giovedì, agosto 18, 2011

Minha fror




ÍNDIA

Índia, seus cabelos nos ombros caídos,
Negros como a noite que não tem luar..
Seus lábios de rosa para mim sorrindo
E a doce meiguice desse seu olhar.

Índia da pele morena,
Sua boca pequena
Eu quero beijar.
Índia, sangue tupi,
Tens o cheiro da flor.
Vem, que eu quero te dar
Todo meu grande amor!

Quando eu for embora para bem distante
E chegar a hora de dizer-te adeus,
Fica nos meus braços só mais um instante..
Deixa os meus lábios se unirem aos seus.
Índia, levarei saudade
Da felicidade que você me deu.
Índia, a sua imagem
Sempre comigo vai
Dentro do meu coração,
Flor do meu Paraguai.

Dona Odete Vichi Tardelli é uma senhorinha porreta. Beira os oitenta anos e já viveu tanta coisa que daria para umas cinco vidas ao menos, de tantos acontecimentos. Minha avó. Minha madrinha. Minha segunda mãe. Minha primeira e maior contadora de histórias. De vida. Histórias de infância, histórias de amores que não deram certo, histórias de sofrimento, de dor. Histórias de espíritos, de alegria, de encontro, de saudade.

Dona de uns olhos azuis que não têm comparação, cozinheira de profissão, com suas coxinhas de batatas mais deliciosas que já existiram no mundo, me dá água na boca só de pensar. É dela também o melhor manjar com cocada. Que delícia! E o bolo de aniversário? Simples, gostoso, com gosto de fim de tarde, com gosto de casa, de infância? E o macarrão? E as saladas? Não há ninguém no mundo que saiba temperar melhor uma salada do que essa senhorinha.

Dona da risada mais contagiante do mundo, de uma alegria capaz de rerguer qualquer pessoa, doente, sofredores, devedores, desesperançados, apaixonados não correspondidos... É só para quem já viu mesmo... Os olhos brilham e o riso vem, invadindo a cozinha toda... E se você não achou graça irá rir assim mesmo, se achou irá gargalhar, se não entendeu irá rir só de ouvir aquela risada gostosa, alegre, que transborda sentimento...

Dona das crises de choro mais inesperadas que existem, fazendo todos perderem a paciência, com um choro doído, que arranca lágrima até dos mais palhaços, dos da turma do deixa disso. Quando ela chora, eu choro junto. Quando ela chora, ela chora por tanta, tanta coisa... Traz a infância, traz os filhos, traz os sofrimentos todos, todos de uma vez.

Minha avó é essa mistura de alegria e tristeza. De transbordamentos. E eu acredito piamente quando alguém diz o quanto somos parecidas. Quanto era adolescente temia quando ouvia dizer isso. A Camila tem a senbilidade da Odete, diziam alguns. Essa menina é uma medium porreta, como a avó, diziam outros. Nossa, essa é a seguidora da dona Odete, diziam outros. E eu tremia nas bases. Que medo! Eu não queria passar por esse mundaréu de sofrimentos pelos quais minha avó passou. Mas como somos parecidas. Como ela e minha mãe se parecem!

Seu coração é enorme, generoso. Ela é doce, viva, estar perto dela nunca é sentir tédio. Impossível!

Medrosa, muito, muito medrosa. Minha avó tem medo da morte apesar de espírita. Tem medo da dor. Tem medo da separação. Medrosa, muito medrosa. E fervorosa em suas orações. Desde pequena soube que elas nunca falhavam, tamanha era a sua fé, a sua crença, tamanha era a energia que ela botava nas coisas.

E senhorinha. Minha avó não é nada moderna, é dessas avós que não existirão mais. Não dirige. Passa longe de computador. Fez até a quarta-série. Acha que todo mundo tem que casar para ser feliz. Senhorinha. Na foto de quinze anos que eu mandei ampliar há alguns anos, a mesma carinha, a mesma pose de senhorinha. Minha avó já nasceu senhorinha. Uma linda e doce senhorinha.

Oito filhos, dezessete netos, dois bisnetos. E é por causa dela que a família gira, é em torno dela que as coisas acontecem. Sem ela não há a festa, a comida, a alegria. Sem ela faltaria muita coisa. Incluindo um pedaço imenso do meu coração.

