Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
(Já que você não me quer mais)
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
(Já que você não me quer mais)
Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver.
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver.
Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.
(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.
(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)
Há uns anos meu avô me disse que depois dos 25 a gente não se apaixona mais. Eu já tinha 25 (ou 26 ou 27, não me lembro bem) e achei que era um absurdo, maluquice dele. Mas neste ano comecei a achar que ele tem razão. Não, não é que a gente não se apaixone mais. A gente se apaixona. Mas é que é tudo mais complicado. A gente. O mundo. E não é a mesma coisa que aos 18, isso não é mesmo.
Hoje estou num daqueles dias em que quero ficar debaixo da cama. Quietinha. Sem ninguém me chamando, ninguém querendo minha opinião, ajuda, palavra. Estou num daqueles dias em que preferia ter um emprego bem burocrático. Que tenho saudades de trabalhar no Consulado e ficar o dia todo no computador. Sem ser obrigada a falar com ninguém pessoalmente. Sim, no Consulado. Num daqueles dias em que éramos obrigados a trabalhar feito doidos no sistema. E que na hora do almoço eu comia sozinha e corria para a Cultura para ficar bem sozinha em meio aos livros.
Hoje eu estou assim, com vontade de silêncio. Semana passada finalmente tomei uma decisão importante, conversei com quem tinha que conversar, decidi coisas, onde estarei, o que farei no próximo ano. Ufa. Que alívio! Me senti leve. A tal fadinha (aquela que guia minha vida) parecia estar toda alegrinha, por eu estar caminhando sem seus cutucõezinhos. Mas então veio a sexta-feira e me comunicaram algo no meu trabalho que mexeu completamente com minhas decisões. Justo quando finalmente tomo uma decisão as regras do jogo resolvem mudar? No fim de semana tive pesadelos, fiquei com aquilo na minha cabeça e a minha decisão foi para o beleléu, comecei a repensar tudo. Vale a pena? Não é muita ideologia para esse mundo? Consigo sobreviver sem minhas ideologias? Um mundo de pensamentos, sentimentos, desejos, possibilidades, medos e coragens... De novo, de novo.
Tive pesadelos. Não só com trabalho. Sonhei que meu avô tinha morrido e acordei triste, nervosa, com o coração apertado. Qualquer morte, seja ela real ou em sonho, me lembra uma morte que acaba de completar um ano. Uma morte que não é pesadelo, mas com a qual ainda não aprendi a lidar. Não sei lidar com a morte de alguém tão querido e que tanto lutou para viver. Tanto não sei lidar que ainda não consegui escrever sobre ela. Que só de começar a pensar as lágrimas despencam todas de uma vez - como agora. Aos 29 anos não sei lidar com a morte de uma pessoa mais nova do que eu. A morte que veio devagarinho, consumindo tudo. Uma morte tão besta, tão estúpida, tão sem sentido.
Aos 29 anos não tenho religião. Não sei bem em que acreditar. Daria tudo para acreditar no Espiritismo dos meus avós. Daria tudo para ser menos cética. Luto contra meu ceticismo. Vez ou outra volto a acreditar em algo. Mas algo muito íntimo, que não consigo dividir nem explicar. No curso da Nícia Grillo, que fiz no Boca do Céu, de repente achei que poderia casar o mundo de histórias com alguma religiosidade, achei interessante o jeito que ela tem de ver o mundo. As histórias, de alguma forma, me trazem alguma religiosidade, no sentido de me ligar, religar com algo muito maior. Com a ancestralidade, com os antepassados.
Mas acabado o Boca do Céu, que foi um oásis no meio de setembro, perdi um pouco o fio da meada... Ando precisando de um bocado de religiosidade, mas não sei onde encontrá-la, tudo me parece tão falso e agressivo...
Aos 29 anos todos resolveram me cobrar posições sobre o mundo. Vocês combinaram? Família, namorado, amigos, colegas de trabalho? Fizeram um complô para eu mudar de rumo, acharam que ando meio desbaratinada por aí? Sempre fui assim, nunca fui de andar em linha reta, vocês não sabiam? Está incomodando muito? Andar em linha reta é um pesadelo para mim. Dá para não me fazer perguntas difíceis? Dá para cobrar menos?
Aos 29 anos já tive experiências muito mágicas. Agora me lembrei da Nícia de novo. Eu também nunca usei drogas - fora as de farmácia, das quais fugi durante muitos anos. Sempre foram os livros que me levaram para os lugares mais diversos, ler e escrever sem parar sempre me mandaram para tempos e mundos diferentes... Mas não eram dessas experiências que estava falando. Estava falando de outras experiências. E só de falar delas, começo a sorrir...
Aos 29 anos não sei bem o que quero fazer da vida. Sei o que não quero, serve? Nos últimos anos apareceram tantas coisas diferentes no meu mundinho que ando tendo dúvidas. Preciso ter uma profissão só? Posso colocar os dois pés na arte ou mantenho um deles do lado de cá do mundo? O que é a arte se ela não servir para transformar o mundo? Não, se não for para melhorar o mundo, eu quero distância da arte, desse tipo de arte, de artista.
