
"06/10/2007 - 13h33 (da Folha Online)
Pais ingleses queimam livros infantis sem final feliz
Pais ingleses queimam livros infantis sem final feliz
da Ansa, em Londres
Uma associação de pais britânicos, a favor de queimar os livros infantis sem final feliz, organizou para o fim deste mês uma série de "Fogueiras dos Livros Maus", convidando outros pais a levarem os volumes "pouco alegres" para jogá-los ao fogo, informou o "Daily Mail".
A "Happy Ending Foundation" considera que a vida já submete as crianças a amarguras e "coisas feias" demais e, por isso, é preciso "protegê-los" contra as histórias "deprimentes".
Além disso, por ocasião da Semana dos Livros Infantis, que começa na próxima segunda-feira, os pais da entidade escreveram para bibliotecas e escolas, convidando os responsáveis dessas instituições a tirarem de sua estantes os livros que julgarem "controversos".
As reações foram imediatas e, em sua maioria, negativas: para alguns, a "Happy Ending Foundation" lembra os nazistas, que queimavam publicamente os livros que não aprovavam.
Para o autor de livros infantis Kevin Brooks, "as controvérsias e as coisas negativas se encontram em qualquer lugar. É melhor descobri-las nos livros, onde está escrito com paixão, poesia e força".
Para outros, como a associação de defesa das crianças Kidscape, as leituras infantis devem ser "equilibradas" e não devem evitar certos assuntos, "condenando a perder a magia da literatura. Os livros permitem experimentar emoções, mantendo uma distância. É algo saudável".
Entre os livros criticados pela "Happy Ending Foundation" está a coleção "Desventuras em Séries", de Lemony Snicket, e "Matias e as pedras mágicas", de Marcus Pfister.
A fundadora da associação, Adrienne Small, decidiu criar a entidade em 2000, quando sua filha se sentiu deprimida depois de ler um livro da série de Lemony Snicket: "Falamos com outros pais e decidimos fazer algo positivo, com livros mais alegres. Não digo que o mundo deve ser apenas cor-de-rosa, mas é preciso fazer o possível para proteger as crianças".
Na Inglaterra, há 11 grupos locais ligados à associação."
Há um tempão queria publicar aqui a minha indignação. Com tanta coisa acontecendo, acabei esquecendo.
Então tá. É só juntar esta notícia com a fala de uma psicóloga tão, tão entendida da vida, ai, ai... Uma psicóloga que disse, numa reportagem da revista Vida Simples, não lembro em qual mês, que as pessoas estão demorando pra sair da casa dos pais porque lêem muitos livros infantis. Na época dela, criança lia livros "adultos" e citou uma série de livros clássicos. E agora criança lê coisas infantilizadas. Ai, meu Deus. Lá estou eu fora das estatísticas de novo. Pretendo continuar lendo livros infantis por toda a vida. E não moro com meus pais há anos. Claro, livros infantis "infantilizam". Claro, livros infantis com final triste devem ser queimados em praça pública! Num mundo tão lindo, com pessoas tão perfeitas... Sem nada de feio, somente alegria, amor, sinceridade. Nem tem violência na nossa realidade. Para que criar um mundo assim nos livros infantis???
E se o mundo é feio, injusto, mau, o correto é proteger as crianças disso tudo. Vamos fingir que não há inveja, nem maldade, nem ciúme, nem raiva, nem ódio, nem mau humor. Coitadas das crianças... Coitadinhas... Contos de fadas com mortes? Com rainhas más???? Não. Vamos pôr só personagens bonzinhos. Nada de antagonistas, nada de desastres, nada de mortes. E tem gente que morre nesse mundo? Claro que não. Tá todo mundo vivinho da silva. Ai, ai. O negócio é mudar as músicas infantis mesmo. Atirar o pau no gato não dá, né? Que violência! Cantar boi da cara preta para as crianças??? Coitadas. Vamos mudar as músicas, vamos mudar as histórias. E pra que histórias mesmo? E como histórias assim, sem enredo? Então existia uma linda princesa feliz e alegrinha. E um dia. Não tem um dia. E ela casa com o príncipe e vivem todos felizes para sempre.
