sabato, agosto 06, 2011

Faça uma lista...




"Um aeroplano pousou em Marte
Mas eu só queria é ficar à parte
Sorrindo, distante, de fora, no escuro
Minha lucidez nem me trouxe o futuro
Viajei de trem
Viajei de trem
Viajei de trem..."



Há dias escrevo, escrevo e nada posto. Ou apago ou escondo. Releio e não consigo chegar na expressão do sentimento. E que sentimento é esse? Que sentimentos são esses? Não consigo nomeá-los, separá-los, compreendê-los. Justo eu que gosto tanto de ter os sentimentos entre os dedos, de olhá-los, admirá-los, colocá-los no colo, niná-los, protegê-los do frio...

Nunca estive tão distante de saber o que sinto, o que ando sentindo. Não me lembro de estar com o coração tão embaralhado, com o corpo tão leve e pesado ao mesmo tempo. Mas seria um profundo exagero dizer que ando triste demais. Não!

Ando muito triste algumas vezes. De uma tristeza desconhecida. Tristeza de sala vazia, de lugar aberto, esperando o que irá chegar. Me dá uma sensação de liberdade esse vazio. De mudança. De solidão. De medo. De arrumação.

Passo os dias arrumando os livros no trabalho. São muitos e muitos livros para serem arrumados e uma arrumadeira - eu - nada prática, que gosta de devanear, que gosta do toque do livro nas mãos, mesmo os mais empoeirados. Muitas estantes, muita coisa fora do lugar. E não dá para arrumar sem desarrumar. Na hora de arrumar tudo parece ainda mais bagunçado. Isso sempre me deu vontade de sair correndo. E muitas vezes saía mesmo. Abandonava as arrumações pela metade, causando mais caos ainda.

Agora eu sinto a minha vida - numa metáfora simples, chichê e bobinha, mas necessária - como as prateleiras da biblioteca. Ando tirando coisas, colocando outras, arrumando, começando, terminando. De repente olho de novo e decido tirar os livros. Os mitos ficariam melhor perto dos contos tradicionais, esta etiqueta está errada, este lugar está apertado, está alto demais, baixo demais... Coloco este na prateleira dos juvenis ou não?

Não tem muito certo ou errado. Tem escolhas. Que podem ser depois revistas com mais cuidado. Organizar definitivamente nunca foi o meu forte, aliás é meu ponto fraco. Anda sendo um intenso tratamento organizar, passar os dias a organizar, organizar. Apesar do meu caos conhecido por todos os que já chegaram bem perto, eu tenho um gosto por organizar. Me dá uma sensação de que as coisas ganham mais sentido, ficam em seus devidos lugares, que a mente fica mais limpa, mais clarinha. Como tomar um bom banho quando se sente bem sujinho.


Não, não andam sendo dias de muita tristeza. Mas dias de muita confusão. De repente eu tirei tudo, tudo, tudo o que havia nas estantes da minha vida. E passei a ver o que cabe e o que não cabe. Ainda ando experimentando. Ainda há livros demais. Uns pesados e desengonçados, parecem não caber em lugar nenhum. Outros levinhos, mas tão pequenos que quando colocados na imensa estante irão desaparecer no meio dos grandões.

Fico tentando fazer com que tudo caiba. É visível que não cabe tudo. E eu mesma sei disso. Ando treinando o desapego. Isto vai embora, isto eu irei dar de presente. E este? E este?

Então tiro tudo de novo. Olho, examino. O que é fundamental? Que lugar dar ao que é fundamental? Olha este livro... Que bonito! Onde andava o pobrezinho este tempo todo? Escondido, apagado, sem conseguir aparecer...

A imagem da minha vida é esta. Livros pelos chão, livros dentro e fora de casa. Livros na casa da minha mãe. Livros na casa de amigos. Meus livros. Livros que por tanto tempo chamei de meus. E uma estante vazia, me olhando, me dizendo o seu tamanho, a sua espessura.

Compro uma nova estante? Onde irei colocá-la? Ela é mesmo necessária? Com ela irei me sentir melhor? Meus livros irão ficar mais acolhidos, mais quentinhos, agasalhados neste frio horrível que tem feito?

Ando pensando. Ando sentindo. E nada que penso e sinto tem nome. Não consigo explicar meus sentimentos. Ando tumultuando a vida dos outros porque a minha está um tumulto só.

Mas não está ruim. Também não está bom. Tenho a sensação de estar crescendo muito - assim uns dez centímetros - de uma vez. Este ano tem me feito tão feliz, tão Camila, tão eu mesma que ando com medo dele. Meu famoso medo da felicidade.

