiros não escreviam mais, rs.... Bom retorno!!! Amor.. Queiroz
Abencoados pela vida sejam!
Desejo toda a felicidade!
Bj
Ai! Que lindo retorno! Que lindo texto! Mais representativo não poderia ser... mas agora fico aqui a me fazer perguntas sobre o que isso tudo significa... manda mais noticias pro mundo de ca, por favor!
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