
Texto gigantão e confuuuuuso.
Pra quem andava com saudades dos textos imensos e atrapalhados,
dos meus sentimentos contados com excesso de palavras.
Pra quem andava com saudades dos textos imensos e atrapalhados,
dos meus sentimentos contados com excesso de palavras.
Acordei cedo. Telefonema bonito. Minha mãe dizendo que eu tenho que parar com essa história de ir pra Piedade e ficar lá apenas 24 horas corridas... Que ela tem saudades.
Ela tem imensa razão... Das últimas vezes que fui pra lá, levei uma porção de trabalho. Histórias de alunos para corrigir, coisas para preparar...
Ontem fiquei tão emputecida com tudo, o mundo tão complicado.. Ainda bem que existem os alunos para aquecer a alma da gente. Não sei o que seria de mim sem os meus pequenos, sem seus olhares, sem seus textos, seus sorrisos, expectativas, histórias...
Gosto muito de todos, tenho um terceiro ano do médio que é a coisa mais delicada do mundo, mas confesso que os pequenos ainda me emocionam mais. Temos esse ano uma sala de sexto ano que é a coisa mais preciosa que já vi. E eles salvaram meu dia ontem, a lembrança das palavrinhas, dos encatamentos, daquela poesia viva que eles são. A Patrícia e seus olhinhos azuis, suas bochechas rosadinhas, rindo, contando suas historinhas de mundo. A Raíssa e seu cabelão comprido, seu jeitinho doce de amar os amigos, de escrever, de me contar suas coisinhas. A Eduarda e suas piadinhas, seu entusiasmo, sua alegria. A Bia e sua vozinha miúda. O Otávio e seus cabelos desalinhados, sua sensibilidade aguda, o Vítor e sua percepção do mundo, o Bruno e seus gritinhos, o Igor e seus carrinhos, o Gabriel e sua euforia de todos os dias. A Yolana e sua beleza infinita, o Jorge e sua carência, o Vinícius e sua delicadeza, seu jeitinho de parecer amigo de anos, o Pedro Augusto e sua meninice, tão bonita, tão pura. A Maná e a Manê (como a Mariana e Mariane são delicadamente chamadas pela turma). A Jade. A Gabriela. O Pedro Vítor e seu coração, seu abraço, sua carta.... A Larissa! A Larissa e aquilo que não sei dizer de tão bonito que é, aquele olhar, aquele carinho nos olhos... O Miguel e sua preguiça de mundo, o Léo e seu medo do mundo...
Meu 6º ano é uma preciosidade sem tamanho. Inteligentes, sensíveis, doces. Entusiasmados. Carinhosos. Envolvidos.
Ontem lemos um texto da Clarice Lispector, em que ela conta de uma macaquinha que teve e que morreu. Conta da experiência que é ter um animal de estimação, tanto pra ela, quanto para os filhos. Conta do filho que diz: Mãe, você parece a Lisette (nome da macaquinha dela)! E ela que responde: Eu também gosto de você, filho.
E de repente a sala em euforia, eu organizando as milhões de histórias que eles tinham pra contar. Histórias de bichinhos, de animaizinhos, de companhias, de perdas. Histórias engraçadas, leves, umas tristes, umas imensas que não acabavam mais... Todos, todos tinham algo pra contar. Uma experiência, uma morte, a graça do seu cachorrinho, do seu gatinho, do seu bichinho. Os motivos dele ser diferente, mais bravo, mais engraçado, mais esquisito do que os outros...
Alguém me diz que conteúdos 'importantes' (as gramáticas do mundo, que eu tento, nessa sala, passar com delicadeza...) valem mais do que essas histórias, do que essas narrativas, do que esses momentos deles construírem significados, dividirem seus mundos, seus olhares, seus sentimentos e impressões? O que vale mais do que o trabalho que fizeram nesse trimestre que passou, da história da família, dos bisavós vindos de longe, dos costumes, da avó que conheceu o avô no baile, do anel, dos desencontros, das ruas de São Paulo há cinquenta anos, das famílias que vieram morar na Freguesia e lá encontraram seu lugar... Da história deles mesmos, de quando chegaram a esse mundo, de como foram recepcionados (muito bem e em alguns casos muito mal, como pude perceber pelas histórias). O que vale mais do que isso? Podem tentar me provar que existem coisas mais importantes, mas duvido que alguém consiga...
