
Peste bubônica
Câncer, pneumonia
Raiva, rubéola
Tuberculose e anemia
Rancor, cisticircose
Caxumba, difteria
Encefalite, faringite
Gripe e leucemia...
E o pulso ainda pulsa
E o pulso ainda pulsa
Hepatite, escarlatina
Estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo
Esquizofrenia
Úlcera, trombose
Coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes
Asma, cleptomania...
E o corpo ainda é pouco
E o corpo ainda é pouco
Assim...
Reumatismo, raquitismo
Cistite, disritmia
Hérnia, pediculose
Tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifóide
Arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie
Câimba, lepra, afasia...
O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco
Assim...
Imagine todas as doenças, todos os sintomas, todas as dores, espalhadas pelos mil corpos que podemos ter. Imagine tudo doendo ao mesmo tempo, o mundo, as costas, a cabeça, o estômago, o rim, o pescoço e as unhas do pé.
Imagine um texto lindo sobre as descobertas dos alunos. Texto escrito com tanto carinho, mas que foi apagado sem querer. Imagine as dores das descobertas tristes, as dores das dores, as dores do mundo...
Esse poeminha que vou deixar aí embaixo é o que eu mais lembrei nesse período de tonturas e vômitos e tonteiras e ânsias, e dores de cabeça e enjôos. Texto que fala do vazio. Texto que eu queria tanto dividir com as pessoinhas que visitam meu blog dia sim, dia não.
Dos amores que eu tive - e foram tantos, tanta é a minha mania de amar, desde os quatro aninhos de idade... rs - todos foram embora enquanto ainda havia amor. Todos doeram. Todos, quando partiram ou quando eu resolvi partir, deixaram aquela sensação de amor que vai embora mas que fica, de amor cheio de ternura mas cheio de defeitos. De amor que precisa de liberdade, mas que ainda existe dentro do peito. Dos meus grandes amores - esses foram poucos, bem poucos e duradouros - todos quando se foram levaram grandes mágoas. Mas deixaram uma sensação de amor, de amor que foi doado, que foi sentido, que foi repartido até o fim.
Meu último amor falhou. O último que alimentei com toda a minha provisão de alimentos para o amor. Meu último amor acabou. Assim de repente. Dele só ficaram mágoas... E febres, dores, coisas amargas, algumas marcas no pulso, no coração, na cabeça, na lembrança, nas mãos e na nuca. Meu último amor no fim se mostrou não amor, nunca amor, não repartido, não dividido. Meu último amor foi amor do eu sozinho, sozinho no mundo, inventando um outro, outro que nunca existiu. Meu último amor era um tesouro lindo que eu guardava com todos os meus cuidados. E falhou. As coisas espalhadas pelo chão. Quando vi não havia tesouro, não havia nada, era somente uma caixinha vazia. Uma caixinha triste e vazia. Meu último amor veio sem amor.
A imagem desse poema, dessa caixinha, desse tesouro que nem é tesouro, esse amar o vento... É tão triste essa imagem quanto real. Foi preciso despertar. Afastar as febres, os ataques de ânsia, as dores, as mágoas, o passado.
Como diz a Juliana, agora é tudo "trapassato remoto".
SONATA
Quando o amor acaba
é como se ruísse o mundo
ou como se o tesouro enterrado
fosse uma caixa vazia
Quando o amor acaba
começa uma outra sonata
de pássaros fazendo luz
para o próximo amor
Roseana Murray
E o pulso ainda pulsa....
OBS: Fiz um texto tão bonito sobre os alunos e ele desapareceu, apaguei sem querer... Triste... Vou fazer outro em breve.... E quando é que meu estômago vai me deixar comer chocolatinhos sem doer????
OBS 2: Lembro sempre do Ariovaldo, querido professor de literatura, quando consigo falar sobre as dores que passaram. Sim, só é possível falar da dor que já se foi, que já está indo. A dor que dói fundo é tão intensa que nos deixa sem palavras. Quando as palavrinhas vêm a dor já foi embora...
OBS 3: "Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima como eu dei, quero ver quem dava". Musiquinha breguinha, mas tão boa de ouvir. Músicas falam tanto... Tanto do que sentimos, do que não sentimos, do que nunca fomos, do que sempre somos.
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