domenica, settembre 19, 2010

mundo de palavras


Para os companheiros que não passam um dia sem a palavra escrita, seja ela literária, jornalística, instrucional...

Para os que, com eu, tomam banho lendo rótulos de shampo e tomam café lendo rótulos de margarina. Para os que leem tudo o que há num livro, desde a primeira até a última página. Para os que leem devagar livros literários, principalmente quando são realmente bons e vão chegando ao final. Uma vez li um trecho de um livro de uma escritora italiana que dizia isso, que ela também ia lendo uma página por vez, com o coração disparado de medo de perder a companhia daqueles personagens. Eu sou assim desde pequena. Outra vez li algo parecido que foi dito pela Tatiana Belinky.

Mas aqui não falo só de literatura. Falo de jornal, revista, manual, lista telefônica, rótulos, cartazes, anúncios... Eu leio tudo, o tempo todo, e entro em desespero nervoso quando estou num lugar por mais de cinco minutos e não nada para ler.... Quem sabe alguém por aqui também tem essa estranha mania, esse vício nas letras?? Acredito que sim.. Acho que é normal ficar irritado quando o médico chama bem no meio da sua leitura, quando você está lendo alguma crônica, reportagem, qualquer coisa na sala de espera e de repente ele te chama. Confesso que já voltei, após a consulta, sentei e terminei de ler. Também já pedi um segundo e copiei um trecho do texto para procurar na internet depois..rs. Falando em consultório, o que mais me irrita é quando só tem revistas como Caras, isto é, revistas cheias de bundas. E imagens. E nada de textos. No máximo algumas palavrinhas. Gosto de revistas. Nem que seja uma daquelas que eu mais detesto. Nem que seja para ler e ficar indignada, brigando, chamando mentalmente - ou em voz alta, depende do assunto - o jornalista de retardado, criminoso, imbecil...

Lembro de vários e vários livros que li no ônibus. Muitos. Fiz todas as leituras do curso do Machado no caminho do ônibus, que ia do Jaguaré até Pinheiros. Lembro que todo dia, dois pontos antes de chegar ao meu destino, onde eu descia para me dirigir até a empresa onde trabalhava mecanicamente fazendo revisões de textos, o ônibus passava por uma banca de jornal que tinha um cartaz sobre uma revista ou livro, não me lembro, sobre posições sexuais. Todo dia estava lendo Machado, via o cartaz e precisava me organizar para descer do ônibus. Cheguei a torcer para ter trânsito - para poder ficar mais tempo dentro do ônibus. Aliás isso acontece ainda... Tem dias que no meio da minha leitura chega o lugar onde devo descer. Que raiva! Uma vez fui parar em Osasco, quase meia-noite, num lugar feio e desconhecido, porque me empolguei na leitura de um livro e esqueci completamente do ponto. Outra vez fui parar quase no Alto do Ipiranga - e eu ia descer no Paraíso - por causa de uma história pela qual eu estava fascinada.

Fico sonhando com um emprego de bibliotecária. Sentadinha, lendo, lendo. Indicando livros. Alguém quer uma dica? rsrs... Sonho mais ainda com uma livraria minha. Sentadinha, lendo, lendo, todos os livros das estantes... Indicando leituras e só. Poderia passar a vida ali. Lembro do Jorge Luís Borges e de sua frase: "Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria".

Mas na ausência de literatura de qualidade serve qualquer coisa. Serve papel com qualquer tipo de coisa escrita.

Vício, doença, mania, loucura, dependência. Tem fases em que fico melhor e vou dentro do ônibus cultivando um sentimento bom, repassando-o diversas vezes, apertando-o, cheirando-o, sentindo seu gosto bom de sentimento bom. Outras vezes fico olhando as pessoas na rua, indo e vindo, imaginando suas vidas, seus problemas, seus sonhos, suas histórias... Mas mesmo nessas vezes, preciso, necessito, tenho necessária urgência, de ter algo escrito para ler, nas mãos, para o caso de precisão. Se houver um livro na bolsa, uma revista, um jornal, fico aliviada e - quem sabe - posso ir até o ponto final sem ler, mas sabendo que terei a possibilidade caso sinta necessidade.

