
Eu não entendo
Eu estou rouca, bem rouca e chorando. Acordei bem, com a voz boa. De repente, tudo deu errado. Resolveram me tratar muito mal, coisa que me agride muito. Tudo deu errado com as novas mudanças. Tudo errado. Parece piada de mau gosto. A hora que sentei para medir as consequências disso tudo, a grana feia que vou perder nessa brincadeira, o tempo em locomoção, o desgaste físico, os projetos adiados, viagens adiadas... Entrei no trem chorando, aos prantos, como há muito não fazia. Odeio diretorias de ensino. Odeio. Odeio gente desorganizada, gente desonesta. Odeio. Encontrei com o Gil para espairecer. Conversamos, melhorei.
Cheguei em casa ainda triste, chateada. Não queria, por nada, perder uma certa turma que eu gosto tanto, mas os horários estão complicados, as distâncias complicadas. Choro um tanto mais. Quero a minha mãe.
Sento para ler e-mails e abro um e-mail de uma querida amiga, que está passando por uma das piores situações que alguém poderia passar... A perda da irmã. A irmã, que tem menos de 30 anos e duas filhas (uma de apenas um mês) está morrendo. Até me arde falar isso.
Abro o e-mail e vejo suas palavras, um e-mail grande, escrito com letras cor-de-rosa. Grande e sensível. Uns dos mais bonitos que já vi. Mas tão triste, tão triste. A amiga conta o cotidiano desses dias de dor. Ontem mandei uma mensagem de celular, eu não sabia o que dizer. Estava planejando uma visita, um telefonema, estava colhendo palavras. Não esperava essa força e sensibilidade toda da amiga, que sempre foi mesmo muito forte e sensível, não esperava um e-mail assim, esse coração aberto para os amigos, limpo, doendo. Ela escreve e narra a dor, os acontecimentos... Conta das sobrinhas, da maiorzinha, da recém-nascida...
De repente me sinto uma estúpida. Eu chorei tanto por causa de umas confusões de trabalho, por causa de umas grosserias. A amiga, longe, sofre muito mais, sofre desse sentimento que a gente não sabe nem o que dizer, nem o que fazer.
Eu não entendo a morte. Ninguém entende.
Eu gostaria de arrancar do coração da amiga essa dor. Eu tento imaginar e me desespero. Que angústia é essa de perder uma irmã? De ver as sobrinhas pequenas... O cunhado... De acompanhar a dor que o pai dela sente nesse momento? Que dor mais sem tamanho é essa, meu Deus? Que cura tem essa dor? Pra onde a gente olha, onde a gente vai, pra quem pergunta, como faz para passar? É uma dor infinita essa que atinge a minha amiga. E eu choro sozinha por ela. Choro o e-mail, choro as conversas, choro o jeito dela de ser sempre a mesma menina doce, a sua paixão por letras. Choro o caminho de florzinhas amarelas da USP, na primavera. Caminho que sempre me lembra essa menina. Choro nosso curso de teatro, nossos encontros esporádicos e o imenso amor que a gente sente. Choro a última vez que nos vimos (em dezembro). Procuro palavras para a amiga e não encontro. Procuro alguma coisa bonita. Procuro escrever um texto cheio de ternura e não sei, não consigo.
Me resta chorar com ela, rezar por ela. Me resta escrever dizendo o meu amor, o meu carinho, a minha vontade de protegê-la desse mundo, dessa dor, dessa ausência.
Há muito tempo não me sentia tão estúpida. Chorei à tarde, chorei muito, coisas que se resolvem com o tempo, coisas que vão se acertar dia ou outro, coisas que vão passar. Abro o e-mail e encontro essas palavras tão desoladas, essa narração que parece literatura, não parece real. Como é que a gente convive com um absurdo desses? Como lidar com o absurdo?
Difícil entender a morte. Principalmente a morte assim, no meio da vida. A morte que separa a mãe das filhas, uma irmã da outra, o pai idoso da filha de menos de 30 anos, o marido da esposa. Difícil entender a morte de uma menina.
E eu ainda rezo e fico tentando encontrar uma salvação, alguma mudança. Acredito que o coração da amiga esteja assim também, como ela mesma diz... Esperando um milagre. Um Deus. Uma mudança. Esperando que tudo se desfaça e volte. Ainda espero, em silêncio, que os médicos estejam muito bem enganados. E que ainda haja vida.
Como é que a gente entende a morte de uma menina?
Nessas horas, com todas as minhas forças, eu quero acreditar naquele mundo que meus avós me ensinaram. Acreditar que existe outra vida, maior, sem fim. Acreditar que há um sentido, que há explicações, que há Deus, que há reencontros. Como é que a gente sobrevive sem acreditar?
Como entender a morte de uma menina?
Que remédio no mundo cura essa dor?
A vida é tão frágil.
7 commenti:
a morte veio... eu tinha escrito esse texto, mas não tinha publicado. hoje resolvo publicar. hoje, 31 de maio, é dia de enterro, de tentar ajudar a amiga nesse momento tão doloroso... não consegui com palavras dizer o que sinto, nem o que gostaria. quando as coisas são mto tristes as palavras desaparecem. quis deixar o texto aqui para tentar dividir com as pessoas queridas esse sentimento, essa minha dificuldade de lidar com um absurdo sem tamanho.
Cá!
Não entendemos!
:)
Não entenderam??? A irmã de uma amiga morreu e eu fiquei mto triste. Foi isso. Tinha escrito essas palavrinhas quando ainda parecia haver uma mínima chance de vida...
Cá eu entendi rsrs
Foi por isso olhe
vc diz :
Eu não entendo a morte. Ninguém entende.
Ai digo , não entendemos!
Cá é muito triste essas coisas, deixa a gente sem saber que fazer , falar, mais é essa vida!
Bjo Grande! :)
entendi agora...
é, é isso...
bjo grande pra vc tb!
Fiquei mal... sem saber o que dizer. Teu texto veio junto com a notícia do acidente da Air France. Pesou.
Eu, como kardecista que sou, deveria compreender essas coisas. Mas sou limitada. Fico sem forças. Quero abraçar o mundo. Não dá, né...
Impotência.
Ai, Deinha. Quando soube do acidente, pensei logo em vc. Que gelo, que medo, que sensação de impotência mesmo...
Sempre que alguém diz qualquer coisa relacionada à França, lá vem vc na minha cabeça.. Passeios por Paris, leituras francesas... Deinha pelo mundo...
Se cuida, viu? Pelo amor de Deus...
Eu tb fico, com as coisas que me ensinaram quando criança, tentando entender. Mas tem hora que não consigo. E tem hora que também não consigo deixar de acreditar em outros mundos. Preciso, precisamos...
Beijos.
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