giovedì, marzo 06, 2008

"Quanto tempo o tempo tem?"


Hoje é meu desaniversário.

Nada me deu mais alívio nos últimos tempos do que quando passou do dia 5 para o dia 6 de março. Ufa! Então o mundo não me exigia mais felicidade, alegria, comemorações. O mundo permitia que eu estivesse triste e, de repente, parei de estar. Toda a tristeza de ontem foi varrida por uma alegria imensa que o dia de hoje me trouxe. Aula de italiano para minha aluninha pequena. Aula bem leve, bem bonita. Crianças têm algo que a gente vai perdendo pelo mundo, uma leveza, uma alegria, uma beleza, alguma coisa sem nome. No dia de hoje almocei com um senhorzinho e conversamos sobre o trânsito louco de São Paulo. Louco literalmente. Quem mora e esteve aqui nas últimas semanas sabe do que estou falando. Quem mora longe, deve ter visto no jornal. Almoço bonito, caminhada. Dia de ler as mensagens que eu ainda não tinha conseguido ler com atenção. Dia de sorrir. De ler os e-mails. De ler e reler o poema que o Juliano fez pra mim. Como o Juliano pôde adivinhar como seria o meu dia? Que ele começaria com lágrimas, às seis da manhã, passaria por trabalho e ônibus e por uma ausência branca??? Poetas são poetas e ponto. Vai saber qual é a explicação.

Voltando à minha mudança brusca das estações de humor, digo que a coisa não é bem assim. Não é tão simples. A alegria e a tristeza andam em mim misturadas, numa efervescência. Alguns dizem que é meu lado italiano de exagerar as coisas, outros que é meu lado teatral, outros ainda que é a indicação de que eu tendo para a depressão. Perigo, perigo. Nessa semana vi a capa da Veja ou da Época - não lembro bem. Lá dizia que descobriram que a tristeza é importante! Pesquisas? Cientistas? Não li para saber e nem quero. A tristeza é importante... Olha lá! Lembro do Hansen e das aulas de literatura. Lembro da indignação dele quando uma aluna sugeriu que o Drummond precisava de antidepressivo. Lembro da peça de hoje (que aliás foi muito linda... Peça de um amigo meu, encontro de vários amigos!) e da frase repetida inúmeras vezes: "Tá tudo bem, tá tudo bem". Essa alegria comprada em farmácia mascara que está tudo mal, obrigada. Que a vida não anda assim como deveria muitas vezes. Muito menos o mundo. A gente se alegra sim, obrigada. Mas a tristeza existe. O desespero, o medo, o pânico. E também a raiva. Desde sempre existiu. E temos muitos motivos. Mas não, a senhora revista e os senhores pesquisadores resolveram então concluir (olha que conclusão mais nova!) que a tristeza é importante. P****! É claro que é importante. Vinícius de Moraes já sabia quando escreveu:

"É melhor ser alegre que ser triste

A alegria é melhor coisa que existe

É assim como a luz no coração.


Mas pra fazer um samba com beleza

É preciso um bocado de tristeza

É preciso um bocado de tristeza

Senão não se faz um samba não



Senão é como amar uma mulher só linda; e daí?


Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza


Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora


Qualquer coisa que sente saudade


Um molejo de amor machucado,


Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher,


Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor


E para ser só perdão


Fazer samba não é contar piada


Quem faz samba assim não é de nada


O bom samba é uma forma de oração


Porque o samba é a tristeza que balança


E a tristeza tem sempre uma esperança


De um dia não ser mais triste não...


Ponha um pouco de amor numa cadência


E vai ver que ninguém no mundo vence


A beleza que tem um samba não


Porque o samba nasceu lá na Bahia


E se hoje ele é branco na poesia


Se hoje ele é branco na poesia


Ele é negro demais no coração"


Não é preciso de pesquisa para saber que a tristeza é necessária. Importante, imprescindível. Relendo meu blog esses dias, vi que minha vida há tempos anda cheia de tristeza, balançada, doída de amor. Em outros tempos, apesar da paixão que sempre impera, os assuntos eram outros. Pior do que ser julgada pelos outros (mas quando essa crise passa, Meu Deus?) é ser julgada por mim mesma (Meu Deus, quando é que passa essa crise???). Mas hoje, quando a alegria surgiu levinha, enchendo o dia de gente querida, percebi (venho percebendo há uns dias na verdade) que a minha tristeza é altamente necessária. Vivê-la até o fim, até sumir. A tristeza, a mágoa devem ser vividas até o final. Para acabar. No meio da tristeza, dias alegres. Tristeza recheada de alegria. Tristeza que vai limpando tudo.


