sabato, maggio 26, 2007

"Monstro assustador"



Aqui estou eu, uma outra vez. Sábado à noite. É hora de escrever em blog? Tsc, tsc... Tô aqui pra fugir mesmo. Fugir das milhares de coisas que tenho pra fazer. O Má está gravando a música para o festival. Vai chegar tarde. Nem compensa ligar agora... E eu vou pensando nas coisas. Uma preguiça...

Quando eu era criança minha mãe contava que a mãe dela contava que a vó dela contava que preguiça era um monstro muito feio e que toda vez que a gente falava o nome dele ele aparecia por perto. Como minha família sempre falou de espíritos e de outros mundos, tudo ficava misturado na minha cabeça: monstros e espíritos. O que era verdade pra eles e o que contavam pra assustar? Eu não sabia diferenciar bem. Boi, boi, boi da cara preta. Vai saber esse tal boi. Vai saber se o monstro chamado preguiça era muito horrível mesmo. Minha mãe descrevia. Um monstro enorme, que fica sugando a gente, com uma cara horrível. Eu nem imaginava uma cor, nem sabia como era... Mas me dava arrepios pensar no tal monstro. E tinha monstro pra tudo... Monstro da raiva, monstro do medo... Mas o da preguiça sempre foi o mais feio. E da existência dele até hoje eu não duvido muito, não.

Mas como é bom ter preguiça (que a minha mãe não me ouça!). Como é bom esparramar-se na cama. Deitar no sofá. Ler o que quiser. Ter uma tarde livre. Não ando tendo isso tudo. Assim com liberdade. Sempre me cobro, sempre me atraso, sempre um mundaréu de coisas pra fazer. Coisas nem tão legais.

Ando refletindo sobre a minha profissão, sobre a cidade onde moro, sobre meus sonhos, sobre o que aprendi e desaprendi na faculdade. Nos meus planos não estavam dar aulas para quem não quer assistir. Nem ensinar o que eu não acredito que seja importante aprender. Nos meus planos estava ensinar aquilo que gosto: os livros, a poesia, o lirismo. Nos meus planos aprender mais do que ensinar. Conhecer os anseios, os desejos. Ouvir. Nunca imaginei que dar aulas de italiano fosse assim tão mais leve do que dar aulas de português. Para adultos ensinar a ler, ensinar histórias e mundos é tão mais fácil. Para pré-adolescentes a coisa complica. Não compreendo bem a minha função. Não gosto de trabalhar apenas por um salário. Gosto de trabalhar sabendo que estou fazendo o melhor que posso, o melhor de mim.

E a minha incapacidade de lidar com o tempo? Eu aqui, às 9 da noite. Por que não começar a fazer o que tem que ser feito? Por que não ter um fim de semana leve e não fazer nada e nem se sentir culpada? A verdade é que sempre fui assim. Desorganizada, atrasada, confusa. Mas quando tenho que fazer coisas que não gosto tudo piora...

Falei com o Junior no telefone essa semana... Ele me falou sobre a irmã dele. Achamos que ela se daria muito bem na área de saúde. Ela tem uma cara de terapeuta, de médica, de psicóloga. Mas estudou adminstração e teme sair disso. Concluímos, nós dois, que ela é muito nova para ter as coisas tão decididas e deveria arriscar fazer o que tem vontade. Ai, meu Deus. Quem somos nós para concluir alguma coisa? O Ju é irmão. E eu sou intrometida.. Mas daí eu fiquei pensando... Ela é muito nova. Tem 25 anos. Eu tenho 24. Posso dizer que também sou muito nova? Que posso mudar completamente o rumo da minha vida se assim quiser? Me deu vontade de fazer tudo diferente. Será que dá tempo? O que será que será que eu quero? Acho que vou virar bailarina (a idéia da Ana Clara me parece a mais sensata dentre todas que andei tendo... rsrsrs).

Nunca quis ter apenas uma profissão. Trabalhar das 8 às 6 todo dia, todo dia... Sempre quis trabalhar em vários lugares. Por isso dar aulas de português e italiano é uma boa opção. Diversificar a semana. Porém, tem dia que tenho vontade de mudar. Ai, tem dia que o desejo é justamente esse: trabalho igual, trabalho que a gente não leva pra casa (professor descansa de fim de semana?), que a gente vai lá, faz e volta pra casa. Tem dia que tenho essas vontades estranhas.

Ai, que preguiça.

Ontem cheguei em casa e havia uma pequena reunião decidindo a minha vida. Eu disse a MINHA vida. É isso mesmo. Meu pai e minha mãe discutindo sobre a cidade em que eu poderia morar. Piracicaba, Sorocaba... Lá iam eles pensando. Acontece que a minha mãe anda preocupada comigo. Acontece que ela tem razão, eu também ando preocupada comigo. Mas querer que eu mude de qualquer jeito, que eu construa uma vida do que jeito que ela acha bom não dá, né? São Paulo é realmente foda. A vida que eu estou levando: muito ônibus, solidão, muito trabalho e pouco tempo não está certa. Preciso rever tudo isso. Mas não é assim também de uma hora para a outra. Ando brigando comigo. Eu tenho uma mania maluca de dar um grande foda-se para tudo de repente. Ela mesma já me disse isso, o Gil já me disse isso. Na hora doeu. Poxa vida, tava difícil conviver com aquele chefe, eu disse na época. Mas depois andei pensando. Claro que se eu não tivesse saído do Consulado eu não iria conseguir terminar o curso. Muito trabalho na época. E muita coisa para estudar. Mas eu preciso aprender a conviver com as dificuldades. A Ju acha bonito esse meu jeito de acreditar no que eu quero e no que eu não quero, em me manter firme. Em pedir demissão às 9 da manhã. Ela me acha certa, me acha forte, me acha verdadeira nisso tudo. Mas me irrita um pouco. Pedir demissão realmente é maravilhoso. Às vezes sai um peso de 200 quilos das costas. Li em uma coluna na revista Vida Simples nesse mês sobre a alegria que é pedir demissão. A leveza, o desapego. Sei disso. Já provei disso. Mas ando querendo ser diferente. Agüentar o mundo, o peso das coisas. Nem sempre é tudo legal. E a gente é grande. E eu sou grande. E eu devo crescer.
Mas a verdade é que dá vontade de outras coisas. De ter mais tempo. Como é que faz pra ter tempo em São Paulo? De ter mais espaço. Se ainda não mudei é por medo. Medo de não ser isso. Medo de não ser bem isso o que queria. Onde estará o meu lugar? O meu cantinho, o que eu preciso construir nesse mundo? Acho que ando meio sem rumo. Esse negócio de terminar a faculdade é mais complicado do que parece. Vejo mil possibilidades pela frente. Esse ser adulta. Dá vontade daquele poema da Adélia Prado. Daquele pedido desesperado: "Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande". Porém, mais difícil do que ser gente que vira adulto deve ser ser mãe de gente que vira adulto. Minha mãe se confunde. Desde que eu fiz 18 anos. Uma hora cobranças, você tem que fazer isso, tem que fazer aquilo, tem que suportar, tem que entender. Outra hora aquele desespero, aquela vontade de me trazer embora, aquela preocupação exageradíssima, do jeito que só minha mãe consegue nesse mundo.
Medo deve ser um monstro tenebroso também. Eu tenho medo. Confesso. Medo das coisas que não sei. Do que ainda não chegou. Mas tenho, também, muita coragem, muita vontade de viver. Não desse jeito desorganizado. De um jeito mais levinho, mais calmo. Tenho vontade do mar, da Itália, vontade de escrever, de lecionar. Vontade de mais palavras em italiano, de mais músicas, de mais livros, de mais pessoas. Tenho muitas vontades. Aí o medo se cansa e vai embora.

Não sei. Pergunto pra Sol sobre alguma profissão divertida. Deve ter, deve ter. Ela me diz que deve ter. Que lindo! Mas que com certeza não deve ser rentável. É isso. O mundo precisa de dinheiro. E a gente precisa ser feliz e ganhar dinheiro trabalhando. Não será muita coisa junta? Será compatível? Já pensei em ser outra coisa. Mas tudo que a gente faz todo dia acaba um pouco com uma cara de coisa chata. Mesmo que seja de vez em quando. Se dependesse do coração, acho que eu vivia de teatro. De poesia. De música. Dessas coisas que me arrepiam. Mas será que não irrita também? Será que não cansa? Será uma vida toda emocionante? Já imaginou viver de escrever? Viver de palavras? Deve ser um bom emprego. Pode ser rentánvel. Mas... Será legal todos os dias? Acho, sinceramente, que não. Não deve ser. Nada dever ser legal todos os dias...

Mas e aí? O que fazer quando vem aquela preguiça? Aquele sentimento de eu quero fazer o que bem entender com o meu sábado à noite? O que fazer? Compromissos, coisas pra terminar, papéis, papéis. A gramática, os gêneros textuais. Nenhuma vontade disso. Vontade de esticar esse sábado até não poder mais. Vontade de sábados mais compridos. Mas será que se todo dia fosse sábado o sábado iria ter graça? O dia ia ter graça? Folga todos os dias, festa... Assim como em Desatino do Sul... Hum.... Será que seria bom? Não sei... Às vezes acho que a graça do sábado está no de vez em quando.

Ontem cheguei e recebi um daqueles abraços que só recebo na sexta, quando chego. Abraço de saudade, beijo de saudade, carinho de saudade. Uma vontade de sair e entrar duzentas vezes só pra receber duzentos abraços de saudade. Uma vontade de ficar apertando um botãozinho do tempo: sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, SEXTA, sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, SEXTA... E fazer parar sempre na sexta. Só pra receber abraço de saudade. O tempo é um negócio estranho.