Já li todas as mensagens salvas no celular. Sempre acabo mais apaixonada pelo meu namorado e mais encantada pelo nosso namoro. Leio e releio as nossas mensagens, as datas, as enviadas e as recebidas.... Quando falta algo para ler, o celular é minha grande salvação. No meio existem diversas mensagens, falando de tanta coisa que vivemos... Então me concentro na nossa vida e passo a viagem toda repassando, através das mensagens, a nossa história.

Tenho uma dificuldade enorme de jogar bilhetes, cartas, entradas de cinema, teatro, show, revistas, jornais, papeizinhos... Já arrumei briga com mãe, irmãs e namorado por causa da minha mania de guardar... "E se" - sempre penso. No meu quarto, há um guardanapo de papel onde meu namorado e eu escrevemos recadinhos de amor numa lanchonete... Ele mandou fazer uma moldura e colocamos na parede. Para sempre lá está o nosso recadinho, que podia ser tão efêmero, mas que está lá, intacto, guardando as palavras que escrevemos...

Hoje fui procurar meus livros que ficam aqui Piedade - alguns poucos - e eles tinham desaparecido. Tive que descer num quartinho cheio de pó e teias de aranha para encontrá-los abandonados, jogados numa gaveta... Levarei todos para casa... Com jeitinho, acho que terão um lugarzinho na minha estante.

Tenho um problema com sebos e livrarias. Posso estar no vermelho, se entro em um deles.. Pimba. Saio acompanhada de livros e livros. Uma vez entrei e conseguir sair sem nenhum. Minha vida financeira ia mal... Me senti uma vencedora.. rs. Mas é raro, bem raro conseguir. É algo que eu consumo de maneira nada racional. E nem venham com aquela história de consumismo, que você compra e não lê. Eu compro e leio. Às vezes demora. Mas leio. E compro mais. E leio. Gosto de ter opções. De poder ir até minha estante e me servir. Estante da gente também oferece leituras, gosto de ter boas opções, de ter um leque de possibilidades bom, escolhido por mim mesma, para me satisfazer..

Uma vez, durante uma das festinhas de fim de ano do banco onde meus pais trabalham, fomos para uma pousada. As crianças passaram o dia correndo... Eu corri um pouco, vi a cachoeira, brinquei, mas um pouco depois, descobri uma biblioteca, grande, grande, na casa principal. Não deu outra. Passei o dia enfiada lá - como diria o meu pai-, lendo um livrão que me interessou. Lembro que falava de um estupro. Lembro depois que dormi. E que fui carregada para o carro na hora de ir embora. Ninguém lembrou de copiar o nome do livro para mim. Resultado: nunca mais li o livro, não soube o final. Liguei lá e ninguém conseguiu me ajudar... Uma frustração só....



Palavras, palavras, palavras. Me perdoem pelo texto corrido e mal arranjado. Vinte minutos para escrever. Muitas leituras acadêmicas para fazer... Soninho, domingo, vontade de ver o filme que aluguei e que está desprezado por causa dos trabalhos que tenho para fazer... Mas li a crônica abaixo e me deu uma vontade aguda de escrever algumas palavrinhas aqui.

Texto de Luis Fernando Veríssimo:

FOBIAS

Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia (medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica ma palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel, no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos, no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.

Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse. Mas, e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.

- Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina...

- Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga. Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.

- Infelizmente, não tenho nenhuma revista.

- Não é possível! O que você faz durante a noite?

- Tricô.

Uma esperança!

- Com manual?

- Não.

Danação.

- Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.

- Bem... Tem uma carta da mamãe.

- Manda!

2 commenti:

Anonimo ha detto...

Adorei o texto. Beleza ímpar que só alguém apaixonada consegue.
Bj

Igor Gomes ha detto...

rs, essa tal fobia sem nome... devo ter. Pavor de não ter o que ler.