Dentre tantas mensagens, telefonemas, e-mails, abraços... Ninazinha me escreveu sobre as surpresas que a vida nos reserva. Destaco três delas, nesse que foi o 5 de março de 2008. Eis que quase meia-noite, quase o aniversário virando desaniversário, aparece no meu orkut um ser que não estava entre a minha lista de amigos e com quem eu não converso há uns anos. Menino que foi minha companhia e meu amor por longos e entrecortados quatro anos. Menino que eu amei e por quem chorei muitas vezes. Menino que me amou e que eu fiz chorar muitas vezes. Menino que me magoou, menino que eu magoei. Menino que eu achei que era o amor maior da vida. Mas eis que chegou outro ainda maior e me arrastou nesses últimos dois anos. Amor não é de se medir, mas quando acaba a gente sente de verdade o tamanho que tem, que tinha. E esse último foi um tanto grande maior, mais imenso, mais doloroso. Me disseram que é a idade, que a gente vai ficando velho e vai amando mais e mais. Medo. O que será de mim na velhice?


Mas voltando... Esse menino que foi um tanto grande de especial e de quem eu quis me esquecer por completo e afastei as lembranças para um canto distante de mim, esse moço que nem tinha o orkut indicando que dia 5 era dia do meu aniversário, esse moço lembrou, me achou, me escreveu. Achei bonito. Algumas lembranças vieram quentinhas, me deixando feliz por poder ter, em paz, esse menino na memória. O tempo. O tempo. O tempo. Tomara que o tempo possa limpar as mágoas do meu coração. Tá certo que nunca foram tão grandes, que, se pensar, ainda doem e doem fundo as mágoas recentes. Mas existe o tempo. O tempo tão bonito, tão lento, tão apressado. Essa foi uma das surpresas. A outra foi o amigo Marco, meu querido Gandhi, que apareceu com um e-mail assim tão bonito:


"Fala, Mundo-mudo!


Você está tendo a honra de ser o meu primeiro percalço premeditado deste ano. Já explico.


Comecei, a duas semanas, a freqüentar uma outra roda de choro (caso ainda lembre, toda terça feira tem uma roda em que participo na biologia). Eu estava mesmo querendo, estou me divertindo muito com a música - até comprei um violão novo!


Aí­, me perguntaram assim: "você vai tocar toda sexta feira à noite? não vai perder muitas festinhas interessantes?"


Foi um dilema.


Mas resolvi que, por alguns meses, iria abdicar dos eventos noturno-sextafeirianos. Eu sabia que ia ser difícil...


E olha a ironia: no teu aniversário vai ter... Chorinho!


Enfim, estarei lá em outra roda, tocando bandolim e - não ao mesmo tempo - violão. Quando eu for tocar a música "doce de coco", do Jacob, vou lembrar de você. E, quando eles tocarem "doce de coco" lá no Cidão, lembre-se que eu lembrei de você.


Grande beijo, tenha pelo menos mais dois belos quartos de século bonitos assim em sua vida. Parabéns.


Marco"


Bonito o e-mail porque veio assim de surpresa. Dessa pessoa aí que eu gosto tanto e que - fora a despedida da Déia - eu estou distante há um bom tempo também.


Como eu te disse, querido Marco, amanhã eu choro daqui e você daí e um dia - em breve - choramos juntos. Uma porção de amigos juntos.
Essa foi a minha segunda surpresa.


A terceira foi o poema do Juliano. Que foi na verdade a primeira dessas citadas. Poeminha do Juliano, tão, tão lindo:


"hoje ela deve ter começado assim

sozinha na cidade cinza

quer chorar, quer correr,

mas a cidade é grande demais

e engole lágrimas de meninas sozinhas.


depois da pressa
depois do expediente

depois do almoço

depois do ônibus...



num canto verde, num canto de passado

tanto ontem que atrapalha a pressa

amarra a perna, que sem notar sobe rua dois,

sobe coração de jesus, sobe a ladeira dos dias...




hoje eu subo com ela, uma madrugada fria


ela num cobertor e eu arma em punho


ela uma menina e eu perdido de um novo caminho,


ela colo e lágrimas, eu monstro e tolo.