Não quero que ninguém me pressione. Que queira demais de mim, que exija minha presença, que queira respostas que eu não sei dar. Não, andando dizendo não. Não sei o que quero ainda na estante, em que ordem, de que jeito. Mas sei muito bem o que não quero, o que não cabe.

Esses dias gostei muito de fazer a lista dos 15 filmes que me formaram, os 15 que são fundamentais na minha vida. Vi no facebook e me debrucei a escrever os meus. Não fiz uma lista dos 15 melhores filmes que já vi, que indicaria, que acho bons. Fiz uma lista dos filmes que me indicam, permitem me entender, que fizeram com que eu descobrisse quem sou. Era para fazer em 15 minutos, mas é óbvio que eu fiz em bem mais tempo. Porque fiquei selecionando um por um, pensando, separando, excluindo um e outro. Doía o coração tirar um, mas eu percebia que o outro era muito mais eu, dizia muito mais a meu respeito. Então eu tirava.

Já não era mais uma lista de filmes, era uma lista que dizia sobre mim mesma.


Hoje almocei sozinha. Cheguei em casa sozinha. Estou na sala sozinha, do lado do buraco onde é possível que entre um sofá dia desses. Durante o almoço fiquei rascunhando coisas nos guardanapos de papel. Os 15 filmes. Alguns que esqueci. Outros que eu substituiria agora numa segunda leitura. Depois passei para os livros. Para as prioridades na minha vida. Depois para as coisas que não fiz e quero fazer...

Não, não eram coisas grandiosas. Não sou uma pessoa de coisas grandiosas. Sou é das gotinhas, das miudezas, daquilo que poderia ser esquecido, deixado de lado se não fosse... Gosto dos restinhos, dos cantinhos. Já disse por aqui que não sou de muitas viagens - externas. Sonho com algumas viagens, mas sonho mais em viajar no mesmo lugar. Também não sou de grandes leituras, gosto é de ler e reler os mesmos livros diversas vezes. Isto o Nelson Rodrigues disse que era o certo, mas o certo é o certo de cada um.

Minha vida sem mim é um filme que eu já vi mais de 5 vezes num mesmo dia. Sei lá quantas vezes ao todo. É uma terapia. No filme a moça também escreve num guardanapo o que quer fazer.

Quando criança lia e relia diversas vezes um livro e depois era obrigada a ficar no escuro, a cabeça latejando. Sempre fui exagerada. Sem limite. Compulsiva. Taí porque não gosto de drogas, não gosto muito de beber. Tenho outras drogas. Muito mais perigosas aliás. Sempre tive um medo grande de enlouquecer. Quando li Guimarães, o conto da moça que enloquecia, tinha muito medo... Me dava a impressão de que eu estava por um triz entre o saudável e a loucura. Machado de Assis também me fazia tremer nas bases, me desnudava na frente de todos.

De repente eu olhava para o lado e lá estava eu, sentada no ônibus com o livro na mão. Nua, nua, nua. Será que todo mundo percebia minha nudez? Minha loucura, minha falta de juízo?

Sempre tive medo da loucura. Porque sempre a senti muito perto de mim.

Sempre pensei - no meio de uma atitude tresloucada: Por que estou fazendo isso? Nunca sabia, nunca entendia. Fazia.

A verdade é que ando muito menos louca, muito mais equilibrada. Apesar. Isso me faz sentir bem. Me acha louca? Nada, querida. Já fui pior, muito pior. Hoje eu sou até normal, até me assusto com meu excesso de normalidade.

Tenho medo de na hora em que - finalmente - conseguir arrumar a estante, concluir que nada aprendi de nada e que continua tudo igual. Mas tenho a nítida impressão de que não será assim. Como tenho certeza de que a arrumação total nunca será realizada.

Tem sempre coisa nova chegando, coisa nova partindo. Mesmo que a gente não enxergue.

As paisagens não são as mesmas, por mais que às vezes pareçam repetidas.

A gente cresce.

Tem horas que eu quero ficar só, muito só. Em silêncio. E por isso a solidão tem me ajudado muito a me compreender, a me conhecer.

Tem horas que meu coração grita, que a solidão me invade e eu me sinto sozinha, eu me vejo sozinha, eu entendo o quanto somos sozinhos nesta vida. Muito sozinhos. Muito sozinhos. É uma revelação triste, doída. Mas é isso mesmo. Já disse isso por aqui e repito, repito, repito. No fundo somos só nós neste trem. Só nós neste barco. Os outros vem e vão, às vezes parece que estarão sempre ali, mas não estarão. Os outros são os outros.