Dizem que a minha avó também foi muito brava. Eu mesma já presenciei - com os outros. E nos 28 anos de vida que tenho, já senti ela brava uma ou duas vezes no máximo. Porque comigo ela é a melhor pessoa que consegue ser. Me defende, me protege, diz que sou um pouco sua, por ela ter cuidado de mim quando criança. Diz que se brigarem comigo, ela me pega pra ela. Me deseja uma boa viagem. Uma boa semana. Diz que está rezando por mim. Pergunta sempre se eu melhorei e eu nem sei do que ela está falando. Sempre digo: melhorei vó, estou ótima.

Me entende. Foi doce e gentil com todas as pessoas para quem a apresentei, amigos, namorados.. Nunca me questionou quando dizia: Vó, nós não estamos mais namorando! Pelo contrário, não toca no assunto, me trata com doçura e se aparece um outro namorado ela o trata com delicadeza, com a mesma delicadeza de sempre. Minha avó, minha avó.

Me acha inteligente. Bonita. Diz que eu fiquei linda no retrato, disse isso na semana passada. Fala fror e é tão lindo. Diz, desde criança, que eu serei escritora e escreverei tantas coisas para a família... Me manda subir no palco para recitar poesia, diz que eu tenho algo a dizer quando nem sei o que dizer. Reza de um jeito que faz arrancar lágrimas do mais ateu. Pede com fervor, agradece com fervor, não esquece de ninguém em suas orações.

Quando eu era criança, ela fez questão de ir entregar comida para um moço que estava bem doente, magro, bem magro, com AIDS. Ninguém queria chegar perto do homem, era o final dos anos 80. Pois minha avó foi, tratou o homem com doçura. Entregou a ele a comida e ainda fez questão de apertar sua mão como fazia com todo mundo. Eu estava na Brasília do meu avô, no carro e fiquei pensando na coragem da minha avó. Eu nem sabia o que era AIDS, mas sabia que todos tinham ficado com medo de chegar perto do homem. E sabia que a minha avó não tinha esse medo. E que ela se preocupava com os sentimentos dele - também me doía o coração imaginar o quanto ele estava se sentindo mal por ninguém querer chegar perto dele...

Minha avó enche o carro de flores, de galhos. E meu avô briga. Mas isso faz uns bons anos...

Sair com a minha avó na rua é ficar exausta. Minha avó conhece a cidade inteira e a cidade inteira escancara um sorriso quando encontra com ela pela rua. Ela para, para, para. Conversa. Ri. Fala de comida, de Deus, da cidade, do vestido da moça, dos filhos, dos netos, dos preços, reclama, chora, dá gargalhada e volta feliz e contente. E eu exausta. Mas isso também faz uns bons anos...

Não me dei conta, mas a minha avó foi envelhecendo. Meus avós estão envelhecendo. Hoje em dia meu avô não dirige mais. Minha avó não sai a pé para passear, dá poucos passos, tem dificuldade para entrar e sair do carro. Tem dor, sobrepeso, muita dor.

O tempo passa.

Minha avó vê novelas e se emociona. Lê romances espíritas e se emociona. E ouve meu avô bradando o quanto bobos são os livros que lê. Ouve ele gritando o dia todo.

Minha avó. Nesta semana falei dela, muito sobre ela. Vim com ela na cabeça, soube coisas de sua história que desestabilizaram o conhecimento que tenho sobre ela. Fiquei confusa. E olha que eu conheço bastante sobre sua história. Ouço. Gravei. Converso sempre sobre isso.

A história dos meus avós está profundamente ligada à minha história. Por causa deles estudei italiano. A eles se liga uma grande parte da minha identidade. Meu avô, minha avó.

Minha avó desastrada, chorona, exagerada, que parece gostar de sofrer e de narrar sofrimentos. Minha avó alegre, da gargalhada gostosa, do cheiro de pão quentinho. Minha avó da cantina, dos salgados quentes saindo do forno. Minha avó, mulher corajosa, que tem tanta, tanta fé.

Minha avó medrosa. Linda. Dos olhos azuis, bem azuis. Olhos de seu pai, que ela perdeu aos dois anos. Minha avó que sofre a morte do pai, da mãe, das irmãs e irmãos todos. Minha avó que tem as saudades todas no corpo e no coração.

