lunedì, aprile 23, 2007

Gestos


"Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu.


Tempo de nascer, e tempo de morrer;

tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou.

Tempo de matar, e tempo de curar;

tempo de destruir, e tempo de construir.

Tempo de chorar, e tempo de rir;

tempo de gemer, e tempo de dançar.

Tempo de atirar pedras, e tempo de recolher pedras;

tempo de abraçar, e tempo de afastar-se do abraço.

Tempo de buscar, e tempo de perder;

tempo de guardar, e tempo de jogar fora.

Tempo de rasgar, e tempo de costurar;

tempo de calar, e tempo de falar.

Tempo de amar e tempo de odiar;

tempo de guerra e tempo de paz”



Não sou muito religiosa, tampouco conheço a bíblia. Mas gosto deste trecho. Recebi de presente, em uma folhinha, de um amigo não muito próximo há quase dois anos. Era um dia triste, a vida e as suas reviravoltas inesperadas. Achei o gesto tão simples, tão limpo, tão delicado. Foi uma tentativa de me reconfortar. Era um bom amigo. Perdido nas próprias atitudes, na própria vida, nos sonhos que não conseguira - ainda - alcançar. Uma pessoa que há pouco havia passado por muitas mudanças. Daquelas mudanças que a gente passa dentro da gente.

Também me lembro de um dia, há uns bons quatro ou cinco anos, quando um amigo, com o qual eu perdi totalmente o contato - onde estará ele? -, me deu de presente um marcador de texto com um trechinho da bíblia. Esse amigo era de uma leveza impressionante. Uma dessas pessoas - tão, tão raras - sem maldade, com o coração clarinho, clarinho... Eu me emocionei, guardei com todo o carinho o pequenino presente. Lembro da Eliane impressionada com a minha emoção... Ela abriu o sorriso mais bonito - desses que ela distribui diariamente para os seus amigos queridos (ai que saudade da Eliane...) - e me disse que não imaginava que eu ficaria contente com um presente tão distante das minhas crenças, do meu modo de ser - extremamente crítico e chatinho, de acordo com as minhas amigas letrandas da época. Acho que foi sobre ternura que conversamos naquele dia. (Há quanto tempo eu não uso a palavra ternura...)

Era um dia, como um dia qualquer de uma estudante de Letras. Na verdade era uma noite. Uma noite com um clima agradável. Eu estava com o coração apertadinho, descendo as escadas da faculdade, depois de sair da aula de italiano. A Juliana veio correndo, me chamou e me mostrou um colarzinho todo bonito. Verde, delicado. Então ela me disse que era um presente. Que ela tinha feito pra mim. Na hora nem sei o que pensei. Eu nunca tinha conversado com a Juliana. Admirava a sua força, a sua determinação e o seu sorriso iluminado e largo. Ela não estudava comigo na mesma turma - entrara um anos antes no italiano - e organizava atividades, falava, gesticulava... Mas não era minha amiga. Assim ao pé da letra. Nunca havíamos conversado. E eu ali, com um colar verde na mão - como é que ela tinha adivinhado que verde era a minha cor preferida? -, sem saber o que responder, o que falar. Eu agradeci, já ia saindo, quando ela disse:

- Mas... Viu... Eu só faço esses colares pra pessoas que eu gosto muito, que eu tenho muito carinho.

De repente eu ali... Com aquela menina linda a me oferecer um presente - feito por ela. Um presente que ela só fazia para quem gostava muito. E eu no meio das pessoas que ela gostava muito... Nesse dia a Juliana entrou no meu coração... Da forma mais doce que alguém pode entrar no coração de uma pessoa. E nunca mais saiu, está lá até hoje. Lembro do meu alívio, da sensação que a amizade causa. No corpo, na alma. Foi uma noite bonita, o caminho pra casa, os pensamentozinhos coloridos. Afinal a vida era muito mais do que parecia. A vida era ter alguém no mundo que assim sem mais nem menos gostava de mim. Assim, sem precisar de nada. Naquele dia eu fui dormi levinha, acompanhada. Não estava mais sozinha. Alguém no mundo gostava de mim.

Sim, hoje tenho pressa. Tá tarde. Tenho coisas pra fazer. Muitas coisas. Provavelmente dormirei bem tarde, acordarei com muito sono amanhã e terei coisas, mais coisas para fazer. Escrevi correndo. De novo. Não sei, mas era preciso dizer. Dizer a chuva, os gestos claros. O tempo. O tempo que vai inundando tudo, as coisas passando... Mas algumas ficam. Pouquinhas. Nem sempre o que a gente imaginava que ficaria. Às vezes coisas grandes somem - nesse emaranhado que é a memória. Talvez não fossem grandes de verdade. Às vezes coisinhas bem pequenas ficam para sempre. Talvez - é, talvez - essas é que fossem realmente grandes.

Há tempo de abraçar e tempo de afastar-se do abraço. A chuva. Eu gosto da chuva.

Nessun commento: