
Tem dias em que tudo começa quietinho e de repente o mundo vira de cabeça pra baixo. Você só queria o silêncio, seus livros, seu cantinho, alguns filmes, cobertor. Afinal é feriado, São Paulo faz aniversário e você teve a infeliz idéia de não ir à festa, de ficar quieta, muito quieta no seu canto. Você não quer estar em lugar algum que não seja o seu, nem ver pessoa alguma que não goste de você. Chama-se dia de reclusão. Não, você não quer brigar, nem ouvir coisas ruins. É, você não quer mais ouvir coisas ruins. Então o mundo resolve brigar, o mundo resolve fazer desordem no sem canto, justo nesse dia tão calminho. Então você resolve sair, ir para o seu cantinho preferido, escrever as suas coisas, no seu caderno. Mas você não pode. O mundo insiste em criar encontros. Não, você não quer mais ninguém te tratando mal, você não quer brigar. Você quer silêncio, você já entendeu. Você pede desculpas, perdão por tudo. Mas, por favor, você quer silêncio e poder estar no canto que você escolher sem brigar. Existem dias que são incompreensíveis. Você gosta de muitas pessoas, ama muitas pessoas na sua vida. E por isso mesmo você quer estar quieta, no seu canto. Você cansou de magoar as pessoas que ama e de ser magoada por essas mesmas pessoas. Tem dia que você só quer sair correndo e estar na sua casa. Então você pensa: Mas por que cazzo você resolveu sair da sua casa, lá longe, quietinha, vazia, silenciosa? Então você decide que o melhor é ficar bem longe das pessoas que você ama. Você não quer, não quer mais magoá-las. Você só é você e só o que sabe é magoá-las. Você só quer ser você e ficar no seu canto. Então você entende que seu canto não pode ser estendido. Que o seu canto é a sua casa e ponto. Então você agradece o fato de ter uma casa silenciosa te esperando. De ter uma segunda-feira daqui a pouco, dia em que você tem que trabalhar. E esquecer. Tem dias que você não entende mesmo. Por que logo no dia em que você resolve compreender as coisas, dialogar com a saudade, compreender a saudade, compreender o tempo, escrever, estar quieta, por que justo nesses dias o mundo não deixa? Ação e reação? Você não deu paz para o mundo e agora o mundo não quer dar paz para você? Justo, muito justo. Mas não dá pra pagar depois? Aos poucos, devagarinho? Você compreende, você erra muito, errou muito, você é mesmo uma criatura muito chata. Às vezes. Tem lá um punhadinho de pessoas que te acham muito legal. Você não é simpática, nem quer ser. Você queria dançar se pudesse. Hoje. Mas o mundo te arranjaria mais encontros. Você pensa em voltar pra casa agora, ir para o bar novo que te chamaram, ouvir Clara Nunes, ouvir Clara Nunes, acho que era tudo o que você estava precisando. Mas você também não quer ir. Na verdade, você queria estar lá. Agora. Na verdade você quer pedir perdão para todas as pessoas. Dizer que sim, você realmente não sabe amar. Suas plantinhas morreram todas porque você esqueceu de regá-las. Nem das plantinhas você sabe cuidar. Talvez você saiba cuidar de você, você só queria tentar. Você promete que nunca mais será como antes, que você não irá aparecer, mas suas promessas não valem mais nada. Você está triste, triste de não chorar. Você só queria o seu canto, alguns livros, Clara Nunes cairia bem, mas você não queria encontrar as pessoas conhecidas. Você queria ir e dar de cara com um mar de gente desconhecida e ficar quietinha num canto do bar. Talvez um copo de vinho, talvez uma latinha da única cerveja que você gosta e que mesmo assim não gosta tanto. Talvez água. Você só queria estar lá, ouvir as músicas, não conhecer ninguém diferente. Você nem sabe lidar com a sua lista de pessoas conhecidas, para que gostaria de mais pessoas? Você só queria ir pra lá. Talvez sambar quietinha no canto, talvez só ouvir as vozes, observar as pessoas, os grupos, os namorados, os amigos, as risadas. Ver só pessoas que não te conhecem e que você não conhece. Ficar só, só pra se viver (você lembra de uma musiquinha boba, mas que casa bem com esse momento). Ficar só.
Tem dias que você só queria ser uma caixinha. Fechada, pequena. Tem dias que você só queria ser uma caixinha.
Tem dias que você só queria ser uma caixinha. Fechada, pequena. Tem dias que você só queria ser uma caixinha.
1 commento:
Tem dias que...
Olha, como somos idênticos. Seres humanos idênticos é mais comum do que pensamos. Sei lá, Ca. Sinto igual. E parece que nada no mundo se explica, nada nos explica. Nesses momentos é que me sinto mais humano. Por isso, fraco. Por isso, mortal.
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