
Todo mundo tem seu limite. Todo mundo tem um limite. Chega até um ponto e não dá mais.
Eu não.
Eu nunca tive limite. Esta frase que acabei de dizer me lembra meu pai, quando dizia: Essa menina não tem limite. Para quem ouve de fora parece até que eu aprontava todas. Não. Fui uma criança e uma adolescentes até bem tranquila.
Mas meu pai com sua frase exagerada de quem não estava preparado para ser pai, talvez nem desejasse ser pai de ninguém, ainda mais de uma adolescente que passava as noites em claro, escrevendo sem parar e que queria dia ou outro voltar mais tarde para casa quando saía, mas que era sempre podada, saía, a festa mal havia começado e tinha que voltar... Mas meu pai com essa sua frase talvez tivesse previsto quem seria eu.
Não, eu não tenho limites. Eu ultrapasso meus próprios limites. E depois fico com raiva de mim, com muita raiva mesmo. Por ter pisado em mim mesma, por ter ido além, me machucado, passado dos meus próprios limites.
E continuo. Sempre continuo. Sempre. Sem limites.
Não sei bem se falta de orgulho - eu sei o que é essa palavra? - ou se excesso de loucura mesmo. Se bondade em demasia - não, não é isso, ninguém é bom em demasia - ou se total ausência de bom senso.
"Você tem um equilíbrio infantil", me disse um médico, seriamente, falando sobre meu labirinto, após alguns testes. Eu caí na gargalhada na hora, não pude me conter.
Sim, meu equilíbrio é infantil e eu muitas vezes pareço uma menininha mesmo. Isso me irrita mais do que irrita aos outros.
Meu psicanalista me leva a pensar que esse meu jeito demasiado de ser também tem coisas boas, que eu vivo fora de mim, na pele dos outros, sempre apontando defeitos, falhas, sempre fora de mim mesma, dizendo as coisas ruins de eu ser quem sou, como sou. Diz que meu jeito de ser atrai amigos, amores, coisas e pessoas que gostam dessa intensidade, que marco as pessoas com as quais cruzo. Disso eu sei. Marco demais, é fácil ser marcante quando não se tem bom senso, nem medida, nem limite.
Mas o fato é que cansei disso. Quero respeitar meus limites. Quero. Se eu não os respeito como irei ensinar os outros a respeitá-los?
Estou cansada de ver os outros passando por cima de mim. Eu mesma estou cansada de passar por cima de mim, de me trucidar.
Não quero mais saber desses pesadelos que andam me perseguindo, desses sonhos feios, que me fazem acordar chorando, raivosa, sem entender.
Preciso aprender a ouvir as minhas intuições, que são tantas e tão verdadeiras, tão profundas. Já me salvaram tanto quando as ouvi e já me enfiaram no buraco quando fingi que não existiam.
Cansei de pesadelos. De ver a mesma fita passando, repetindo, repetindo, repetindo. Estou cansada dessa história.
Quero abrir as portas da minha vida, deixar as pessoas entrarem. Os lugares entrarem. Novos lugares. Quero novos lugares, como uma história que contei nesta semana aos meus alunos. A história dos nós. Quero ir embora de Pamonhas.
Quero ir para um lugar onde as minhas borboletas sejam admiradas onde não sejam um problema. Onde consigam me ver. Ver a minha parte boa. Estou cansada de ser apontada por todos. Lá vai a menina medrosa, lá vai ela, a sem limites, lá vai ela... Veja não está feliz...
As pessoas gostam de dar palpites na vida dos outros. E quando dá tudo errado, quando você está na merda, dizem: "Eu não disse que isso não daria certo?". Estou cansada de palpites.
Estou cansada de julgamentos depreciativos, de me sentir 'desencaixada'. Vou-me embora de Pamonhas. Quero outro lugar. Viajar. As ruazinhas da Itália. Falar outra língua. Conhecer outros sons. Aprender novas coisas.
Quero escancarar a janela da minha vida. Quero que essa dor pare de doer dentro do peito. E quero ter direito de estar triste quando estou triste.
Se eu pudesse entraria hoje mesmo num ônibus, num avião, num navio e partiria para bem longe. Depois talvez voltasse. Talvez não. É fato que tenho laços, muitos laços por aqui.
Mas estou cansada da história que se repete. Estou cansada de ser sempre a mesma. De passar por cima de mim. De me desrespeitar. De ver meus sonhos pisoteados, largados. E de ter que ouvir os outros palpitando, até felizes talvez, dizendo que como não segui a receita não poderia mesmo alcançar meus objetivos.
Cansei de palpites. Quero ouvir as minhas intuições e sair por aí sem medo, cruzando ruas, portos, estradas... As coisas mais bonitas que me aconteceram até hoje ocorreram exatamente quando eu dei espaço para elas entrarem, quando joguei fora o medo e abri as janelas de mim.
Quero andar por aí ao vento, sentir os cabelos embaraçando ao vento. Quero andar, andar, andar. Entrar nos lugares quando sentir vontade. Me deixar estar, me deixar ficar enquanto quiser.
Cansei de pesadelos. De histórias repetidas. De ouvir palpites. De me desrespeitar.
Não quero mais ultrapassar os meus limites. Este é o meu limite. Eu fui até aqui. Acho que fui mais do que podia, mas era necessário.
Agora se você leu este texto sem pé nem cabeça até aqui e gosta de mim, torça para que eu realmente consiga respeitar meus limites. Para que consiga me respeitar.
Porque eu também tenho um coração. Cansado.
Não, não sou mais uma menininha. Sou uma mulher. Mas mulheres também choram, ficam magoadas, têm medo. Só que como elas já experiementaram o mundo, sabem se defender, se proteger.
Acho que meu equilíbrio começa a amadurecer. E os meus nós vão se desfazendo um a um. Mas ainda existem muitos para serem desfeitos.
Acho que estou aprendendo a me proteger. E a compreender que no mundo não devemos matar tudo no peito. Assim acabamos com nossa força. Nos destruímos. É necessário saber equilibrar, um pouco de coragem e um pouco de medo. Se proteger da chuva faz parte. Cuidar de si mesmo é muito importante.
Todo mundo tem um limite. O meu é este aqui.
1 commento:
É impressionante como me vejo em cada palavra do teu texto. Eu tbm era sem limites e agora estou conhecendo os meus.
Obrigado por me dar a oportunidade de me ver em cada sensação tua do mundo.
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