giovedì, gennaio 31, 2008

Vem chegando o carnaval, que alegria!





Ô abre alas que eu quero passar

Ô abra alas que eu quero passar

Eu sou da lira não posso negar

Eu sou da lira não posso negar...


Dizem que carnaval é tempo de alegria, de festa, de música o dia todo, de dançar até formar bolha no pé, de beber até cair, de dar muitos beijos na boca, de fazer muito sexo (com camisinha, como pedem as campanhas), de esquecer da vida, dos problemas, das dores, do amanhã, do ontem, dos compromissos, do tempo, de si mesmo. Carnaval é tempo do não tempo, tempo de poder ser outro, de se fantasiar, de sair por aí ao vento, descalço, sem lenço nem documento, nada nos bolsos ou nas mãos. Carnaval de rua (de verdade) é aquele em que as diferenças sociais deveriam desaparecer, onde todos brincam livremente e são o que não podem ser nos outros dias do ano. Tempo de mistura, de felicidade, de se entregar aos braços do acaso, de esquecer que depois do carnaval vem a quarta-feira de cinzas e tudo termina (e o ano começa...). Carnaval não é para lembranças, nem para amores, nem para planejamentos. Carnaval é época de paixão, daquela paixão que já começa ardente e se arrasta pelos meses seguintes na memória... Carnaval é tempo de ser amigo de todos, de esquecer rinchas, desentendimentos, feridas e acontecimentos. É tempo de ser amigo, rever os antigos, fazer novos, dar muita risada, ficar sem dormir, dançar, dançar, dançar... No carnaval, dizem, muitos bebês são fabricados (alguns têm a sorte - ou o azar, sendo pessimista - de nascer, outros não...), muitos acidentes ocorrem, muita gente exagera no exagero e vai parar no hospital. Carnaval é mesmo tempo de exagero, de não ter medida, de fazer o que bem entender.

Isso é tudo o que dizem por aí. Acho que nunca tive um carnaval tão desgovernado e feliz assim. Meus carnavais são despretensiosos, levinhos, tempo em que eu posso dar um tempo no exagero que é o meu viver diário... Acho que meus carnavais mais bonitos foram vividos na infância, quando eu estava sempre muito fantasiada e feliz, sem realmente pensar na vida, no passado, no futuro, na escola que começaria em breve, no que seria quando fosse grande. Então eu era uma baiana, uma havaiana, bailariana, palhacinha, borboleta... Então eu era outra menina, os mesmos cabelos castanhos, os mesmos olhinhos alérgicos, a mesma alegria estampada no rosto. Desde pequena eu adoro fantasias. Minha paixão pelo teatro (hoje guardada no fundo do armário) acho que começou aí. Nunca perdia a oportunidade de me fantasiar. Minha irmã do meio tira sarro até hoje da minha mania de me fantasiar... Mesmo nas festas juninas das escolas onde ela estudava (ela, que é dois anos mais nova do que eu) eu ia fantasiada. É muito engraçado de ver as fotos... Eu sempre fantasiada em toda festa que podia. Lembro de um amigo, muito querido por sinal, com o qual falei esses dias, que sempre me diz que quando tiver um filho vai deixá-lo fantasiado o dia todo, porque criança adora estar fantasiada. Então pensei que a fantasia iria perder a graça. Que graça tem fantasia se ela vira uniforme? A graça da fantasia é a mesma do carnaval. A de ser de vez enquando, a de durar um tempo curto... Lembrando do livro Luna Clara e Apolo Onze e da conversa que eu tive com um amigo meu sobre o livro (Saudade... Saudade do Neto... Por onde ele anda???), quando ele me disse, analisando a cidade de Desatino do Sul, que aquilo era a própria idéia do inferno. Desatino do Sul é uma cidade que vive em festa, todos os dias, o tempo todo, sem parar. Eu achei a declaração do Neto meio exagerada, então ele explicou: O inferno é exatamente aquilo que não tem fim. Você já pensou em uma festa que não tem fim nunca? Que nunca acaba? É, é realmente inimaginável, impossível e, pensando na vida de todo dia, iria ser bastante insuportável. É bonito de imaginar uma vida toda em festa, um carnaval sem fim, sem hora pra acabar... Mas pensar nisso, assim longe das asas da imaginação, não dá mesmo.

