
A Revolução dos Cravos foi a coisa mais bonita. A música do Chico é linda e fala com tanta delicadeza... Às vezes penso: deveria me enveredear pelos caminhos da Literatura Portuguesa. Quem passou pelo curso de Letras e estudou Pessoa e estudou Camões e estudou Cesário Verde, Mário de Sá Carneiro, Herberto Helder e tantos outros... Quem conhece Sophia, quem leu Saramago... Portugal é uma poesia só. Uma poesia antiga, uma poesia nova, sempre num mesmo tempo, num tempo distante, mesmo que próximo da gente. A literatura portuguesa é de uma beleza inexplicável. Um já era, um mar, uma saudade, um desejo.
Literatura é identidade de um povo. Literatura é mesmo essencial, assim como o ar. Sem literatura, seja ela oral ou escrita, um povo não vive, não sobrevive. Literatura não é apenas crítica. É crítica também. Mas vai além. É a arte da palavra, a arte de falar, por palavrinhas, o indizível.
Primeira versão da música (que foi censurada):
TANTO MAR
Sei que estás em festa, pá
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente alguma flor
No teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera pá
Cá estou doente
Manda urgentemente algum cheirinho
De alecrim
http://www.youtube.com/watch?v=hdvheuHhF2U&feature=related
TANTO MAR
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim
Ainda guardo renitente um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim
http://www.youtube.com/watch?v=PsJpeR2K-is
Acho que nem preciso dizer que o Chico tem a arte de palavrear, de musicar. Que suas músicas falam do momento e falam da vida, são preciosas. Todo mundo sabe, né? As duas versões de Tanto Mar são lindas. Na primeira, a festa está ocorrendo e ele, aqui no Brasil, em plena ditatura militar, fala do desejo de estar no além mar, festejando, ou que a festa - e a liberdade - entrasse aqui, chegasse até as nossas ruas. E fala que queria estar lá com o povo "E colher pessoalmente alguma flor no teu jardim".
A censura veio. E ele rebateu com mais poesia. A segunda música fala tanto quanto (os caras eram uns insensíveis... rs), a festa já está no passado, já foi, e foi bonita, e ele fala que certamente "Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim", que a esperança por melhores dias foi plantada.
Quando eu ouvia essa música era pequena e nada entendia de nada, mas sabia muito, pois tinha a sensibilidade, como toda criança, afloradíssima. Ouvia a segunda versão. E lembro de achar linda a parte que diz que certamente havia alguma semente esquecida, ficava imaginando a sementinha, que podia virar flor qualquer dia. Depois eu cresci e vi que a canção também fala de amor, além de falar de revolução, de liberdade. É uma canção (são duas na verdade) sobre o amor, sobre a vida, sobre a liberdade. Sobre aqueles momentinhos de utopia, na primeira versão, sobre a fé e a esperança que seguem alimentadas, na segunda. Pra mim é uma música de arrepiar os sentidos todos. E fala de Portugal, do jeito de ser, de falar, de sentir de Portugal. Me lembra a fimerza e a doçura dos livros portugueses, da poesia portuguesa. É o tipo de canção curta, que quando acaba já deixa saudades. Espalha um gosto bom por onde passa.
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
1 commento:
Camila!
Assisti um filme com a Mari e me lembrei de você (e, de certa forma, tem a ver tb com a Revolução dos Cravos). Chama-se "O Labirinto do Fauno".
Bjo!
Iberê
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