Aos 29 anos queria manter distância de tudo quanto é gente maldosa e chata do mundo. Mas o que fazer se há gente assim em todos os lugares? Se sou obrigada a conviver com essas pessoas? Taí, nestas horas, queria ficar debaixo da cama, que o mundo se resolvesse sozinho, que as pessoas se destruíssem...
Aos 29 anos tenho uma cachorrinha brincando aqui do meu lado. Justo eu que nunca gostei de cachorros dentro de casa, que achava que cachorros precisam estar fora, porque são sujinhos... Agora tenho uma cachorra que mora comigo num apartamento e come meus sapatos e destrói o meu sofá.
Aos 29 anos não sei se caso ou aprendo a andar de bicicleta. Não, não sei andar de bicicleta. Também não sei dirigir. Quer pegar um bloquinho para anotar o que não sei fazer? Anota aí: Não falo inglês, leio mal e entendo razoavelmente, mas não falo nada. Anota outro: não sei cozinhar. Já soube um bocadinho, mas há anos não me arrisco. Ah, anote também que não gosto muito de cozinhar. Depois você faz uma lista das coisas que não gosto de fazer também. Não gosto de fazer compras. Não gosto de lavar banheiro (e agora com a Pequena estou sendo obrigada a lavar o banheiro duas vezes por semana! Mas gosto da Pequena mais do que não gosto de lavar banheiro...). Tá, eu misturei o que não sei com o que não gosto, mas na maioria dos casos um leva ao outro. Não, quanto a andar de bicicleta eu gosto. Gostei quando andei na praia há dois anos. Achei que dá uma sensação de liberdade muito boa. Mas não aprendi quando criança, meu pai vivia me colocando medo, me proibindo disso e daquilo. Mas isso aqui não é psicanálise. Aliás, ando concordando com aquela velha ideia da Sol. Lembra, Sol? Quando você dizia que psicólogo é para quem não tem amigo? Depois de um ano e meio de terapia, começo a querer mandar meu psicólogo para longe. Gostei mais do curso da Laura Simmis. Valeu por anos de psicanálise. Arte-terapia. Como disse a Emilie, colega de curso, eu não acreditava em cura pelas histórias até entender que não era como eu pensava que era, que era outro o caminho, muito mais profundo. E que cura. Muito melhor do que psicanálise.
Tá, isso no fundo eu já sabia. Um bom samba até de manhã vale mais do que um mês de análise. Mas tem que ser aqueles sambas aos quais você vai só. Eu sou esquisita? Só eu gosto de sair sozinha? Há quantos anos não vou só ao samba.... Mas me lembro o quanto é bom dançar a noite toda, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, até de manhã. Rir, dançar, cantar... Conhecer pessoas. Ou não conhecer ninguém. E uma noite inteira de chorinho? Pode ser com a companhia da amiga Mari, que sabe bem como funcionam os choros. Cada uma de um lado ou juntas, mas cada qual em seu devaneio, dançando até amanhecer...
Aos 29 anos ainda tenho um ar de adolescente. Se ligar minha mãe corre para cá. Sempre. E com a mãe que tenho acho que isso irá durar ainda por muitos anos. (Que bom).
Aos 29 anos tenho uma grande amizade com minha irmã, dois anos mais nova do que eu. As brigas ficaram na adolescência - mas voltam logo se ficarmos por muitos dias juntas. A admiro e fico feliz de saber que ela faz parte da família, da minha família, muito bom ter alguém tão parecido comigo neste mundo doido. No curso da Laura Simmis descobri uma relação impontantíssima entre nós duas, algo que nunca tinha associado, sempre achei que fomos cada uma para um lado do mundo, mas não, há algo que nos une e que nos formou e que nos ajudou e guiou nas escolhas profissionais...
Aos 29 anos tenho uma irmã caçula que lê muito e me sinto responsável por parte de sua formação leitora, pude presenteá-la com muitos livros, dividir com ela algumas leituras, fico feliz ao vê-la lendo sem parar, por mais que nossas leituras muitas vezes sejam diferentes...
Aos 29 anos tenho uma grande amiga desde os 8 anos. Amiga da qual me distanciei um pouco na adolescência, mas para a qual hoje ligo sempre que tenho grandes decisões a tomar, sempre que preciso de um colo ou quero dividir algo ou rir.... É muito parecida comigo, me compreende, me conhece desde bem pequena e sabe quais desilusões, quais alegrias, quais caminhos percorri até chegar aqui.
Aos 29 anos ando perdendo amigos pelo caminho, não consigo visitar todos, não consigo me manter próxima de todos. Sinto muitas saudades de ter um tempo maior, de poder vê-los com frequência, mas não consigo estar em todos os lugares que gostaria. Me sinto um pouco frustrada pelas ausências. Mas os meses que tentei dar conta de todos aniversários, batizados, comemorações, encontros... Quase me vi doida.