Depois disso, sempre, um carinho do tamanho de nossa


Piedade.



tanto desencontro pela vida, que chega a ser arte

ela chega, ela parte, mas já teve os pés ná àgua e fazia bolos de cholate...

o resto é a curva do espaço-tempo que até hoje não aprendemos.


hoje é o dia, ela sabe

mas à frente do nariz, embaçando os olhos

sufocando o peito, amarrando a garganta

vai sempre um poema que nunca dizemos.



vai sempre a frase que falta,

sempre a ausência branca,

que machuca e completa...

coisas de menina, coisas de poeta"

Juliano Soares



Ninazinha estava certa. A vida é cheia de surpresas. E cheia de beleza. Em alguns cantinhos do mundo lá estão pessoinhas que conseguem - ufa! - me julgar menos do que eu, me entender mais do que eu, me perdoar pelas minhas faltas, pelos meus errinhos, pelos meus descaminhos, pelos meus defeitos.
Eliane me disse - ontem, no telefone - que chega um dia que a gente percebe que ama uma pessoa apesar. Apesar de todas as outras possibilidades, de todos os defeitos, de tudo o que ela possa ter nos magoado, de tudo de feio que essa pessoa possa ter. Chega um dia em que descobrimos que o nosso amor vai além do que essa pessoa faça, das suas atitudes, das suas palavras. Chega um dia em que percebemos que o amor é maior.
Isso eu ainda não conheço. Acho bonito, mas desconheço. Eliane me disse também que só o tempo pode dizer o amor. Sei, no entanto, que existem pessoas, amigos de anos, com seus delizes, com suas belezas, amigos que conhecemos e que sabemos lindos apesar das feiúras internas que todos nós temos. Em alguns lugares do mundo, alguns seres vêem em mim algo de bonito, algo de alegrinho. Apesar dos pesares. Em alguns lugares do mundo, seres com quem divido a vida de todos os dias, seres com que já dividi essa mesma vida, em alguns lugares do mundo algumas pessoas pensaram em mim nesse dia 5. Algumas não pensaram, mas amam mesmo assim. Algumas devem não gostar nem um tantinho. Mas dessas eu não quero falar. Elas têm todo o direito de não gostar. Mas eu também tenho todo o direito de não falar delas. No fundo elas me mostram coisas em mim que preciso melhorar. Mostram um espelho sem as graças das coisas bonitas. Espelho que reflete o que em mim há de mais bruto. Os amigos refletem o que há de mais lindo. E alguns amigos, com um tanto de poder, tentam mostrar as duas partes. Mas sempre vêm com a verdade e com os curativos.



Surpresas dessa vida... No ano passado a primeira festa surpresa que foi surpresa mesmo. Nesse ano algumas surpresas bonitas. Ao longo dos dias, ao longo dos meses, a vida é uma caixinha de surpresas. Algumas feias, algumas bonitas. Algumas grandes, algumas pequeninas.
Algumas imensas.


"A vida é a arte do encontro

Embora haja tanto desencontro

pela vida"

Vinícius de Moraes



Obs: Quanto tempo o tempo tem? é uma peça linda que vi em dezembro com a minha mãe. Peça para crianças, mas no dia em que vi (último dia) só tinha adultos... rs Peça que fala do mundo. Do tempo necessário para tudo. De como não há a possibilidade de pular as fases, de cortar o tempo, de ir para o final da história. Que toda a história precisa ter seu começo, seu meio e seu fim por completo.
Obs 2: Amei todas as manifestações de carinho. A menina Mariana que foi a única amiga que vi nesse dia. A cartinha e o chocolate que ela me trouxe. Chocolate grande que comi todinho. Amei a cartinha de um aluno. Os telefonemas. O carinho que me acalentou. O mundo triste triste e alegre alegre. Como sempre.
Obs 3: O Marco mandou a música do Jacob. Mas não sei colocar aqui...

3 commenti:

Nina ha detto...

Tão bom ler suas palavrinhas... Sempre tão lindas, mesmo as mais tristes.
Porque só assim os sorrisos podem ser tão imensos, tão contagiantes qaunto os teus.

Um beijo procê menina bonita!!!

Meio assim... ha detto...

Bonito, pessoa! Bonito o texto e bonito o dia, assim, de coisas sublimes e inesperadas.
É um bom jeito de se festejar a vida.

Anonimo ha detto...

"Vc é a pessoa mais parecida comigo que eu conheço" E nem é do lado do avesso.
Tão bonitas as coisas tristes... dessas que eu tbm tenho um montão. E qdo lembro delas eu tbm canto Vinícius:

"por isso fazia seu grão de poesia
e achava bonita a palavra escrita
por isso sofria de melancolia

sonhando o poeta
que quem sabe um dia
poderia ser"

um beijo.
mari