
Se o futuro já chegou e talvez já tenha deixado de existir, a vida, e amanhã é abril de um ano qualquer, que eu também não sei como o tempo pôde alcançar.
Eu que nem gosto de café, nem devo tomar leite, hoje tomei um golinho de café-com-leite. Lembrei da minha bisavó. Do café no copo, do biscoito.
Nem sempre o mundo é como queremos. Às vezes queremos muito, às vezes queremos errado. Mas, indo e voltando, vamos pincelando a nossa vida. Muito do que escrevemos nos é, de certa forma, imposto. Imposto pelas regras, imposto pela sorte, imposto pelo acaso. Porém, muito vem de nós mesmos, das nossas escolhas. Uma escolha sempre tem um resultado. O estar no mundo é complexo e cheio de ações e reações.
Hoje me deu saudade. Como no dia em que, lendo o livrinho lindo que trabalharei com os meus alunos, tive uma grande sensação física de saudade dela. Saudade do abraço, do estar pertinho, dela segurando na minha mão e falando: que mãozinha linda!
Era um descer de escadas, era um acordar cedinho e correr para sua casa. Era um bisavó quietinho, manso, carinhoso. Era uma bisavó brava, briguenta, mas com tanto amor. Assim nas entrelinhas, nos abraços. A bisavó que já nascera velhinha, velhinha.
E sempre vem a culpa. Não sabemos por quais motivos deixamos de estar mais perto, deixamos de dizer mais vezes eu te amo, você é importante pra mim, você me ensinou muitas coisas.
E ela dentro de mim. E o quanto eu carrego dela... Existem coisas que não podem ser medidas, que não têm medida, que têm apenas esse mar de sentimento, de arrepio, de saudade.
A saudade realmente é coisa física. Uma coisa que vem com o tempo.
Hoje ainda é um feriado não-feriado e eu tenho coisas para terminar. Trago no peito uma sensação de finitude, de saber que as coisas passam, às vezes apagam, às vezes vão morrendo. Mas a idéia dela, pequenininha, a fazer biscoitos e servir café-com-leite quentinho, num estranho paradoxo, me dá a impressão de eternidade. Porque eu estou aqui, cinco anos e alguns dias após a sua morte, trabalhando, amando, esquecendo e deixando-me esquecer, mas ela permanece tão viva em mim. Tão viva que é quase eterna. Tão viva que eterna.
Os problemas existem. E a falta de tempo. E uma porção de acontecimentos e dores. E o mundo todo cheio de entraves. E as pessoas, as pessoas. Essas complicações, esses desentendimentos. Essa vontade de viajar, de conhecer. Mistérios, amores, estranhamentos.
E ela ali permanecendo. Lembro de uma conversa que tive logo após a sua morte com alguém muito especial.
(Lembro de estar sentada, os olhos mergulhados em lágrimas, o mundo e as perdas. O mundo horroroso, mal, que não compreende).
Então ela não morrera? Ela permanecia ali, em algum lugarzinho escondido? Ficava para sempre em mim e na minha história? No meu consciente e no meu inconsciente?
Porque virar memória é difícil. Porque a gente esquece. A gente ama e esquece. A gente faz amigos e esquece. A gente estuda, estuda e esquece, esquece. A gente lê, viaja, nada, a gente corre, passeia, dorme, acorda, come, começa, termina. E esquece. Mas, claro, há coisas que ficam. Misteriosamente há coisas que não passam. E viram memória, e viram um refazer eterno dentro de nós.
A minha bisavó, “vorcília” como a chamávamos, é uma dessas pessoas eternas. É memória, é pedacinho de mim. Participa das minhas escolhas, da minha forma de amar e odiar, da minha forma de chorar e desejar. Dona Hercília jamais será esquecida por mim. Porque é eterna, porque me deixa feliz e triste, assim nessa segunda-feira. Porque me faz perceber que nem tudo é efêmero.
O mundo pode mudar, novos dias, novos acontecimentos. Surpresas e dúvidas, sustos e certezas. Cá dentro mora uma senhorinha que um dia conversou comigo sobre o amor, sobre a sua meninice, sobre os seus sonhos de garota.
Cá dentro, a eternidade.
4 commenti:
Quanta coisa bonita de Camila encontrei por aqui... Que texto ótimo e que me caiu como luva... Pra esse meu momento... Tb sinto falta(s)... Bjo!
Que lindo!!!!!!!!
Pessoas do mundo da Camila... Fico mto feliz que tenham gostado... Nada como dividir os sentimentos e impressões (e dores e alegrias) com pessoas queridas... Beijo nos dois!
Pôxa vida, Camila... Cê sabe que eu estava com saudades de ler textos assim, tão caprichados, cheios de carinho? Me lembrou dos biscoitos da sua bisavó, que eu acabei de conhecer.
Essa vida louca vai fazendo a gente esquecer da p´ropria vida.
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