lunedì, marzo 10, 2008

Sobre as coisas do mundo



Um de meus filhos me diz: “Por que é que você às vezes escreve sobre assuntos pessoais?” Respondi-lhe que, em primeiro lugar, nunca toquei, realmente, em assuntos pessoais, sou até uma pessoa muito secreta. E mesmo com os amigos só vou até um certo ponto. É fatal, numa coluna que aparece todos os sábados, terminar sem querer comentando as repercussões em nós de nossa vida diária e de nossa vida estranha. Já falei com um cronista célebre a este respeito, me queixando eu mesma de estar sendo muito pessoal, quando em 11 livros publicados não entrei como personagem. Ele disse que na crônica não havia escapatória. Meu filho, então, disse: “Por que você não escreve sobre vietcong?” Senti-me pequena e humilde, pensei: que é que uma mulher fraca como eu pode falar sobre tantas mortes sem sequer glória, guerras que cortam a vida das pessoas em plena juventude, sem falar nos massacres, em nome de quê, afinal? A gente bem sabe por que e fica horrorizada. Respondi-lhe que deixava os comentários para um Antonio Callado. Mas, de súbito, senti-me impotente, de braços caídos. Pois tudo o que fiz sobre vietcong foi sentir profundamente o massacre e ficar perplexa. E é isso que a maioria de nós faz a respeito: sentir com impotência revolta e tristeza. Essa guerra nos humilha.

Vietcong, Clarice Lispector.


Tolamente, muito tolamente, para uns que não sabiam interpretar sua imensa capacidade de falar sobre as coisas do mundo, Clarice, essa mulher extraordinária, triste, algumas vezes de uma alegria mansa, alegria das descobertas do mundo, dos pequenos dias, das coisas inúteis, essa mulher que soube falar como ninguém da mulher, que soube mostrar o que vai além, o que está por dentro e o que está fora, os sentimentos e pensamentos daquelas consideradas mulherzinhas, as coisas que a gente não diz, as coisas que a gente não faz, as coisas que a gente pensa, que soube falar do amor, da raiva, da delicadeza, do ódio, do ser humano, da violência e da fome, da imensa fome, que soube falar sobre a impotência, sobre o desamor, sobre a brutalidade, que soube escavar, ir fundo, ir além, para o meio das coisas, essa mulher que que tinha uma profundidade absoluta, tolamente, muito tolamente foi acusada - muitas vezes - de ser alienada. Alienados são os que não entendem o que ela fala, sobre o que ela fala. Alienados e insensíveis. Alienados porque insensíveis.


Alienado: Louco, maluco. Que(m), voluntariamente ou não, se mantém distanciado da realidade política e social.

2 commenti:

Gil ha detto...

Que bonito, isso! É do livro?

Camila ha detto...

Lindo né? Não é do livro... É uma crônica do livro "A descoberta do mundo"... Mas foi lendo o livro que vc me deu que lembrei dessa cronicazinha... Entrei numa fase Lispectoriana (como é que fala fase de Lispector???) de novo por sua culpa.

Obrigada! eheheh... :)