"A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso"
Imagem: Sebastião Salgado
Tanta coisa aconteceu desde a última vez em que estive aqui. Tantas vezes quis escrever sobre as mudanças todas, mas a ausência de tempo, de solidão... Por isso e aquilo acabei não parando para escrever. Dia ou outro o desejo de compartilhar por escrito as coisas que aconteciam me tomava toda, mas infelizmente não consegui parar um momentinho para dizer o que sentia. Digo "infelizmente" porque é no acontecer das coisas que o registro fica mais vivo. E eu gosto muito dos "registros vivos". No entanto, sei também que registrar aquilo que passou, com uma certa distância dos fatos, é uma boa maneira de vivê-los mais uma vez e de lhes perceber melhor, de compreender melhor o que vivemos, atribuindo um significado maior às experiências, a partir da visão mais ampla que o distanciamento, que o passar do tempo vai nos conferindo.
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Parti de São Paulo, deixando muita, muita coisa para trás. Pessoas, espaços, histórias... Vim em busca do que não parecia caber na cidade grande, vim sonhando com uma casa gostosa de morar, onde houvesse espaço para a Pequena correr à vontade... Sonhando com um ritmo de vida mais calmo, com menos trabalho... Sonhando com meu amor, com quem vim de mãos dadas....
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Parti de São Paulo, deixando muita, muita coisa para trás. Pessoas, espaços, histórias... Vim em busca do que não parecia caber na cidade grande, vim sonhando com uma casa gostosa de morar, onde houvesse espaço para a Pequena correr à vontade... Sonhando com um ritmo de vida mais calmo, com menos trabalho... Sonhando com meu amor, com quem vim de mãos dadas....
Sabia que haveria dificuldades mil, mas ainda não as conhecia.
Sofri um bocado no primeiro semestre, nos primeiros meses. Fui encontrando realidades que desconhecia e outras que conhecia bem, mas das quais passei a vida fugindo, evitando, me mantendo longe... Sofri. Reclamei. Briguei.
Sofri um bocado no primeiro semestre, nos primeiros meses. Fui encontrando realidades que desconhecia e outras que conhecia bem, mas das quais passei a vida fugindo, evitando, me mantendo longe... Sofri. Reclamei. Briguei.
Mas houve ganhos por aqui também. A casa grande, a biblioteca espaçosa. A Pequena correndo. Menos loucura, menos caos.
Fiz atropeladamente um curso online numa universidade espanhola. Curso excelente, que me manteve mergulhada no mundo bom, no mundo em que acredito. Mas virtual. A realidade que batia todos os dias na minha cara não era nada bonitinha. Me agredia. Como não agrediria a todos, talvez, mas a mim agredia, tinha requintes de crueldade próprios para me agredir. Meus ideais e sonhos e princípios e valores levando bofetadas. Meti os pés pelas mãos. Tomei algumas decisões no escuro. Chorei um mar de lágrimas amargas. Tudo por conta do trabalho, tudo pela falta de amigos, pela dificuldade - incrível para alguém tão tagarela e aberta quanto eu - de criar laços. Especialmente com as mulheres.
Mas tudo passa. Dizem. As coisas boas e as ruins. Passam, voam. O primeiro semestre acabou.
E pude respirar por algumas semanas, curtindo o frio de Piedade, estando entre grandes amigos em São Paulo... Pensando. Só então pude curtir de verdade o casamento, planejado de maneira tão corridinha e que saiu melhor do que a encomenda. Foi um dia muito, muito especial. Aliás, dois. Aliás, três. Casamento no civil. Chá de cozinha. Casamento na pousada. Em julho repassei uma a uma todas as fotos. Repassei na memória todos os bons momentos, todas as alegrias, todas as pessoas que puderam estar pertinho nesse momento que foi realmente mágico. Justo eu que nunca sonhei com casamentos, justo eu que nem me imaginava de noiva... Mas confesso que sempre gostei de uma boa festa e a festa foi realmente boa. Uma energia tão forte! Parece mesmo, como disse a Queiroz, que abriu um portal...
Nas férias pude relembrar tudo isso... Que aconteceu nesse primeiro semestre atribulado do qual falei. Nas férias lembrei muito do casamento. Nas férias dormi um monte. Comi um monte de coisas gostosas e a ideia de regime passou longe... Vi alguns poucos filmes. Li quase nada. Comprei finalmente o livro "O Elogio à Preguiça" e comecei a lê-lo devagarinho. Contei histórias para a minha avó. Li histórias para minha avó. Minha avó é minha melhor ouvinte. Está comprovadíssimo que grandes contadores(as) de história são excelentes ouvintes. Está aí minha avó para comprovar. Vi amigos queridos, visitei a casa de três deles. Fui a livrarias. Andei na Paulista a pé, à noite. Fiquei com minha mãe, com minhas irmãs. Finalmente fiz uma oficina com a Débora Kikuti e pude mergulhar novamente - com alegria - nas águas boas das histórias.
