martedì, giugno 03, 2008

Histórias de gravidez


vem brincar neste cordão
me dê a mão, me leve
pode entrar nesta ciranda
que a vida é tão breve


Minha mãe sempre gostava de me contar, quando eu era bem pequenininha (menorzinha do que ainda sou..rs), sobre quando engravidou de mim. Lembro da cena, era sempre dia de chuva, as gotas batiam no telhado, ora fortes, ora fraquinhas e minha mãe me contava histórias sobre o mundo, sobre sua infância, sobre as pessoas. Ela gostava de me contar, nesses dias, sobre a sua gravidez. E eu gostava de ouvir, sempre. Mesmo que fosse a mesma história, com as mesmas palavrinhas, sempre tive enorme paciência com histórias, sempre achei as histórias de mãe tão lindas quanto as histórias de livro, os contos de fadas, as fábulas...

Lembro até hoje quando ela me contou a história de Jesus, eu devia ter uns seis anos e ela estava cozinhando, sentei sobre a mesa e fiquei ouvindo, devia ser Páscoa ou outro feriado desses que até hoje não entendo direito. Ela me contou como os homens mataram Jesus; pra mim aquilo foi tão real que chorei e passei a noite inteira pensando na crueldade dos homens. Pra mim a história de Jesus não era nada de religião, não estava longe, estava perto, como as histórias que minha mãe contava do tempo que era criança. Lembro até hoje da sensação de angústia que senti pela triste história de Jesus.

Minha mãe foi sempre uma boa contadora de histórias ou eu sempre fui uma boa ouvinte e "acreditadora". Ela me diz que contava histórias pra mim desde que eu nasci. Ela não tinha ninguém para conversar, então, conversava comigo... Acho que por isso, alguns meses depois de nascer, eu desatei a falar e nunca mais parei.

Dentre todas as histórias, a da gravidez me fazia pensar mais. Minha mãe tem mania de comparar o período da gravidez com a personalidade da filha. E eu fui a primeira das três. E ela nem tinha casado e era mais nova do que eu hoje. Ela diz que quando estava grávida de mim sentia uma imensa paz em todos os lugares, que podia ir onde fosse, que via o mundo bonito, o mundo colorido, cheio de poesia, leve, muito leve. Que nada a abalava, que ela não temia nada, nem ninguém. Diz que foram os únicos nove meses que sentiu tudo isso junto. Que as coisas aconteciam, as mesmas coisas de sempre e ela olhava para tudo (tudo o que sempre via antes) e achava tudo meio bobo, tudo meio sem sentido, as pessoas indo e vindo, o mundo girando e ela achando todo mundo bobo, tudo muito simples, tudo clarinho, clarinho. Conta que se sentia forte, protegida, que percebia a dimensão das coisas, a relação entre os acontecimentos. Diz que se sentia em paz.

Então ela me colocava sobre a mesa e continuava a contar suas histórias de gravidez. De quando ela estava grávida de mim. E dizia que eu era exatamente aquilo que ela foi enquanto me esperava nascer: uma pessoa bonita, que sabia ver a beleza das coisas, que compreendia outras dimensões do mundo, uma pessoa forte, que não havia nada no mundo que me abalasse, uma pessoa cheia de poesia, de imaginação. E que possuia um imenso poder de transformar as coisas com o pensamento. E então eu me sentia forte, me sentia linda, me sentia grande, me sentia cheia de poesia. E ficava olhando os olhos dela, as mãos cozinhando, os cabelos loiros desalinhados...

Gosto das histórias de gravidez da minha mãe, do olhar dela sobre mim. Em algumas coisas ela têm razão. Gosta de me mostrar o poder que meus pensamentos têm, o poder que a minha imaginação exerce sobre mim. Sempre vence quando teima em me mostrar o que sei construir. Às vezes briga comigo e me deixa doida da vida. Mas dia ou outro me conta (ainda hoje) as histórias da gravidez. E, enquanto ela vai falando da leveza, da beleza, do quanto ela se sentiu levinha e feliz, eu vou me sentindo leve, feliz, alegrinha, vou me transformando novamente nessa pessoa que talvez eu tenha sido um dia, talvez não.

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Às vezes caminhando pelas ruas, a alegria me inunda. Ontem foi um dia assim, desci longe de casa, parei para comer um doce árabe. Voltei pra casa devagarinho, fazia frio, mas havia um sol que aquecia o rosto. Caminhei por ruas tão próximas de casa, mas desconhecidas. Conheci uma nova livraria, pequenina, aconchegante. Vim caminhando devagar, leve, alegrinha, olhando o mundo e tendo uma súbita compreensão do espírito das coisas.