Então eu vou pensando sobre a vida - aproveitando que ainda não é carnaval e posso pensar sobre o mundo - e vendo que os carnavais são muito necessários. Sem tempos de festa também não há como sobreviver. Sem fantasia, sem outras realidades, é completamente impossível de encarar a vida. Está aí a arte para provar isso. Está aí a literatura para provar isso. Sem histórias é impossível sobreviver. Eu já disse isso por aqui, mas volto a dizer. Sem narrativas, sem historiazinhas sobre o mundo, sobre nós, sobre o passar do tempo, sobre os carnavais que se sucedem uns aos outros, não há possibilidade de vida. Por isso me apetece tanto (imitando o vocabulário do Felipe) o carnaval. Como o reveillon, o natal, os aniversários, a páscoa, as festas juninas e todas as datas comemorativas. Claro que o carnaval é diferente. Exige uma dose maior de alegria, de desprendimento, de festa. Os carnavais são absolutamente necessários. Claro que existem pessoas que, como diz na música do Chico, de tanto brincar de princesa, acostumam na fantasia. Acostumam com uma vida no ritmo, no tempo, no exagero do carnaval. Conhecemos muitas pessoas assim. Vivem pouco, adoecem, ou, por uma sorte extraordinária, conseguem sobreviver por alguns anos a mais do que imaginávamos. Meu pai tem e, principalmente, teve (porque muitos morreram) amigos assim. Minha casa era uma festa sem fim, de janeiro a janeiro. Música até de manhã, meu pai sem dormir, saindo para trabalhar cedo, voltando pra casa, cantando até de madrugada. Eu adorava. Às vezes me deixavam ficar nos ensaios, apesar da fumaça e da bebida... Às vezes me mandavam dormir no meio da festa. Mas eu não ia. Sentadinha na escada (quando já estava na casa nova) ou escutando atrás da porta (quando ainda estava na casa velha) lá estava uma menininha magricela, com seus imensos óculos. Menininha que teimava em aprender a tocar violão e que fazia birra para ir a todas as apresentações da banda. Era um tanto difícil dormir na minha casa, principalmente aos fins de semana, mas eu nem ligava. Era considerada pelos amigos do meu pai a única criança, entre todos os filhos dos músicos, capaz de ficar acordada até de manhã ou mesmo de passar a noite em branco. Engraçado é que eu nunca aprendi a beber, nem a fumar. Meu pai nunca me ofereceu, nem nunca me proibiu. Nunca brigou comigo por causa dessas coisas. Muito engraçado, mas eu nunca me interessei pela bebida. E, depois, enquanto crescia, ia pegando ódio da bebida, que matava alguns, deixava outros na cama, e fazia com o que meu pai não buscasse as coisas que gostaria - e poderia - fazer. Meu pai era um cara que vivia em carnaval o ano todo. Hoje acho que ele vive um pouco menos, mas nem tanto. Eu sempre gostei dessa alegria dele. Já adolescente, sentia ódio do álcool, mas adorava as músicas, as festas, as noites sem dormir. Hoje em dia, já nessa fase que chamam adulta, apesar de ter muito ainda da adolescente que fui, começo a me relacionar melhor com toda essa história de bebida... Mas ainda acho que bebida todos os dias só pode levar a uma morte rápida e estúpida e a fazer os familiares sofrerem - como eu lembro ter visto as famílias dos amigos do meu pai sofrendo. Como eu vi a minha própria família sofrendo, como eu mesma já sofri. Fantasiada de formanda, já tive que esperar muito até que ele aparecia - bêbado. Era sempre uma forma de me magoar... Lembro que um dia, depois de uma aula de ciências que falava sobre tabaco, eu joguei fora todas as caixas de cigarro que estavam em casa, com medo dele morrer. Era uma relação engraçada essa com meu pai. Dele eu trago uma alegria imensa dentro de mim, um gostar de festa, de música, de amigos em casa.

Mas, como eu ia dizendo lá longe, no começo deste post, carnaval é necessário. Mas por um período. Não pode ser o ano todo, senão deixa de ser carnaval, deixa de ter graça. Engraçado, mas carnaval pra mim nunca foi época de sexo, de beijo na boca. A menos que a memória me falhe em absoluto, meus bons carnavais, os de gente grande, foram cheios de abraços, de amigos, de dançar a noite toda, sem parar. Talvez eu seja um ser muito complicado, talvez eu seja uma mistura do que é meu pai e do que é minha mãe. Eu gosto de barulho, mas gosto de silêncio. Eu gosto de música alta, de madrugada, mas gosto de poesia quieta, daquelas de ler sozinho, gosto de domingo de manhã, de acordar cedo e sair pra ver o dia. Eu gosto de sarau até de manhã, mas gosto de casa de vó à tardezinha. Gosto (muito, muito) dos meus amigos, sou completamente apaixonada por eles, mas não dispenso uma relação muito próxima com a minha família, que é minha base, meu chão, minha realidade, minha relação com o mundo. Gosto do mundo profano, mas gosto também do sagrado. Do mundo sem religião, mas da religião que me ensinaram. Gosto da idéia de que o carnaval está chegando, mas também da idéia de que seu fim também não tarda mais do que uma semana. E daqui a uma semana eu volto para a minha casa, para o meu cantinho, para cuidar de mim, dos meus projetos (o italiano tá dando nó na minha cabeça... progetto... e em português projeto... socorro!!!), dos meus aluninhos pititicos que acabaram de chegar à escola nova e que me encataram com seus abraços, com seus sonhos, com seus olhinhos cheios de vida e curiosidade.

Vem chegando o carnaval e que ele traga muitas alegrias para todos nós. Não me lembro de estar me sentindo tão leve, tão livre, tão aberta em outros carnavais. É claro que tenho cada ano mais idade, mas cada ano trago mais histórias pra contar. E neste ano, surpreendentemente, estou mais madura, mais feliz, apesar de mais triste, mais esperançosa, apesar de ter provado mais dores. Que o carnaval venha e deslize levinho. E que a quarta-feira de cinzas chegue sem tristezas, porque o fim do carnaval não é apenas um fim, mas um começo. Estamos no Brasil e o ano só começa depois do carnaval. Mas isso já são outros carnavais...

Tanto riso, oh quanta alegria

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina

No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez

Tá fazendo um ano

Foi no carnaval que passou

Eu sou aquele pierrô

Que te abraçou

Que te beijou, meu amor

A mesma máscara negra

Que esconde o teu rosto

Eu quero matar a saudade

Vou beijar-te agora

Não me leve a mal

Hoje é carnaval

Obs: Impressionante como algumas letras de marchinha são tão tristes... rs.. Assim como algumas letras de samba. Alegria e tristeza misturadas... Acho que é carnaval!

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