Há as boas companhias. Há os grandes amigos. Há as grandes mães - como a minha.

Mas crescer é compreender o quanto somos únicos, o quanto somos sós. Crescer é assumir isso, é assumir seus desejos, seus sonhos, suas raivas, seus medos. Crescer é arrumar, se arrumar. É escolher o que fica. Onde queremos andar. Em que companhia. Por quanto tempo.

Crescer é poder fazer a curva, caso queiramos a curva. Ou poder pedir para parar um pouco, caso queiramos parar um pouco.

Crescer é ter coragem de dizer: não.

Crescer é ter a humildade de voltar e dizer: me desculpe.

É não ter certeza de nada e mesmo assim tomar decisões.

Crescer é saber limpar a situação, observá-la e - na incerteza do que virá - decidir baseando-se em seu coração, em sua cabeça, em seus valores, no mais profundo de si mesmo.

E poder errar. E poder se arrepender.

E saber que a felicidade é um estado de espírito e não é eterna. Que ela sopra pelos ares e de vez em quando pousa em nosso ombro.

A gente cresce quando se desobriga de ser feliz o tempo todo e para sempre.

Quando se permite cair, tombar, chorar, soluçar. E levantar e dançar. E sorrir e chorar ao mesmo tempo. E não precisar fazer papel de triste ou de alegre. Sentir o que se sente.

Quando a gente se permite não se entender.

Quando a gente entende que a confusão não é só negativa. Que os conflitos, como aos heróis e heroínas, nos fazem crescer, crescer, crescer e nos tornarmos a cada dia um tantinho - um tiquinho, uma gotinha - melhor.

Há felicidade na confusão. A vida é uma imensa confusão, uma imensa estante que nunca estará pronta. E a felicidade é um espaçozinho, um vãozinho, uma horinha de descuido.

Minha lista de filmes (mudei algumas coisinhas da inicial):


1. A casa dos espíritos

2. Peixe grande e suas histórias maravilhosas

3. Minha vida sem mim

4. O fabuloso destino de Amélie Poulain

5. Lavoura Arcaica

6. Janela da Alma

7. A excêntrica família de Antônia

8. As luzes de um verão

9. Ladri di biciclette

10. Pane e tulipani

11. Come te nessuno mai

12. O poderoso chefão

13. Thelma e Louise

14. As bicicletas de belleville

15. Fale com ela


Ps. Tirei o Cinema Paradiso para dar lugar ao Thelma e Louise. E não me conformo de não achar um lugar para o Stanno Tutti Bene (não a versão hollywoodiana, mas a italiana, do Giuseppe Tornatore, que fez o Cinema Paradiso e com a presença do Marcello Mastroianni). Taí, se pudesse indicar 16, eu colocaria este na estante. Posso apertar um tantinho e colocar 16? Nem sempre a gente segue as regras...

Ps 2. A fota é de um filme do Bergman... Ainda não vi este... Pretendo ver em breve. Tenho companhia? :)

4 commenti:

Igor Gomes ha detto...

Uau... estava indo para escrever no meu blog. Precisa escrever algo. Mas antes resolvi ler um pouco, e vim ler o seu blog. Logo, quando começo a ler, me impressionei.
Escrevi muito hoje, tentando traduzir muita confusão em palavras. Mas sentia que faltava algo.

E quando comecei a ler e ler esse texto, é como se tivesse traduzido o que queria escrever...
A confusão, as estantes... minha mania de organizar a vida, e as coisas e os sentimentos. Hoje acordei totalmente desorganizado, não triste, mas desorganizado. E passei o dia assim, com uma sensação de desorganização.

Amei o texto, fiquei com aquela cara (e gostinho) de: Escrevi tanto, tanto, e não consegui, mas encontrei um texto que conseguiu mostrar como estou agora. Gostei mesmo, gostei muito. Aliás, esse vai ser um texto que entra pra minha lista de favoritos e que eu leio diversas vezes... Abração.


"Há felicidade na confusão."

Igor Gomes ha detto...

Aliás, até a musica da introdução. Ouvi muito hoje.

Anonimo ha detto...

Cá, que sede de vida você me dá!!! Te amo linda!! Queiroz PS: Precisamos remarcar né?! :D

Déia ha detto...

Sensação de que você sou eu. De que essa estante incompleta cabe em mim. Assim como o Igor, essa tradução é totalmente minha também. Sintonias piscianísticas são sublimes até.
Acho que já fiz isso, mas tenho que te agradecer de novo pelo texto. E também pelo contexto.