
Do meu pai.
Eu tenho andado tão sozinho ultimamente
Que nem vejo em minha frente
Nada que me dê prazer
Sinto cada vez mais longe a felicidade
Vendo em minha mocidade
Tanto sonho perecer
Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela para ver o sol nascer
Às vezes saio a caminhar pela cidade
À procura de amizades
Vou seguindo a multidão
Mas eu me retraio olhando em cada rosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer, sua ilusão
Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela para ver o sol nascer
Quando eu era pequenininha olhava pra ele com olhos imensos, cheia de admiração, de ternura, de paixão. A gente morava numa casinha verde, apertada, fazia rabanada e bolinho de chuva pra tomar café. De noite tinha os amigos dele, eram muitos violões e muitas vozes. À tarde tinha a minha mãe e os bolos de chocolate. Era fim de semana. Era só descer as escadas e comer as rosquinhas que minha bisavó fazia e ganhar um abraço apertado do meu bisavô. Tinha a tia Cláudia e o tio João. Jogos pela madrugada, risadas, meu pai fumando na sala. Eu ficava até tarde, até quando aguentava, só para ouvir as conversas, tentar entender os jogos, aprender as músicas. O carro era um monza vermelho, a garagem tinha escada. Um dia eu fiquei presa na área de serviço. Um dia quebrei o troféu do meu pai jogando bola na sala e me tranquei no banheiro com medo. Tinha as minhas irmãs pequenininhas. A Aline gordinha, morena, cheia de cachinhos. A Mel era um bebê de enormes olhos azuis que tentava pular do berço o dia todo. Eu era uma menina de uns sete anos, grandes óculos, cabelo chanel, sem alguns dentes, tentando aprender a tocar violão. Se precisava comprar algo eu ia lá no Bertão. Na casa de cima morava a tia Cristina. Ali pra cima morava a Kátia e bem pertinho a Vanessa... Eu gostava de escrever. De tomar fanta e comer chocolate branco. Detestava feijão, era magrinha que só. Não me lembro direito o que sonhava, o que queria pra mim. Era ali o mundo, o mundo todo uma casinha apertada, um pai sonhador, uma mãe apaixonada e falante, duas irmãs pequenininhas. Eu detestava bonecas e gostava de parecer grande, queria entender o que os outros falavam. Um dia o pedreiro que trabalhava em casa morreu e eu demorei meses para entender. Um dia meu cachorro morreu e demoraram um tempão para me contar. A morte era um mistério, era coisa que ninguém me explicava. Um dia o vizinho morreu, o vizinho que tocava sanfona na varanda em frente. Eu fui ao velório e fiquei muito impressionada com aquelas flores todas sobre ele. Ninguém me falava sobre a morte. As coisas difíceis da vida não cabiam. Meu pai gostava de cachorro, era bravo, mas imenso, profundo, enchia o meu mundo de uma força sem igual. Minha mãe tinha uma amiga, a Lúcia. Era uma japonesa simpática que quando foi morar longe mandava cartão de natal todo ano. Meu pai tinha muitos amigos. Eles cantavam na garagem, faziam festa, enchiam a casa de alegria e música. O melhor amigo do meu pai chamava Sérgio, mas a gente chamava ele de Jesus. A música mais bonita do meu pai se chama Cachoeira... E foi a música que tocou no dia em que o Sérgio morreu, anos depois. Jesus era o amigo que meu pai mais amava e era também o que eu mais gostava. Perto dele meu pai ficava feliz, diferente. Eram amigos de anos e anos... Meu pai era muito alegre, gostava de festa, ficava dias sem dormir... Ele era o homem mais lindo do mundo. Parece que tudo ficava iluminado quando ele chegava. Ele tinha um coração enorme, me ensinava coisas sobre o amor ao próximo com atitudes... O que ele mais gostava nas pessoas era a simplicidade. Eu era apaixonada pelo meu pai com tanta força, pra mim não existia ninguém no mundo mais perfeito, mais lindo, mais inteligente, alegre, forte, grande, protetor...
Hoje me deu saudade do meu pai. Ouvindo essa música não há como não sentir saudade, é uma das músicas preferidas dele. Tem algumas músicas que lembram meu pai de um jeito tão intenso... Coisa que não acontece com nenhuma outra lembrança... Hoje eu tive saudade. Do meu pai, da casinha verde. Da minha mãe, das minhas irmãs pequenininhas. Hoje me deu saudade da minha bisavó, do meu bisavô. As coisas foram mudando tanto, tudo parece tão acelerado hoje em dia. Na casinha verde o tempo era parado, era um tempo lento, os anos vinham e não mudavam nada. Era ano novo, músicas de ano novo, eu me achonchegava no colo do meu pai, ficava até de manhã comemorando a chegada do novo ano...
Depois veio a casa nova, grande, cheia de novidades. Depois eu fui crescendo, conhecendo o mundo e começando a entender as pessoas, as coisas do mundo. Aos poucos fui entendendo o que as músicas diziam, sentindo o que as músicas diziam. Só hoje consigo entender o que é sentir saudade. Só hoje é que consigo entender a Cachoeira que meu pai cantava.
Quando eles se separaram eu tinha dezessete anos e já estava vindo morar em São Paulo. Somente há uns meses atrás é que pensei nisso. Não presenciei meu pai longe de casa. Até quando eu estava lá ele também estava. Saímos juntos. E acho que nunca mais voltaremos. Hoje ele tem o cantinho dele e eu tenho o meu. Passei anos fingindo que nem ficava triste com aquilo tudo. Que estava tudo bem, que eu entendia. Mas eu não entendia, eu não entendo, ainda dói. As coisas foram mudando tanto, hoje aquele tempo parece tão longe, longe...
Hoje eu estou com saudade do meu pai. Acho que um telefonema não basta. Acho que preciso encontrá-lo, deitar no seu colo, ouvi-lo contar sobre a sua vida, sobre seus sonhos, sobre a vida. Nunca conversamos sobre sentimentos, sobre as coisas que se passam por dentro. Mas nem é isso que eu queria, nem é isso que me faz falta. Tenho saudade dele. Tenho vontade de ficar deitadinha no seu colo para sempre, para todo o sempre.
Hoje eu estou com saudade do meu pai.
Obs: Escrevi esse texto há um tempinho atrás mas não quis colocar aqui... Nessa semana, aniversário da minha mãe, chega mensagem de celular. Meu pai mandando uma música que eu acho linda, que fala de amor, de amor que a gente não esquece, de amor eterno. Eu sentada na cozinha, cinco e pouco da manhã, hora de cantar parabéns porque a minha irmã vai trabalhar... Leio a mensagem e eu realmente não entendo. Os dois são tão diferentes... E meu pai sabe mesmo como tocar as pessoas. Engraçado que ela nem ligou muito. Só eu fiquei pensando no mundo, no amor, nas coisas da vida...
Obs 2: Respeitem minha variante lingüística. rsrs...
2 commenti:
Nossa, Camila.
Acho que esse foi o texto que mais me tocou!!!
Acho que é pelo momento, pela circunstância e pela importância que as pessoas e as coisas tomam quando pensamos em distância...
Só quero saber quem vai limpar minha cara de palhaça depois do choro...
Texto lindo demais. Já falei pessoalmente, né? É, então é isso...
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