giovedì, giugno 12, 2008

Pilulazinhas de cotidiano - ou a falta de praticidade




Cotidiano 1
Essa é para a Mari:

(Sala de aula, hoje)

Thiago, aluno do 8º ano:

- Professora, feliz dia dos namorados!

Eu olho e faço uma careta.

- Professora, você fez a mesma cara da professora Mariana!

Todos na sala caem na risada. E eu também.

(parecidas e diferentes essas duas meninas; um tanto grande parecidas).

Cotidiano 2

O nosso lixo é mesmo um perigo, mostra muito do que somos, o que comemos, o que fazemos, até que remédio andamos tomando. Se tivemos febre ou outras cositas, em que banco temos conta, se gostamos de escrever, se somos organizados (ou não.. rsrs). O lixo é perigosíssimo. Pensei nisso hoje, jogando coisas. Aliás como eu acumulo papéis! É de cair o queixo a quantidade de folhas, jornais, revistas, bilhetes, ingressos, cartas, cartazes, contas, folhetos, cartões etc. etc. que tem aqui.

Mulheres de peixes não podem arrumar as coisas. Nunca terminam. Toda a graça da mulher de peixes se perde no meio de papéis. O mundo prático não faz nenhum sentido. O mundo não é prático, aliás. O mundo é confuso e a mulher de peixes sonha, encontra uma carta, encontra um bilhete, encontra um rascunho. E escreve, caminha na ponta dos pés pela casa, lendo em voz alta um novo-velho poema que acaba de ser resgatado do pó das coisas guardadas.

E arrumar o guarda-roupa? Trabalho para uma ariana, leonina, virginiana. Não é um trabalho para uma pisciana. Para uma capricorniana, libriana, taurina, geminiana. Talvez para uma aquariana. Uma pisciana brinca de experimentar roupas, sonha, volta, decide ficar com aquelas mil coisas no armário, coisas que ela, decididamente, não sabe combinar, nem usar.

Lembro das brigas em casa, quando cismava de arrumar o guarda-roupa. Nunca terminava. No meio da multidão de livros, roupas, cadernos, sapatos, caixinhas, cachecóis, alfinetes, cartas... No meio disso tudo, eu sempre parava. Encantada. O dia ia caminhando e as coisas jogadas sobre a cama. Minha mãe enlouquecia e chegava até a me proibir de arrumar as coisas - e olha que eu estava seguindo uma ordem dela ao começar a arrumar. Quando arrumava o quarto sempre achava algo perdido, mas sempre perdia as coisas mais necessárias e lá ia eu pela multidão de coisas, procurando e perdendo, encontrando e procurando as minhas coisas de uso cotidiano.

Manter o mundo completamente organizado não é coisa pra mim, eu desisto, bandeira branca, amor. Consigo até um limite, depois disso não sei, não posso, não consigo. Às vezes exagero na dessarrumação e tenho que ir botando as coisas em ordem. Adoro abrir a bolsa, jogar milhares de papéis no lixo, limpar a carteira. Adoro mas dura pouco... Aliás, mesmo na limpeza, alguns bilhetes continuam na carteira, alguns papeizinhos com telefones, alguma carta, algum cartãozinho. Sempre. Às vezes é um trechinho de poesia que li por aí, às vezes é um trechinho que comecei a escrever. Ainda sigo aquela coisa da professora Miriam de anotar as coisas como vêm à cabeça, mesmo que depois não possa encontrá-las, mesmo que depois elas não façam mais sentido. Adoro encontrar minhas anotações num dia qualquer. De repente é outono e talvez o silêncio, talvez a música, talvez o tempo... De repente a anotação toma um sentido maior, uma lembrança, um cheiro, o dia inteiro (passado) entrando no dia todo presente. Adoro minha caixinha de papéis de antigamente, cartas do Juninho, canções de amor, agendas velhas, trechos de contos, falas de filmes, a minha mania adolescente de ir anotando tudo, como se pudesse prender o mundo em palavras, como se pudesse registrar o mar de coisas que passa pela minha cabeça... Como se a poesia fosse "registrável", como se fosse palpável, como se não fosse efêmera e infinitamente pessoal...

Como este texto doido, começado ontem (12), terminado hoje (13). Texto que promete e não vai, que não conta, não chega. Texto não prático, inútil. Como essa menina que escreve. Toda sem praticidade, toda complicada, que demoraria meses para organizar uma sala de aula com alunos de séries diferentes para evitar a cola, como sugerem os coordenadores. Ainda bem que recebe ajuda, senão estaria perdida.

(Cola? Para que evitar a cola? Coisas que ela não entende. Os alunos se quiserem ler que leiam, se não quiserem não leiam. Não é mais simples assim? E mais justo?)

Texto não prático, menina não prática. Quisera eu que o mundo fosse mais fácil de lidar, que eu tivesse os pés no chão, ao invés de manter (ainda) os pés na água, como bem cantou o Juliano um dia, nos meus 17 anos. Os anos passaram e meus pés andam pelos ares, pelas águas, pelos caminhos de vento, de nuvem, de sonhos. Quisera eu poder pisar o chão.

Vou tentando daqui, você tentando daí. O mundo é complicado demais para um ser pisciano.

(ou para todos?)



Ps. Lembrei do textinho do Veríssimo (que eu li quando estava no 6º ano e adoro desde então):


"Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?"

3 commenti:

Anonimo ha detto...

Comentários atrasados: esses alunos... se bem que não seria difúcil associar ossa cra depois de um comentário tipo o do Thiago..rs!

Sabia que meu ascendente é peixes? Isso talvez explique algumas coisas...

beijo

Meio assim... ha detto...

Pessoa, pessoa... como eu me identifiquei com esse texto!!!! Você nem imagina o quanto!
Isso tudo faz um sentido p/ mim!!!!
E o texto do Veríssimo, esse sim me remete a lembranças inesquecíveis. Eu o represente no teatro, em 2000 e foi um sucesso. Aliás, foi um ano especial p/ mim...

E agora vieram todas as lembranças na minha mente.

Só me resta agradecê-la por essa deliciosa leitura.

Camila ha detto...

Uma com ascendente em peixes, a outra toda peixinha (não é por isso que se reconheceu, Deinha?... ehehhehe).

Beijos nas duas. Tão bom saber que tenho leitoras assim... tão lindas.