Acho que foi o auge das férias, o encontro mais bonito.Levei a minha mãe e pude compartilhar com ela momentos muito especiais. A Débora, mais do que nunca, abriu caminhos lindos dentro de mim, trouxe as mulheres, a força, a leveza, a sabedoria, a generosidade das mulheres. Débora, mulher generosa, que sabe muito mais do que imagina, mulher sábia, que parece conduzida por forças mágicas, gerando encontros... Eu diria que na oficina havia centenas, milhares de mulheres. Mulheres que trazemos dentro de nós mesmas. Nossas ancestrais, mulheres cujo espírito permanece bem vivo e que nos acompanha.
Acho que foi o auge das férias, o encontro mais bonito.Levei a minha mãe e pude compartilhar com ela momentos muito especiais. A Débora, mais do que nunca, abriu caminhos lindos dentro de mim, trouxe as mulheres, a força, a leveza, a sabedoria, a generosidade das mulheres. Débora, mulher generosa, que sabe muito mais do que imagina, mulher sábia, que parece conduzida por forças mágicas, gerando encontros... Eu diria que na oficina havia centenas, milhares de mulheres. Mulheres que trazemos dentro de nós mesmas. Nossas ancestrais, mulheres cujo espírito permanece bem vivo e que nos acompanha.
Pude estar um pouco com a Elaine, com a Rose - e segurar forte nas suas mãos. Pude estar um bocadinho com a Conti, Sol, Gil, Mel... Pude estar com a Queiroz. Um tantinho com o Felipe, Eliane, Renata, Aline... Pude reencontrar o Gabriel e relembrar de tanta coisa linda, de tantas histórias. Pude rever partes de mim que pareciam dormir, mas que ainda existem. Que coisa mágica são os amigos. Pude ver a Renata com um barrigão enorme... Que delícia poder revê-la num momento tão, tão especial...
Pude conhecer a Lili, sobrinha da Elaine, e fazer trancinhas nos seus cabelos, como os contadores de história das primeiras nações da América do Norte. Pude conhecer um pouco dessa cultura e me encantar mais e mais. Relembrar Oochigeaskw. Pude costurar muitas coisas dentro de mim.
Ouvir a gargalhada boa da minha avó com as histórias do Nasrudin e seus olhos brilhando com histórias que também mexeram comigo. Pude fazer sopa de mandioquinha para meus avós. Pude ir ao show da Ceumar, com o marido e com a minha mãe, dando a mão para os dois, ao mesmo tempo. Pude passear pelos sítios e pousadas de Piedade. Pude rever a família do meu pai, primos e tia tão especiais. Pude estar com minha prima Mariana. Comemorar o aniversário da minha irmã. Receber, pessoalmente, o convite de casamento da minha prima Márcia.
Pude receber tanta coisa boa, sonhar com umas férias mais longas. Pude cantar na estrada e ficar horas relembrando, com o marido, cada detalhezinho das férias. As comidinhas, o frio, os passeios, os amigos, o aconchego...
E pude finalmente voltar para casa. Casa linda, que me esperava de braços abertos. Boa de morar. Casa de morar, como na música. Já no primeiro dia pudemos fazer um churrasco com amigos queridos. Não, não estive sozinha no primeiro semestre. Havia amigos queridos que o destino trouxe para perto de nós, outros dos quais estamos nos aproximando... Havia amigos! Não, eu não estive sozinha por um semestre...
Voltei forte, enxergando melhor o mundo. Forte para enfrentar os leões que cruzam meu caminho. Voltei forte e corajosa. Levantando a bandeira de Ogum, que a Elaine me disse que é um bom guerreiro. Ela me disse também que às vezes precisamos ir para a guerra. E cá penso eu hoje que precisamos estar protegidos, saber nos proteger... E que muitas vezes me esqueço disso.
Voltei forte e corajosa. E disposta a mudar a minha relação com a cidade. Com o casamento, que tem suas dificuldades também. Disposta a enxergar essa fase difícil no trabalho como o que ela é: uma fase. Passageira, como tudo. Disposta a me proteger, a enxergar além do que a realidade me mostra. A lutar pelo que sonho, pelo que penso, pelas minhas ideias, meus valores. Disposta a ouvir, a conhecer novas pessoas. Disposta a compartilhar, de maneira generosa, quem sou e o que tenho a oferecer. Passando por cima das arrogâncias. Nem ligando para quem insiste em não ver o mundo. Me esforçando para levar as crianças comigo, nessa estrada amarela onde eu insisto em morar.
Disposta a recomeçar.
Nada como uma pausa na vida, pra gente se reencontrar.
CASA DE MORAR
Me dá licença de cantar
Também de agradecer
Coragem pra querer
Um verso pra louvar
Também de agradecer
Coragem pra querer
Um verso pra louvar
Louvar a gente do lugar
Louvar quem vai nascer
Quem vai permanecer
Também quem vai passar
Louvar quem vai nascer
Quem vai permanecer
Também quem vai passar
E louva Deus que vou louvar
O dia matinal
A fruta no pomar
A roupa no varal
O dia matinal
A fruta no pomar
A roupa no varal
Louvar a chuva de criar
A água de beber
O tempo de viver
A casa de morar
A água de beber
O tempo de viver
A casa de morar
Bem-vinda minha senhora
Bendita Nossa Senhora
Bendita Nossa Senhora

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