lunedì, marzo 17, 2008

A descoberta do mundo




"O nome dela é..., ela tem um filho, é dona de casa, tem uma responsabilidade muito grande de cuidar de casa e do filho. Quando sobra tempo, ela vê TV e às vezes ela caminha.

Nos fins de semana ela sai para o shopping, mas ela continua a cuidar da casa. O sonho dela é trabalhar. Ela não gosta de lavar banheiro. Ela gostaria de trabalhar em uma empresa para ganhar seu próprio dinheiro e comprar o que ela quiser e pagar suas próprias coisas e ser feliz"


Texto de apresentação de uma entrevista que meu aluno fez com sua mãe.


Os alunos escrevem muitas coisas lindas. Os projetos do ano passado me emocionaram, mas eu esqueci de fazer uma cópia pra mim. Neste ano não esquecerei. Eles escrevem coisas absolutamente lindas. Em breve colocarei algumas aqui. Este aluninho aí tem 11 anos. No ano passado um outro aluno, ao estudarmos entrevistas, entrevistou o pai, um baterista amador, sobre o quanto tocar bateria era importante. Lembro-me bem da entrevista e dos olhinhos dele brilhando ao falar do pai, um baterista amador (frase que ele repetia, repetia). No meio do ano seu pai morreu de ataque do coração com 40 anos. Eu saí do colégio com o coração apertado, entrei no ônibus e chorei muito, voltando pra casa. Meu aluninho de 11 anos precisaria aprender a conviver com aquela imensa dor. O pai, um baterista amador, não está mais nesse mundo. O tempo passou e ele ainda não aprendeu. Mudou radicalmente. Como entender essas coisas assim tão sem sentido? Como entender o absurdo?


Neste ano, há um mês aproximadamente, após algumas aulas de poesia, dois aluninhos, bem, bem pequenos foram para a minha mesa. Todos haviam descido para o intervalo. Eles pararam lá e disseram:


- Professora, nós estamos apaixonados por uma menina do 7º ano.


Eu olhei para eles, pequenos. Eles me falaram o nome da menina - enorme, mais velha. A mesma menina? (pensei eu, mas resolvi não perguntar). Depois, outro dia, descobri que não era a mesma. Pelo menos isso. Eles ficaram ali parados, eu olhando e esperando alguma coisa, pensando que ajuda eles queriam. Lembrei de quando dava aulas no cursinho e nas cartinhas de amor que eu ajudei a corrigir, nos poemas que ajudei a escolher. Seria isso? Eles queriam ajuda para corrigir algum texto? Uma carta??? Resolvi, depois de um período de silêncio, perguntar:

- Que ajuda vocês gostariam? O que vocês estão pensando em fazer?

E tive como resposta:

- Então, professora, é justamente por isso que viemos falar com você: não sabemos o que fazer. Você tem alguma idéia?

A professora, eu no caso, pessoa altamente passional e altamente desiludida com os amores do mundo, pessoa que já se apaixonou e já quebrou a cara... Justamente pra mim esse pedido de ajuda. Pensei em dizer "Foge enquanto é tempo!", o conselho mais sensato que eu poderia dar. Mas não. Ninguém merece que a sua primeira paixão seja desacreditada dessa forma. Como ninguém merece que uma grande desilusão seja desacreditada dessa forma -"Já passa, você arruma outro amor". Alguém quer lá saber de outro amor quando o mundo está doendo?

Fiquei ali pensando. Perguntei se eles gostariam de escrever algo, uma carta, um poema...

- É uma boa idéia, professora.

Saíram da sala. Eu ali, pensando. Com um sorriso bobo no mundo, sorriso das primeiras descobertas. Desse mundo que eles começavam a conhecer. Mundo tão cheio de tristezas, mas tão cheio de coisas bonitas. Tínhamos passado a semana inteira estudando poesia. Para minha surpresa, um dos alunos havia selecionado o poema Ausência do Vinícius de Moraes - autor que estávamos estudando. Um serzinho de 11 anos gostou muito do poema. Analisamos o texto, comparamos com o poema Ausência do Drummond, os dois falando da ausência que é na verdade uma grande presença, se falta algo é porque ainda está dentro, quando não está, não falta. Seria isso? A professora falando de amor? Será que eles acharam que esta professora aqui entende de amor? Não, meus queridos. Eu não entendo de amor. Entendo um pouco de poesia, de versos. Entendo um pouco sobre amar. Mas de amor, de amor não sei nada não. Quanto mais passa o tempo, menos entendo.

Alunos. Alunos pequenos têm alguma coisa de poesia, alguma coisa que dança, alguma coisa que brilha. Meus alunos me ensinam todos os dias algo novo. Existem os alunos divertidos, os engraçadinhos, os preguiçoooosos, os inteligentíssimos, os desenhistas, os músicos, os atores, os briguentos, os tristes, os calminhos, os que parecem morar em outro planeta, os que não param quietos nunca. Alunos. Meu alimento mais bonito, mais profundo, mais grandioso.