Alguns dias me sinto como na gravidez de minha mãe: suave, forte e cheia de poesia. Nesses dias nada me abala, o mundo é todo sentido, todo significado. Nesses dias compreendo as pessoas, consigo perdoá-las, me compreendo, consigo me perdoar. Nesses dias olho para trás e todas as minhas atitudes me parecem desfiguradas, as atitudes dos outros também, parece que todos somos bobos, todos somos pequenos. E cegos. Mas logo esses dias passam e eu volto para o cotidiano das coisas banais.

... Até chegar um outro dia mágico, em que caminho devagar pelas ruas, compreendo o tempo, as pessoas, seus pensamentos, sentimentos, impressões, seus mundos.

Dias raros, mas que fazem toda a diferença.

6 commenti:

Gil ha detto...

Que linda historinha de mãe e filha... Que linda constatação de que a vida é poesia só quando sabemos olhá-la com olhos de contemplação...

Anonimo ha detto...

Adorei esse seu texto! Saudades!

Anonimo ha detto...

Minha mãe nunca me contou histórias de gravidez, nem de quando estava grávida de mim nem dos meus irmãos. Sei que de mim foi por acaso, aqueles descuidos que eu teimava em jogar na cara dela quando eu era adolescente dizendo que eu não pedi pra nasecer. Meu irmão (o mais novo) me contou esses dias que também disse isso a ela uma vez. Ela respondeu (bem brava, eu imagino)que "não pediu mas tá gostoso aqui fora né?!" Não sabemos nossas histórias de gravidez.
Fiquei sabendo, na véspera do último Natal que nasci de fórcepis. Meu pai tirando sarro, dizendo que é por isso eu sou "meio assim, desregulada..." Rimos todos à mesa do restaurante.

Mas eu não sei muito sobre muitas histórias da minha família. Às vezes isso me deixa triste. Logo eu, que tanto gosto de história, do passado, de imaginar as ruas sem fios elétricos, com menos gente, aqueles vestidos compridos que deixavam as moças mais rechonchudas... às vezes fico triste por não saber... Sei pedaços, fragmentos muito soltos, que não me permitem montar uma história coerente.
Uma parte bonita de uma meia-história de gravidez é que meu pai, antes mesmo da gravidez acidental da minha mãe, chamava todas as minhas primas de Mariana. Foi ele quem me escolheu o nome. E depois que nasci ele me chamava de Prins. Hoje em dia rarearam as vezes que ele assim me chama, mas quando páro pra pensar no quão singelo é ele ainda me achar uma Princesa fico tocada de ternura.

Eu não sei histórias de gravidez nem de família, mas acho também que não saberia contá-las assim docemente como fizeste com a tua...
Mas sua mãe tem bastante razão na poesia que te colocou e na tagarela que te fez!

Te amo,
um beijo carinhoso,
Mari

Anonimo ha detto...

sim, vc é suave, forte e cheia de poesia!
e eu amo muito vccc!

beijos da prima Mari

Camila ha detto...

Que comentários mais deliciosos... Hummm... Amo todos bem grandão!

Mari, princesa... Adorei sua historinha sobre sua mãe, pai. Como assim não tem história? Claro que tem... Vou te chamar de princesa... Você fica me chamando de pr... rsrs...

Surpresa ter a prima Mari por aqui. Que linda!!!

Beijos em todas e todos.

Cá.

Débora Kikuti - artista de cara pro Sol ha detto...

Querida!

Eu tive a honra de escutar as histórias de gravidez...e são lindas!!!

Você tem toda razão: sua mãe é uma grande contadora de histórias, que precisa ser escutada por mais gente! Porque dá uma pena saber que alguém deixou de escutar uma história bonita como essa...

Sua mãe tem toda razão: você é pura história!!! Todos os elementos, que ela já via na gravidez: a força, a sensibilidade, o poder de transformar, a beleza, a tolerância, o otimismo, o perdão, a imaginação, a dualidade, a verdade, ócio (bendito!) e a beleza, de novo!

Que felicidade poder compartilhar histórias tão bonitas e tão poderosas!!!

Evoé todas nós possamos nos encontrar mais vezes, pra se escutar, pra se ver, pra se sentir...nem sempre com as concordâncias gramaticais, mas com toda a emoção que a gente carrega!!!

Gratidão!
Grande beijo.