Que chorou ao ouvir a história que levei para ela. A história que me lembra tanto dela. Minha avó e a simplicidade da vida.

Não me venham com avós intelectuais. Nem com avós moderninhas. Nem com avós de quaisquer tipos. Minha avó é a minha avó. Quem não a conhece perde uma fatia grande de Piedade, minha avó contadora de causos, de histórias perdidas pelo tempo. Quem não a conhece perde uma fatia grande da vida.

Minha avó menininha que agarra minha mão no hospital e pede para não morrer. O ano é 2002. Minha avó que fica meses internada numa clínica para tratar a depressão e fica enconstada no portão enquanto o carro da gente se distancia.

Minha avó que reza no reveillon com tanta verdade. Que difícil é começar um ano sem as suas palavras, sem a sua voz, sem a sua crença.

Minha avó grande, bem maior do que eu. Alta, grande, cheia de corpo.

Minha avó do Centro. Dando passes. Sorrindo. Orando. Às terças-feiras. Quando saí de Piedade eu tinha 17 anos e frequentava todas às terças feiras o Centro. Isso mais de dez anos atrás.

Nestas férias estive lá outra vez, grande parte da família lá, a pedido dela, para orarmos juntos.

Minha avó das músicas, das cantorias... Minha avó dos sentimentos exagerados, dolorosos, das histórias todas.

Minha avó para quem não tive coragem de contar sobre meu último rompimento. Minha avó que sabia, em silêncio, que eu morava com o namorado e nada dizia. Que me pergunta dia após dia sobre o meu cunhado, sobre a saúde do meu cunhado. Não tive coragem de lhe contar sobre o fim. Me doiria o corpo, a alma, não sei dizer o que aconteceu desta vez.

Minha avó com quem gostaria de conversar agora. Pra quem contei no fim de semana que comprei um sofá. Minha avó que está tão velhinha, que eu sempre quis trazer para São Paulo, mas que nunca deu, que a velhice sempre atrapalhou.

Minha avó pra quem eu gostaria de contar agora sobre a minha solidão. Sobre o meu medo. Sobre a ausência de tudo e todos. Sobre a falta de amor. Minha avó que me diria algo bonito e que me faria sentir que logo passa. Que me diria para ficar com alguém que gostasse muito de mim acima de tudo. Que mudaria de assunto levemente. Que jamais, nunca, brigaria comigo.

Minha avó que sempre me entende.

Hoje eu estava com o coração sangrando. Solidão. Fim. Cansaço. Muito trabalho. Medo. Tontura. Tristeza.

Para quem eu queria dizer que não consigo mudar. Que sábado cheguei na sua casa com o coração dolorido. Que sábado tive uma conversa que eu não sei por que me fez tão mal. Me deixou com uma sensação de... não ser querida. Não ser.

E que hoje tive ciúmes. Incofessável ciúme. E de repente uma certeza que o caminho - definitivamente - não é este. Não é o meu caminho pelo menos. Que não preciso mudar, nem me adequar. Que não preciso dividir o meu coração. Que não preciso dividir o coração dos outros.

Que posso ter o direito de sentir o que sinto. De ter ciúmes quando tenho. De ser passional quando sou. De ter meus defeitos. De ter defeitos. De não ter que fingir ser o que não sou. Nem de fingir para mim mesma que está tudo bem quando não está.

A forte sensação de não saber o que quero. Mas a sensação mais forte ainda de saber o que quero longe, bem longe de mim.

Minha avó das emoções fortes, das lágrimas e dos risos. Minha avó tão, tão parecida comigo. Tão transparente, tão emotiva, tão sensível, tão ela mesma sempre. Chorando, rindo, nos lugares mais inapropriados.

Minha avó, meu espelho. Amanhã eu quero te contar a história mais bonita. E te dizer que te amo. E te agradecer por me deixar ser quem sou, por não me julgar, por me perdoar, por me entender, por ser tão mulher e, apesar de senhorinha, perceber que estou sempre querendo acertar, sempre procurando ser feliz.

Minha avó, meu espelho.




ALÉM DO ESPELHO
Composição: João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de ver seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E eu no espelho chorei porque doeu
Só que olhando meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu

A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar


Ps. Índia é a música preferida da minha avó.

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