
Hoje vim postar um texto que não é meu. Um texto escrito pelo Rodrigo, um amigo, que hoje também nem amigo direito é. Um amigo que poderia ter sido um grande amor, mas que não foi. Ficou sempre no quase. Uma amizade colorida no meio de um namoro cheio de idas e vindas. Uma pessoa que conheci em 2001, quando um professor muito querido (e rígido) criticou severamente a resposta elaborada por um aluno em uma atividade realizada em sala. Rodrigo, ao ouvir as críticas, simplesmente levantou a mão e disse: Professor, este texto é meu! E começaram uma discussão calma, o professor levantando as falhas e Rodrigo defendendo com muita inteligência o que havia escrito. Depois disso, nos cruzamos inúmeras vezes pela faculdade. Nos corredores, nas rodinhas de violão, nas aulas. A verdade é que nunca fomos amantes. Talvez tenha realmente existido uma paixão da parte dele (meu coração já estava bem ocupado quando a amizade de fato começou). Mas amor, amor de homem e mulher nunca tivemos. Acho que fiz Rodrigo sofrer algumas vezes. Mas houve um tempo em que eu realmente acreditei que poderia dar certo. Não deu. O sentimento do Rodrigo não era mais o mesmo. Rodrigo então sofria as dores de um rompimento com uma garota que ele havia amado muito. Eu também havia finalmente terminado o longo namoro que durou quase toda a faculdade. Mas a minha dor era menor, era outra, era pequena talvez. A dele não. E foi ele quem me ligou, convidando para o seu aniversário. Fui ao aniversário e lá estava a ex (que eu nem conhecia, nem sabia que era ex). Feliz, alegre. Percebi que Rodrigo me queria na festa justamente para esquecer aquele sentimento. O que foi impossível. Rodrigo e eu nunca seríamos amantes mesmo. Quando ele escreveu este texto que vou deixar aqui, a gente tinha parado de se ver, de tentar alguma coisa que nunca seria. Há pouco tempo falei com ele por telefone. Mas hoje também é completamente impossível haver alguma coisa entre nós dois. Hoje a dor é minha.
Resolvi contar a historinha porque de certa forma ela é bem mais alegre do que eu aqui, neste domingo, 21 de outubro de 2007. Como não houve amor, também não houve dor. Lembro que chorei exatos doze segundos no colo da Dani, quando li este texto, e depois nunca mais. Bem que todas as dores poderiam durar doze segundos. Mas as dores de amor, quando é amor, duram muito, muito mais. Deixo aqui o texto do Rodrigo porque ele fala exatamente o que eu estou sentindo, exatamente o que estou pensando sobre o amor, sobre as mágoas que vão se acumulando, sobre o ser apaixonado. Espero que vocês leiam até o final, pois é um texto muito bonito.
OBS: Tanto o nome desse meu amigo, quanto o nome da ex que ele cita no texto são fictícios. Ele inventou um quando escreveu e eu inventei outro agora.
Resolvi contar a historinha porque de certa forma ela é bem mais alegre do que eu aqui, neste domingo, 21 de outubro de 2007. Como não houve amor, também não houve dor. Lembro que chorei exatos doze segundos no colo da Dani, quando li este texto, e depois nunca mais. Bem que todas as dores poderiam durar doze segundos. Mas as dores de amor, quando é amor, duram muito, muito mais. Deixo aqui o texto do Rodrigo porque ele fala exatamente o que eu estou sentindo, exatamente o que estou pensando sobre o amor, sobre as mágoas que vão se acumulando, sobre o ser apaixonado. Espero que vocês leiam até o final, pois é um texto muito bonito.
OBS: Tanto o nome desse meu amigo, quanto o nome da ex que ele cita no texto são fictícios. Ele inventou um quando escreveu e eu inventei outro agora.
"tristes amores
Sinto teus pés enroscando-se em meus pés mas não são teus pés, são as patas de Cléo, úmidas de jardim. A tristeza da manhã enfia-se pelas frestas das venezianas, pelos vãos da porta, até preencher o quarto com seu silêncio de espelho. Expirar, aspirar. Cléo entrega-se a meus pés enrolando-se sobre si mesma como se o ar a seu redor fosse líquido ou seu corpo elástico. Aos poucos a manhã me contamina e a tristeza retira-se lentamente, com sua bengala, seus óculos riscados, o Pentateuco debaixo do braço. Todo dia é assim, então converso um pouco com Deus, muita vez me queixo, e ergo-me sobre meu braço direito. Há também a luz ao abrir a janela e o canto dos sabiás que a vizinha espanta em gritos e vassouradas. Estou acordado, respiro, e já começo a ter saudades da velhinha. Pergunto-me onde andará minha garota.
Depois de dois anos namorando a separação foi simples, insípida até. Talvez porque os dois soubessem que jamais estiveram juntos. No fundo nunca entendi aquela mulher e ela tampouco me entendia, éramos de países diferentes e apesar de nos entendermos na cama, o fim do desejo foi uma desculpa honesta para terminarmos. Deixei com Nara dois ou três livros que ainda espero reaver, algumas roupas de que nunca gostei e o que restava de minha crença na redenção pelo amor das mulheres.
Voltei para a casa dos meus pais, lá o sol entrava pela janela superior do sobrado, enchendo de sombras vivas a mesa da biblioteca onde eu me sentava para ler, escrever ou só contemplar o mar de telhados do bairro, um mundo de fios condutores, gatos esguios, sapatos sem par, brinquedos quebrados, esqueletos de pipas, estendendo-se até a linha prateada dos grandes edifícios de escritórios. Um vento suave sacudia as folhas do pinheiro plantado num natal remoto, às vezes um avião passava sobre a casa, apagando o som do rádio com uma violência que por algum motivo fazia todo o sentido para mim. E assim fui aos poucos me lembrando quem eu era e reencontrando uma fé que, mesmo abandonada, pedia apenas um pouco de dedicação para reacender o seu fervor, agora ainda mais intenso, mais seguro.