Meu 6º ano é um mundo encantado, tão encantado quanto a casa da minha vó. Entrar no 6º ano, mesmo quando eu chamo a atenção deles, mesmo quando ficam falantes em demasia, é sempre um transbordamento.
Você pede um trabalho e eles vão além. Uma visita a um asilo, uma entrevista com idosos, para construir uma história como a que lemos em sala, do seu Ariosto. Você pede e eles se encantam, fazem amizades com os velhinhos, tiram fotos, enchem de abraços, riem, brincam, se entristecem com as histórias, mas logo se alegram, acham bonito, engraçado...
Você pede uma descrição da sala e sai tanta poesia no papel que dá vontade de guardar todas as palavrinhas. Eles se encantam. Com as tarefas do livro, os exercícios de gramática, também extrapolam, vão além. Mas nos textos eles viajam e deixam essa professora aqui com os olhos flutando no espaço. Não, não é a primeira vez que isso acontece, as aulas sempre são assim em todas as séries, há sempre momentos mágicos para contar. Mas nesse 6º ano algo acontece. É uma unidade, uma união, é um ritmo que encontraram de ir conhecendo o mundo, compartilhando essa experiência que é viver.
Ontem, quase terminando a aula, depois das milhões de histórias que contaram, um aluno vira pra mim e diz: Professora, e você... Você tem um animal de estimação? Lembro cá com meus botões que andei pensando nisso por esses tempos. Eu que sou uma grande medrosa, vivo com medo de bichinhos... Eu que amei infinitamente uma cachorra brava que tive. Se chamava Bambina, mordia os outros, era impossível. Mas comigo era docinha, docinha. Eu que tive um cachorrinho preto, vira-lata, que se chamava Pingo Tilingo Tardelli da Silva... rsrs... E que morreu atropelado e ninguém teve coragem de me contar, me diziam que ele tinha ido embora, e eu não entendia porque meu cachorro teria me abandonado assim, sem dizer tchau. Eu que nada entendia da morte. Isso tudo eu não contei aos alunos... Disse apenas que andava pensando mesmo em ter um bichinho... Tudo culpa da Mel, minha irmã, que levou pra casa uma gatinha, a coisa mais linda que já vi, e que me deixou apaixonada. Justo eu que sempre tive pavor de gatos, medo mesmo... Mas a gatinha da Mel e sua fragilidade e seu olhar e seu carinho me deixou encantada... Nesse fim de semana a Aline disse que acham que não vão poder ficar com a gatinha, porque a Mel tem asma e já está fazendo mal. Eu tinha pensado nisso, tinha falado até, mas ninguém me ouviu, todo mundo apaixonado pela gata em casa. E então cogitamos a possibilidade da gatinha vir morar aqui em casa comigo...
Tudo isso veio à minha cabeça, quando eles me perguntaram se eu tinha um animalzinho também... Digo, então, que andei pensando, mas que meu apartamento é deveras pequeno... O sinal bate. Alguns vêm falar comigo, me dando sugestões, ter um cãozinho pequeno, um gatinho, um ratinho, um peixe...
Então é exatamente isso. Meus alunos do 6º ano não querem saber se eu namoro, se beijo na boca, se o amigo que eu levei para a exposição do colégio é meu namorado, se eu faço sexo, se moro sozinha ou com o namorado etc. etc. etc. Dúvidas válidas, é claro. Coisas de aluno, de curiosidade... Mas meus aluninhos do 6º ano querem saber se eu tenho um animal de estimação. Se eu tenho uma melhor amiga. Se eu gosto de desenhar. Com o que eu brincava quando era pequena. O que penso da amizade. Se eu tenho avós, se tenho irmãos...
Minha turminha do sexto ano me enche de cores, me salva do mundo. Me faz acreditar de novo no amor, na amizade, na delicadeza das coisas. Me alimenta. Me ensina. Me abraça, me acolhe, aconchega meu coração.
Hoje acordei com uma saudade imensa de Piedade, falando com minha mãe pelo telefone. Acordei com saudade das ruas de Piedade, das festas de Piedade, do Cônego, escola onde estudei, dos amigos, das madrugadas frias, dos chocolates quentes, das conversas de bar. Logo chega 20 de maio e eu não estarei em Piedade. Show do Renato Teixeira por lá. E eu estarei aqui. Vou para as festinhas do fim de semana, mas não é a mesma coisa. Perco o desfile...