Agora tá ficando tarde. Agora vou ligar. Meu mocinho tá demorando. É sábado. Dia de vida, dia de alegria. E de muito frio por aqui.

E é dia de preguiça. De dar uma pausa no ritmo das coisas. Mesmo que isso me custe noites sem dormir nos próximos dias. Então me deixe correr que hoje ainda é hoje. E o dia de sábado é o mais fujão de todos...

"ATENÇÃO AO SÁBADO

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.
No sábado é que as formigas subiam pela pedra.
Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.
De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.
Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?
No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.
Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.
Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.
Domingo de manhã também é a rosa da semana.
Não é propriamente rosa que eu quero dizer".

Clarice Lispector

2 commenti:

Girl in Kimono ha detto...

Entendo bem suas questões, seus pensamentos, suas angústias.
Engraçado como sem querer resolvi dar uma passadinha pelo seu blog (já

havia passado por aqui qd a July Fidelis havia me dado o toque), mas hoje

foi um dia especialmente importante para que esse "encontro" novamente

acontecesse. Me vi em suas palavras.
A mesma incapacidade de lidar com o tempo, a mesma sensação e culpa

pela preguiça do corpo e da alma, a mesma vontade de fugir, de achar, de

buscar, de perder, de encontrar.
A mesma confusão.
E olha que tenho 26 anos, mas lembro que com 24 já me sentia "velha".

Hoje vejo que não era. Mas me sinto assim hoje, e talvez daqui uns anos

compreenda que não estava. E assim vai...
Porque por medo de correr atrás da vida, estou deixando-a escorrer entre

meus dedos... não sei bem por que, talvez seja medo. Medo porque me

sinto velha para recomeçar o que deveria ter recomeçado aos 20 anos,

quando eu já me achava "velha".
Também não tenho muito tempo para minha vida, e isso me mata

profundamente. Penso e repenso um milhão de vezes sobre minha

profissão (sou editora de vídeo, ou uma pseudo-editora, sei lá).
Mil monstros também me assombram, mas o maior deles é o monstro do

fracasso. Tenho medo de falhar e esse medo me paralisa tanto que

acabo nem tentando.
Sim, o mundo precisa de dinheiro. Eu preciso, você também, mas

precisamos mais ainda de tesão pela vida, senão ela deixa de fazer

sentido. E olha, estou morrendo de medo de que isto esteja acontecendo

comigo... Medo de não fazer mais sentido no mundo e das coisas não

fazerem mais sentido para mim...
Pensei em pedir demissão amanhã. Mas estou pensando muito bem a

respeito. Porque, assim como você, também sei como é isso.
Então, só queria deixar aqui registrado, para que você não se sinta só,

nesses mil sentimentos que nos ocorrem. Você não está só. Eu estou

aqui. Outros também estão e estarão. E não tenha medo de correr atrás.

E espero que eu também perca esse medo.
Um beijo e uma ótima noite de domingo.
Denise Kimie

Camila ha detto...

Querida... A Ju tb me passou seu blog e eu tb já tinha dado uma espiadinha... Fico contente que tenha se identificado com o texto... Tô gostando de ter blog, de explodir em palavras, de contar sobre mim, sobre o que penso. Mesmo que seja correndinho (como hoje).

Menina... Você é nova, novinha... E tem muito o que viver... Chega uma hora em que ter 20 ou 26 não muda tanto... O negócio é começar a mudar hoje, agora, nesse momentinho. Mesmo que seja uma mudança dentro da gente. Assim é que começa, não?

Ando repensando tudo. A minha forma de agir e ser e o que andei construindo.. Tenho uma mania incontrolável de viver o tempo todo analisando, me analisando... A Ju que eu falei no texto é a Juliana... Ela sempre diz que admira meu jeito. Me apoio muito na última vez que dei um foda-se para tudo e pedi demissão. Mas eu ando irritada com meu jeito de desistir. Ando querendo crescer e aprender a suportar. Também ando procurando outros lugares, outros espaços... Não sei como está o seu trabalho... Mas acho importante traçar um caminho antes de desistir. É importante saber pra onde estamos indo. Isso ando tentando procurar.

Mas é tudo difícil, eu sei. Nem todo dia a gente tem saco pra ser paciente, compreensiva... E realmente não vale a pena viver mentalizando o salário do fim do mês (como uma querida amiga me disse ontem que estava fazendo nesse mês)... Como a gente faz... Muitas vezes...

Prometo ler com carinho seus textos e te escrever.

Boa sorte por esses caminhos da vida. Espero te conhecer um dia... Afinal amiga da Ju só pode ser gente boa.

Um beijo e uma semana linda.