Lembrei dos sonhos da criança que fui olhando pela janela de casas solitárias, sempre para o céu, sempre para outro céu, para um céu que cobrisse um mar ou uma estrada, ou talvez uma nave espacial. Depois os sonhos pediram mais substância, enganava-lhes com paisagens e personagens exóticos que inventava, então os sonhos tornaram-se mulheres lindas, um charme absoluto as mantinha suspensas alguns centímetros do chão. Essas mulheres também tinham nomes exóticos, muitas vezes retirados das estrelas do cinema que inspiraram sua criação: Brigite, Sandra, Glenda... mulheres que até hoje trago vivas em mim e ainda satisfazem os desejos mais sublimes ou sacanas de uma noite solitária. Depois de muito tentar aceitei que tais mulheres jamais possam se materializar _ não por serem falsas, mas verdadeiras demais_ e no entanto elas se mantêm como essência do que chamo beleza feminina, que descobri aos dez anos de idade com uma surpresa que desde então nunca foi igualada.
A distância a que a beleza sempre se manteve de nós, condição a que sofregamente no submetemos. A beleza das pessoas que conheci, de suas histórias, de suas existências confusas e desonestas. Histórias que nunca hesitei em incrementar ao contar, infundindo-lhes novos acontecimentos mas sem jamais violar seu sentido, o fundo, mudava apenas os tons e aparava as bordas, e é só.
Não sei mais qual foi a primeira escola onde estudei (tenho de distinguí-la entre a lembrança de outra dúzia de escolas que freqüentei, o que não é nada fácil de fazer com memórias de nossos sete ou oito anos de idade). Lembro-me da escola onde apaixonei-me pela primeira vez, por uma garota de longos cabelos cacheados que ficavam lindos iluminados pelo sol da manhã de uma segunda-feira. Aquilo me lembrava calda de caramelo, dava uma vontade de provar, de tocar aqueles cachinhos dourados. Aconteceu naquela cidade do interior onde fomos morar quando meu pai descobriu que ‘agora que trabalhava em casa, não queria mais o pano de fundo de uma grande metrópole na sua vida’. A garota chamava-se Taís e eu mal conseguia falar com ela que, naturalmente, tratava-me com o mais frio dos desprezos. Eu era um idiotinha que gostava de cuspir sobre formigueiros e passar tardes lendo gibis, mas não era por isso que ela me torturava. A indiferença dos que são alvo do amor alheio vem quase sempre pontuada de uma crueldade impiedosa que talvez se origine numa inveja _ não poder enxergar o mundo com os olhos do apaixonado, o que é indizivelmente ofensivo _ ou de uma revolta íntima _ a pessoa dentro da imagem reclama sua soberania, seu direito à existência pela perenidade, o que faz muito sentido afinal de contas, pois minha paixão era menos pela garota gentil e alegre que Taís provavelmente era do que pela imagem de seus cabelos iluminados pelo sol que espirrava pelas copas das grandes árvores do pátio pela manhã. Minha paixão oscilava na medida em que a imagem diante dos meus olhos se assemelhasse a uma imagem anterior e imóvel, o quadro no altar de minha paixão. Custou-me uma semana de febre esse primeiro amor e foi-se junto com a doença. Um dia acordei aliviado, não estava cheio de angústia como costumava ficar ao acordar, minha cabeça não doía, sentia que se havia terminado uma grande tempestade. Mas algo incomodava, era como uma pequena tristeza, uma primeira tristeza de verdade que nunca me abandonou. Saí da cama num pequeno passeio pelo sítio, desci a escada de pedra que levava ao campinho de futebol, continuei andando até a entrada do sítio, do nosso esconderijo, que dava para a estrada cheia de curvas por onde chegávamos à cidade. A estrada estava vazia como sempre e eu sentei ali, no acostamento, no limite entre o asfalto e a faixa de terra do acostamento, embaixo dos eucaliptos que eram mais novos e mais altos do que eu. O sítio então me pareceu pequeno, tão pequeno e desprotegido que tive de chorar então, chorar porque a vida podia ser assim, um pedaço de terra numa estrada vazia, então pedi a Deus que me protegesse, que me protegesse...E a minha infância, o que eu chamo de infância, essa luminosidade imaculada, isso nunca mais voltou.
As mulheres que cruzaram meu caminho, ainda tenho saudades de todas elas. Algumas fizeram-me sofrer como um cão, outras fui eu que deixei chorando, não importa, sentados numa escada, num banco de praça, num sofá velho, no hall escuro de um apartamento, numa rua deserta ou numa avenida fervilhante, os amantes abandonados estão sozinhos e nus, como um corpo sem espírito ou um objeto bem leve, uma folha caída, um pedaço de papel. Uma brisa leve pode levá-los embora para sempre. Hoje, porém, lembro de meus amores tristes e dos menos felizes ainda e vejo que são preciosos para mim, quero guardá-los debaixo do travesseiro como minha lembranças prediletas, prontas para serem evocadas, situação em que emitem um brilho desconhecido como se fossem objetos fluorescentes."
2 commenti:
Sabia que ia me sobrar um tempinho... O texto é realmente muito bonito.
E vc é lindíssima, Aninha. Um beijo.
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