Hoje acordei saudosa de Piedade. Acordei e reli o texto que fiz no 20 de maio do ano passado. Achei mais bonito do que na época, acho que é a saudade. Engraçado como datas me tocam. Para os outros, será apenas uma quarta-feira. Para mim, para todos os piedadenses que amam a cidade (e muitos que moram longe) será um dia especial, bonito, dia de chorar saudades, dia de rir lembranças, dia de mandar, com todo o coração, amor, muito amor para a nossa cidade.
Hoje estou com a sensibilidade aflorada. Com saudade de mãe, de abraço, da casa da vó, das ruas de Piedade. Cá em São Paulo as coisas andam complicadas às vezes. É gente que gosta de complicar o que é de simplificar. É gente difícil de lidar, são exigências que não fazem sentido, é meu rosto queimando de vermelho por não conseguir compreender o incompreensível, nem saber ficar quieta quando acho algo injusto. Tenho umas manias de me defender, de defender os outros, de não saber ficar calada quando vejo algo errado. A Ju Fidelis me disse que é o que há de mais bonito em mim. Mas sei não... Queria ficar com as bochechas menos vermelhas quando estou brava, queria saber falar mais baixo, queria ficar menos chateada...
O mundo anda tão complicado que hoje eu quero fazer tudo por você... Tão complicado que sinto uma saudade imensa de Piedade. Que eu leio e releio o texto que fala da minha cidade.
Cá em São Paulo, ainda bem, eu tenho uma turminha de 6º ano, que diz ficar bem feliz quando a aula é a minha. Cercada de um monte de serzinhos de 11 anos, o meu mundo se salva. E tudo vale a pena. E eu acredito nos seres humanos e sonho com seres humanos menos complicados, menos 'complicadores', mais humanos, mais voltados para a poesia do mundo, menos preocupados com números, vestibulares, competição, complicação...
Cá em São Paulo, ontem à tarde, eu fiquei com as bochechas vermelhas de brava. Respirei fundo e fui encontrar meus amigos velhinhos, meus companheiros de dança, de chorinho e de encantamento.
Pensei que você não viria, diz o Gil, nome de um doce senhorzinho com quem danço (olha que engraçado.. é o nome do meu melhor amigo também.. ehehe). Na verdade eu estava lá, ele que não enxerga direito e só me viu quando fui falar com ele.. ehhehee...
Claro que não iria faltar, Gil. Precisava muito estar aqui hoje.
Isso mesmo, moça Camila, pode faltar em tudo, menos nas noites de quarta-feira.
Com o coração aconchegado de seres de 11 anos e senhorzinhos de mais de 70 (as duas pontas doces da vida), eu me defendo do mundo, das complicações inúteis, do medo, das vertigens e vou com a alma muito aquecida continuando...
Só me falta um gostinho de Piedade...
Ps. 1 - o textinho que fala de Piedade e que eu reli hoje umas duas vezes para me aquecer, está aqui, é só ir ao post do dia 20 de maio:
http://brincardeliberdade.blogspot.com/2008_05_01_archive.html
Ps. 2 - A foto é de Piedade... Ai, ai.
5 commenti:
eis a vida!
Cá sentimentos confusos do mundo, querendo ficar aqui e acolá ao mesmo tempo, eu tb passo a sentir isso,ás vezes ou com frequência...
mais é isso aí as crianças nos dão mais esperanças pra gente seguir em frente.
ps: vou registar pedacinhos dos desfiles prs vc ver hehe
baci
Bochechas rosadas de nervoso, vergonha ou felicidade em pele branquinha pisciana? Nada em comum, não é mesmo, pessoa?
Queria ter esse sentimento com crianças. Queria conseguir enxergá-las com os mesmos olhos, mas acho que alguma coisa em mim precisa de conserto.
São Paulo? Amo São Paulo. Tenho uma relação de amor e medo, mas não me vejo livre dela. E isso se acentua daqui.
Tanta saudade, de tanto, de tudo... ai, ai.
Ah, tão bonito nosso 6º ano! Quando entro lá também sinto uma ternura muito grande.Tive que engolir as lágrimas quando comentei e agradeci aqueles trabalhos tão bonitos, cheios de carinho. Pensando na doçura deles sinto uma saudade antecipada do meu 9º ano que vai emobra...
Bom te reler.Saudade...
Amor,
Mari
ai, ai... quantos comentários bonitos...
amo as três queridas.
muitos beijos.
ps. ainda bem que existem pessoinhas como vcs nesse mundo... pessoas que fazem as coisas terem sentido. :)
Menina!!
só o que dá pra dizer!
gostei do texto dos aluninhos!!
beijo.
Erica.
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