sabato, luglio 05, 2008

Tanto mar, tanto mar




A Revolução dos Cravos foi a coisa mais bonita. A música do Chico é linda e fala com tanta delicadeza... Às vezes penso: deveria me enveredear pelos caminhos da Literatura Portuguesa. Quem passou pelo curso de Letras e estudou Pessoa e estudou Camões e estudou Cesário Verde, Mário de Sá Carneiro, Herberto Helder e tantos outros... Quem conhece Sophia, quem leu Saramago... Portugal é uma poesia só. Uma poesia antiga, uma poesia nova, sempre num mesmo tempo, num tempo distante, mesmo que próximo da gente. A literatura portuguesa é de uma beleza inexplicável. Um já era, um mar, uma saudade, um desejo.

Literatura é identidade de um povo. Literatura é mesmo essencial, assim como o ar. Sem literatura, seja ela oral ou escrita, um povo não vive, não sobrevive. Literatura não é apenas crítica. É crítica também. Mas vai além. É a arte da palavra, a arte de falar, por palavrinhas, o indizível.

Primeira versão da música (que foi censurada):

TANTO MAR

Sei que estás em festa, pá

Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente alguma flor

No teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera pá

Cá estou doente

Manda urgentemente algum cheirinho
De alecrim

http://www.youtube.com/watch?v=hdvheuHhF2U&feature=related

TANTO MAR

Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente
Ainda guardo renitente um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar

Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim

http://www.youtube.com/watch?v=PsJpeR2K-is

Acho que nem preciso dizer que o Chico tem a arte de palavrear, de musicar. Que suas músicas falam do momento e falam da vida, são preciosas. Todo mundo sabe, né? As duas versões de Tanto Mar são lindas. Na primeira, a festa está ocorrendo e ele, aqui no Brasil, em plena ditatura militar, fala do desejo de estar no além mar, festejando, ou que a festa - e a liberdade - entrasse aqui, chegasse até as nossas ruas. E fala que queria estar lá com o povo "E colher pessoalmente alguma flor no teu jardim".
A censura veio. E ele rebateu com mais poesia. A segunda música fala tanto quanto (os caras eram uns insensíveis... rs), a festa já está no passado, já foi, e foi bonita, e ele fala que certamente "Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim", que a esperança por melhores dias foi plantada.
Quando eu ouvia essa música era pequena e nada entendia de nada, mas sabia muito, pois tinha a sensibilidade, como toda criança, afloradíssima. Ouvia a segunda versão. E lembro de achar linda a parte que diz que certamente havia alguma semente esquecida, ficava imaginando a sementinha, que podia virar flor qualquer dia. Depois eu cresci e vi que a canção também fala de amor, além de falar de revolução, de liberdade. É uma canção (são duas na verdade) sobre o amor, sobre a vida, sobre a liberdade. Sobre aqueles momentinhos de utopia, na primeira versão, sobre a fé e a esperança que seguem alimentadas, na segunda. Pra mim é uma música de arrepiar os sentidos todos. E fala de Portugal, do jeito de ser, de falar, de sentir de Portugal. Me lembra a fimerza e a doçura dos livros portugueses, da poesia portuguesa. É o tipo de canção curta, que quando acaba já deixa saudades. Espalha um gosto bom por onde passa.

Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

1 commento:

Anonimo ha detto...

Camila!
Assisti um filme com a Mari e me lembrei de você (e, de certa forma, tem a ver tb com a Revolução dos Cravos). Chama-se "O Labirinto do Fauno".
Bjo!
Iberê