Lembro das palavras de um estudioso de literatura oral que ouvi esses dias: A gente canta, a gente fala, a gente conta histórias para espantar o mal, aquilo que julgamos mal. Quem canta seus males espanta. Ainda tem gente com juízo nesse mundo.
E sabe o que eu acho dessas organizações que destroem livros com final triste? E dessas psicólogas que dizem que ler livro infantil deixa a pessoa atrasada, infantilizada??? Sabe o que eu acho??? Que tem muita gente besta opinando sobre coisas sérias. Quando comecei a estudar literatura infantil senti isso. Por que levamos tão a sério a literatura "adulta"? Tantos textos bons, tanta gente interessante lendo, escrevendo? E pra que tanta besteira sobre os livros infantis? Literatura infantil é coisa séria. Eu ainda nem me arrisco a opinar direito. É preciso ler, saber, compreender para sair dizendo. Criança é coisa séria. Educação é coisa séria. Brincar é coisa séria.
Eu leio livros infantis até hoje. E gosto deles. E encontro neles coisas, formas de dizer, de pensar, de sentir o mundo, as dores, as violências, as tristezas, muito diferentes das que encontro nos livros de "adulto". Não que sejam melhores. São apenas diferentes. Não é para subtrair mas para somar leituras. Espero que essa mania de falar besteira sobre as histórias infantis mude. Pois literatura, todas elas, são seríssimas, importantíssimas. Ainda que muitas pessoas considerem que ler é apenas lazer. Que as coisas importantes são outras. A comida, a bebida, a roupa, o planeta e as árvores. (Outras ainda acham que é o dinheiro, o poder... Mas dessas eu prefiro nem falar neste momento!). Claro que tudo isso é importante. Mas cá entre nós: sem literatura, sem histórias não há vida. Pelo menos o que eu considero vida, o que eu considero viver. E não há como "proteger" as crianças. E que crianças??? Tantas crianças desprotegidas na vida real, convivendo com monstros muito mais cruéis, com dores muito mais agudas... Para proteger é preciso cuidar do mundo. E saber que nós não somos apenas as coisas bonitas. Então queremos crianças que achem que tudo será sempre colorido? Crianças profundamente desligadas da realidade? As histórias, os mitos, as fábulas são apenas reflexos do nosso mundo, dos nossos pensamentos, da nossa vida. Os contos de fadas, os contos maravilhosos não têm a função de retirar as crianças, os adultos (e quem quer que seja) do mundo. O que eles fazem é recriar o que existe, com roupas de magia, de sonhos. Com roupas de fantasia. Acho que eles ensinam muito mais do que textos "sérios". Acho que adultos também deveriam ler contos de fadas, livros infantis. Acho que é preciso acabar com essa seriedade toda. Defendi isso uma vez em uma monografia. Por que tudo o que é maravilhoso virou assunto de criança? E vocês não sabem... Até as crianças andam achando contos de fadas coisa de criança. Coisa de bebê. Meus aluninhos de 11 anos disseram isso esta semana. Mas aos poucos, entre uma conversa e outra, entre uma história e outra começaram a se interessar, a ouvir.
Entre os que querem queimar livros com histórias sem final feliz e os que acham que livros infantis transformam as crianças e os futuros adultos em crianções há tanta diferença. A semelhança é que é tudo besteira. Quanta besteira junta.
Repito: literatura infantil é coisa séria. Muito séria.
3 commenti:
Ai, meu Deus! Com esses loucos soltos por aí, já tô com medo de ter os meus filhotes.
Concondo plenamente com você, e me assusta saber que crianças de 11 anos estão querendo virar gente grande tão rápido.
Tadinhos...
Mel pergunta com cara de espanto:
"Jura que essa notícia é verdade?"
Pior é que é verdade mesmo. Gente doida!!! Beijos!!!
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