Aos 29 trabalho feito uma doida e brigo comigo mesma para parar um pouco, mas toda vez que paro, me assusto, é como se eu só pudesse andar num ritmo alucinado, como se não conseguisse parar de verdade. Mas sinto que deveria desacelerar de alguma maneira. Sinto falta de 2007, 2008. Sempre corri de um lado para o outro, mas tinha mais tempo livre e decidia o que fazer com ele. E ia, sem faltar uma vez, toda semana ao choro.
Aos 29 começo a achar que ando precisando de tempo livre, de religião, de choro.
Aos 29 penso em ter um filho. Um dia. Fica tarde daqui a cinco anos? Fica? Cinco anos atrás eu dizia a mesma coisa. Será que daqui a cinco anos falarei a mesma coisa? Medo de ficar jogando tudo para daqui a cinco anos. Sempre.
Aos 29 anos não tenho certeza em que lugar quero morar assim...para sempre. Preciso decidir em que lugar quero morar para sempre? Para sempre não é muita coisa?? Se eu disser que fui eu quem inventou essa coisa de para sempre, vocês acreditam? Ninguém me disse: "para sempre". Só que eu fico nisso de "para sempre", "para sempre". E a morte? E se ela nos encontra amanhã? O que você fez da sua vida? O que fez do seu ano? O que fez do seu dia? Se todos podemos morrer e iremos morrer de que vale ficar pensando num muito depois, não seria melhor pensar num agora? Como fazer para parar de pensar?
Aos 29 tenho dúvidas, dúvidas que eu nem sabia que existiam aos 15. Tenho perguntas que eu achava que já nasciam com respostas, mas começo a achar que não nasciam, que não nascem, começo a duvidar das respostas. Tenho perguntas, muitas. E não gosto das respostas que me dão. Ao mesmo tempo queria alguém para decidir por mim. Alguém se habilita?
Aos 29 não consigo nem dar conta de cuidar de mim, da casa, da cachorra, do trabalho, da família, dos amigos, do mundo. Conseguirei aos 40?
Não, este texto não é poético, lírico, profundo. Não é texto de reler e de dizer: Puxa, Camila, que bonito! Depois de meses sem escrever aqui, este texto é um texto em crise, de uma moça que precisa fazer as unhas, tirar um cochilo para ir trabalhar à noite, ela já trabalhou de manhã. Uma moça de vestido marrom, sentada na cama, com a cachorrinha ao lado. Uma moça que tem idade de gente grande, vida de gente grande, mas que às vezes - muitas, muitas vezes - se sente tão pequenininha. E que aos 29 não tem conclusões, nem certezas. Que ainda desejaria ter umas cinco vidas para em cada uma delas poder ser um dos personagens que ela tenta ser (todos ao mesmo tempo!). Aos 29 ela sente saudade de uma mão segurando a sua e dizendo: "É por aqui." Alguém se habilita?



5 commenti:
ah, bambina.... se encontrar a tal mão, me empresta?? sodade, Queiroz
Camila, minha mocinha!!! Pessoinha do coração! Tanto sentimento em comum (não todos... e que bom, pois o mundo tb é bonito pelas diferenças!), tantas dúvidas parecidas, tantos medos...
Estou ainda me refazendo da leitura, talvez escreva mais depois, vou procurar tempo, juro que vou procurar mais tempo e mais calma para isso.
Agora só quero dizer que SIM, SIM, SIM!!!! Sim, eu me lembro TODOS os dias dessa frase, desse pensamento: "quem tem amigos não precisa de psicólogo".
Eu mudaria um pouco hoje para "quem vive diariamente com seus amigos não precisa de psicólogo"...
Como me faz falta aquela convivência de outras épocas, vc não faz ideia! Como tenho me sentido meio maluquinha, meio descompensada, meio necessitada de um psicólogo por não conseguir voltar ao passado (não é esse o caminho) nem me adaptar ao presente e reencaixar vcs na minha vida de hoje (esse sim, o caminho, pior é q sei o que deve ser feito, falta saber o "como").
Pela milésima vez: Saudade, saudade, saudade!!!!!!
Cá... a amiga está sempre aqui, tbm com algumas das suas perguntas... 29 chegando, acho que é o medo do "grande" 30...Te amo muito...Vivian
Amo seus textos como sempre.
Também morro de saudade de samba e choro, com você ou sozinha... E assim como compartilhei de algumas de suas experiências, compartilho de sua perguntas....
Amor,
Mari
há muito que sou leitora satisfeita deste blog!!! palavras sinceras... considerações verdadeiras... sentimentos universais!!... só que é impossível não falar: que bonito, né???
porque às vezes todo mundo se sente perdido no meio da estrada, é por aqui? é por ali??
todo mundo para e questiona.
todo mundo entra e sai de crise.
e faz assim porque quer viver intensamente!!
batalhar intensamente!!!
<3
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