sabato, ottobre 30, 2010

Minas não há mais



Meu coração, não sei por que...

Hoje eu já chorei uns dois baldes d'água, isso das oito da noite até agora, só para se ter ideia do tamanho e da intensidade da inundação..

Um ano atrás, quase novembro, eu estava feliz como nunca. A alegria era minha companheirinha, duramente recuperada, mas por fim aconchegada em meu colo. É que eu sou daquelas que tendem a acreditar no mundo. Na vida. E esse, talvez, seja meu pior defeito, o que me torna essa chorona incontrolável.

Hoje eu só queria mais delicadeza, um colo bom de amigo. Não sei por que hoje eu tive a sensação que meus amigos são escassos. Que me perdoem os verdadeiros. Talvez eu esteja seca, escassa. O certo é que não recorri a nenhum colo, como é meu costume incorrigível.

Mentira, acabo de tentar um telefonema para o Gil, mas o telefone está fora de área.

A verdade é que não dá para ser mais a mesma menina, a de 18 anos que acreditava no outro e em si mesma, que tinha uma fé enorme no destino, no futuro, no mundo. Por mais que, por um tempo, ela parecesse resgatada, alimentada, viva. Aí está a vida para provar que já não é mais possível, que é preciso ser mais realista, fazer as escolhas com os pés fincados no chão. Justamente eu que escolho tudo com o coração. Justamente eu que sempre achei bonito escolher com o coração.

Hoje estou num daqueles dias em que nos sentimos enganados. Pela TV, pelo cinema.. Pelos outros... E, o que mais dói, por nós mesmos. Há um meses a mãe de um aluno meu, jornalista, me disse que achava muito bonita a minha relação utópica com a Língua Portuguesa. Sim, tenho uma relação utópica com a Língua Portuguesa. Com a Literatura. Com o amor. Com a vida.

Não, não tem dado certo.

Sempre achei que a poesia salvava tudo, que para ser bom tinha que ser lírico e que se fosse lírico já tinha valido a pena. Sempre achei que a poesia tinha uma capacidade imensa de salvar o mundo. Lembro-me de um dia, chamar alguém pela mão e dizer: veja o que escrevi para você, veja, coloquei toda a minha alma, todo o meu coração aqui, venha, quero te dar, vamos salvar o mundo, vamos salvar o nosso mundo. Houve lágrimas e o amor ficou ali registrado. Mas o mundo não foi salvo.

É tudo mentira. Que tudo vai dar certo. Que iremos melhorar o mundo. Que as coisas estão melhores. Que o ser humano é bom. Não é. Eu não sou boa, você não é bom, juntos, então, somos terríveis, cuidado conosco. Os seres humanos não são o que gostariam, não são o que gostaríamos.

Salvo, claro, raríssimas exceções, daquelas que nos fazem suspirar... Puxa.. Que pessoa! Mas são raras, muito raras essas pessoas. Um segredo: eu não estou entre elas. Tenho defeitos. E conforme vou envelhecendo vou me tornando amiga deles, conhecendo-os todos, dizendo a cada um deles bom dia ao acordar, boa noite ao dormir.

Mudar? Acho que já mudei um tanto bom. Mais? Quem sabe o tempo que a tudo leva aos poucos... As pessoas, os momentos, a vida... E os defeitos.

Sempre chega um momento em que estamos sozinhos. Não há mais ninguém, é só olhar para o lado. As pessoas estão todas muito ocupadas, todas com muitas outras questões, muito mais importantes do que as suas. Porque as suas, meu amigo, são as suas. Isso eu ouvi esses dias. E concordo em gênero, número e grau. Por mais que as pessoas se aproximem quando algo de muito ruim acontece, logo elas se acostumam e partem, logo acham que é normal. Mas você precisa seguir a sua vida, todo dia, e seu sofrimento não é compreendido por ninguém de fora, exceto por você, que todos os dias convive com ele. Somente você poderia medi-lo. Isso eu ouvi em um contexto muito mais dramático do que aquilo que estou dizendo. Mas acho que serve para tudo.

No fundo somos todos sós.

Enganando uns aos outros com mentiras e mentiras. Enganando a nós mesmos com falsas promessas.

Sonhando longe.

Esses dias eu sonhava uma cidade. Minas. Aconchego. Uma casinha no sítio. Silêncio. Talvez um ano sem trabalhar. Dois filhos. Música. Livros. Frio. Sonhava uma paz tão grande, paz que anda faltando no meu cotidiano.

Nessa semana, eu nem sofri mais tanto com a falta de delicadeza. Mas percebi que ela vinha de quase todos os lados. Apenas olhava, sorria por dentro e pensava: Vamos lá, é assim mesmo, você que não havia percebido antes. A vida é uma grande troca de favores. É tudo interesse.

Chega um dia em que você não está bem. Que não está bom, que não dá mais para sorrir. E nesse dia não há mais. Porque ninguém está a fim de tristeza. O mundo quer é alegria, alegria pirateada, alegria, alegria, alegria. Gente triste tem depressão e deve tomar remédio. Gente triste não tem espaço. Gente triste não tem motivo. Olha quanta coisa boa há no mundo, minha gente.

Gente triste nem devia existir. É gene fraco. O mundo é dos fortes, dos que sobrevivem.

Agora eu queria um abraço, desses bem grandes, que deixam a gente chorar dentro, soluçar dentro, e que parecem firmes, fortes, ali. Na verdade eu queria um abraço bem específico nesse momento.

Escolhi mal. Há muito tempo venho escolhendo mal. Errei, oras. Tem como mudar, tem como iniciar o jogo de novo? E as marquinhas, todas as que eu carrego? O que faço com elas?

Escolhi mal. Agora são 27 anos e muitas coisas me levam a concluir isso. Não, não foi só o dia de hoje, esse 29 de outubro - não vou dizer que é 30 porque ainda não dormi. Foram muitas experiências somadas. Muitas. Mas só hoje eu percebi.

Não se deve escolher nada com o coração. O coração não sabe escolher, está mais do que provado. O coração sabe sentir e sofrer as consequências. Escolher ele não sabe não. Não é uma de suas incumbências. Ele tem outras.

Essa é minha resolução: A partir de hoje, nunca mais irei fazer escolhas, quaisquer que sejam, com o coração.

Minas não há mais.

Ps. "Feliz do homem que não espera nada, pois nunca terá desilusões".

1 commento:

Igor Gomes ha detto...

Texto muito lindo... Identifiquei alguns momentos meio assim, e me identifiquei também no sonho. "Minas. Aconchego. Uma casinha no sítio. Silêncio. Talvez um ano sem trabalhar. Dois filhos. Música. Livros. Frio. (...) uma paz tão grande". ...