Brigo com eles dia sim, dia também. Alunos falam alto, gritam, batem uns nos outros. Alunos às vezes brigam com você, às vezes te irritam. Mas sempre tem aquele pedido de desculpa, aquele abraço, aquele olhar. Sempre podemos compreendê-los. Meus alunos são meu tesouro mais bonito.

Este texto aí de cima sobre a mãe que gostaria de trabalhar - como se não trabalhasse... - me lembrou de cara a Clarice Lispector. Me lembrou muito o conto Amor. Me lembrou também esta crônica:

"Ato gratuito

Muitas vezes, o que me salvou foi improvisar um ato gratuito. Ato gratuito, se tem causas, são desconhecidas. E se tem conseqüências, são imprevisíveis.

O ato gratuito é o oposto da luta pela vida e na vida. Ele é o oposto da nossa corrida pelo dinheiro, pelo trabalho, pelo amor, pelos prazeres, pelos táxis e ônibus, pela nossa vida diária enfim - que esta é toda paga, isto é, tem o seu preço.

Uma tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquíssimas, estava eu escrevendo à máquina - quando alguma coisa em mim aconteceu.

Era o profundo cansaço da luta.

E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava exausta de tirar idéias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava - precisava com urgência - de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver.

Então minha própria sede guiou-me. Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. "Que rua?", perguntou ele. "O senhor não está entendendo", expliquei-lhe, "não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro." Não sei por que olhou-me um instante com atenção.

Deixei abertas as vidraças do carro, que corria muito, e eu já começara minha liberdade deixando que um vento fortíssimo me desalinhasse os cabelos e me batesse no rosto grato de olhos entrefechados de felicidade.

Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver.

Saltei do táxi e atravessei os largos portões. A sombra logo me acolheu. Fiquei parada. Lá a vida verde era larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, no ar, à vida, tudo se erguia em direção ao céu. E mais: dava também o seu mistério.

O mistério me rodeava. Olhei arbustos frágeis recém-plantados. Olhei uma árvores de tronco nodoso e escuro, tão largo que me seria impossível abraçá-lo. Por dentro dessa madeira de rocha, através de raízes pesadas e duras como garras - como é que corria a seiva, essa coisa quase intangível que é a vida? Havia seiva em tudo como há sangue em nosso corpo.

De propósito não vou descrever o que vi: cada pessoa tem que descobrir sozinha. Apenas lembrarei que havia sombras oscilantes, secretas. De passagem falarei de leve na liberdade dos pássaros. E na minha liberdade. Mas é só. O resto era o verde úmido subindo em mim pelas minhas raízes incógnitas. Eu andava, andava. Às vezes parava. Já me afastara muito do portão de entrada, não o via mais, pois entrara em tantas alamedas. Eu sentia um medo bom - como um estremecimento apenas perceptível de alma - um medo bom de talvez estar perdida e nunca mais, porém nunca mais! achar a porta de saída.

Havia naquela alameda um chafariz de onde a água corria sem parar. Era uma cara de pedra e de sua boca jorrava a água. Bebi. Molhei-me toda. Sem me incomodar: esse exagero estava de acordo com a abundância do Jardim.

O chão estava às vezes coberto de bolinhas de ararueira, daquelas que caem em abundância nas calçadas da nossa infância e que pisamos, não sei por que, com enorme prazer. Repeti então o esmagamento das bolinhas e de novo senti o misterioso gosto bom.

Estava com um cansaço benfazejo, era hora de voltar, o sol já estava mais fraco.

Voltarei num dia de chuva - só para ver o gotejante jardim submerso".

Nota da autora: peço licença para pedir à pessoa que tão bondosamente traduz meus textos em braile para os cegos que não traduza este. Não quero ferir os olhos que não vêem.


Quisera eu poder explicar, muito além do textos e da gramática (seja ela prescritiva ou descritiva - comentário para os amigos letrandos...rs). Quisera eu explicar a importância dos atos gratuitos. De se andar por aí ao vento, das inutilidades, da liberdade, do "ato que é por si só".
Quisera eu saber falar de amor. Saber como se aplaca a dor de quem sofre, aos 11 anos, a perda de uma pessoa muito querida. Quisera eu saber falar mais sobre as coisas da vida.
Eu tento. Mas sou tão pequenininha.

2 commenti:

Anonimo ha detto...

Cá, minha flor. Bonito texto, como não poderia deixar de ser vindo de você.

A dor de perder o pai. Sei dela. Dói visceralmente. Melhora com o tempo, como todas as coisas.

Beijos.

euqueriaser ha detto...

"nunca diga a uma criança que sonhos são besteiras ou fora de cogitação. Nada seria mais humilhante e seria uma tragédia se elas acreditassem nisso..."

Bonito ver vc falar dos alunos desse jeito. Mais bonito ver sua ternura diante deles...

um beijo!