China usou cantora falsa em festa de abertura
"A menina chinesa que supostamente cantou "Ode à Pátria" durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim fez playback porque a verdadeira cantora não era bonita o suficiente para representar a China, admitiu o diretor musical do espetáculo.
'Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação', declarou Chen Qigang em entrevista à televisão chinesa, que também chegou a ser divulgada no portal Sina.com, antes de ser deletado do site.
Nesta terça-feira, a imprensa chinesa publica várias fotos de Lin Miaoke, de nove anos, que é tratada como uma 'estrela em ascensão'. Porém, não diz nada sobre Yang Peiyi, uma menina gordinha de sete anos com os dentes fora do lugar, mas com grande voz.
'Era uma questão de interesse nacional. A criança que apareceria diante das câmeras tinha que ser expressiva', justificou Chen, célebre compositor chinês.
'Lin Miaoke é excelente para tudo isto. Porém, no que diz respeito à voz, Yang Peiyi é perfeita. Toda a equipe concordou', acrescentou o diretor musical.
A menina se apresentou na última sexta-feira durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos diante de 91.000 pessoas no estádio Ninho do Pássaro e de bilhões de telespectadores de todo o mundo"
Terra - Notícias
Pode uma coisa dessas??????? Fiquei imaginando o quanto a menina cantora deve ter ficado chateada... E, sinceramente, não vi grandes diferenças entre as duas. Como dizer que uma é feia e outra é bonita? Baseando-se em que critérios? E para quê????
O que ensinamos quando separamos crianças dessa maneira? Como professora de pequenas e pequenos (e de alguns já bem grandinhos atualmente) que seguem ou não os padrões de beleza atuais, eu me revolto muito com essas coisas. Encontramos meninas (principalmente meninas...) alisando os cabelos desde os 11 anos, ficando loiras, ruivas, tomando remédios para emagrecer... Não consigo entender o que se passa na cabeça de uma mãe de uma menina de menos de 12 anos, cheia de cachinhos (que eu achava lindos, diga-se de passagem), para permitir que ela alisasse o cabelo com produtos fortes, só para parecer com as coleguinhas e "para ficar mais bonita". Que beleza é essa que estamos ensinando? Eu sei, eu sei, eu sei. Isso vem de muitos anos. Mulheres usavam espartilhos, verdadeiras correntes para parecerem mais acinturadas. Mulheres ainda hoje usam saltos finíssimos "para seduzir" o sexo oposto. "Para ficar bonita tem que sofrer" diz uma voz no salão de beleza... Voz que vem de muito tempo atrás. Desde sempre meninas e meninos, mulheres e homens sofrem com os padrões, sofrem para se aproximarem de um corpo que é tido como perfeito. Nas fotos dos anos 80 todas as tias e mãe e mocinhas exibiam os cabelos com permanente e quase sempre repicados. Um horror ao nosso olhar de 2008. Hoje os cabelos andam tão, mas tão lisos que até assusta, os fios nem se mexem mais. Hoje se vamos ao salão cortar as madeixas saímos de lá com os cabelos mais lisos e esticados do mundo, mesmo quando protestamos. E olha que o meu cabelo que já é liso o bastante... Não, eles sempre dão um jeito de esticar mais, de tirar todo o movimento, toda e qualquer ondinha que se apresente.
Confesso que gosto de cachinhos. E de cabelos lisos. E de cabelos ondulados, crespos... Gosto de gordinhos e gordinhas, de gente bem magra e de gente bem diferente. Gosto de encontrar gente que ouve música diferente, que come coisas diferentes. Não é um gosto pelo diferente em geral, é um gosto por olhar o mundo e perceber milhares de pessoas, milhares de mundos, de possibilidades. Me irrita uma única música martelando, ainda que seja a minha preferida. Me irrita se todo mundo de uma hora pra outra resolve vestir azul, que graça que tem o mundo com todo mundo vestindo a mesma cor?
Ok, a minha discussãozinha é deveras clichê, em cada esquina tem alguém falando sobre padrões e mídia e o cacete. Mas é o meu desabafo. É o olhar de uma professora que gosta de olhar pra sala e ver o Henrique tão diferente do Igor, que é tão diferente do Vitor, que é tão diferente do Fernando. Claro que a tendência - e a cobrança da escola - acaba fazendo com que o nosso olhar para o aprendizado deles seja padrão, o que é um erro, contra o qual luto muitas vezes. Cada um é cada um. Cada um tem seu tempo de aprender, seu direito a aprender e a não querer aprender também. Não dá para fazer o aluno engolir goela a baixo o bendito livro que você escolheu. E não dá para deixar de escolher. Quando vejo que estou esquecendo que cada aluno é um ser próprio, tem a sua identidade, as suas peculiaridades, o seu mundo, os seus gostos, me decepciono e viro a chavinha. Penso comigo mesma: Ele não tira 10 na prova e daí? Nem sempre o que tira 10 é o que mais entendeu o que você quis dizer e mesmo que seja... E daí? É apenas uma diferença.
O que eu quero dizer com todo esse papinho de professorinha (e eu sou professorinha com muito orgulho e carinho) é que (porra!!!) o mundo é feito de diferentes. O que seria do azul se todos gostassem do verde? Não é essa a fala que os pais dizem para os pequenos? (é pelo menos o que a minha mãe me dizia quando eu era pequena). O que será do mundo se todos continuarmos a alisar os cabelos, a ouvir as mesmas coisas, a ver os mesmos filmes, sempre, sempre, sempre? Para que obrigar as pessoas a seguirem a mesma receita, a mesma cartilha? No entanto é fácil escorregar e se ver diante do espelho, apontando um ou outro defeito, uma ou outra incapacidade. Eu não tenho filhos (ainda) mas desejo um mundo mais bonito para os filhos dos outros, para os meus alunos, para todos. Bonito no sentido de compreensivo, de menos cruel, de menos competitivo, de mais aberto a entender as diferenças de cada um, os limites de cada um.
Me entristece ver uma aluna (ou um aluno) chorando (como vi esses dias) por motivos bobos, por não seguir esse ou aquele padrão de beleza, de inteligência... Por não ser tão bom no basquete ou no futebol ou no jazz... Por ter um ritmo mais lento do que os outros para aprender ou mesmo por compreender de forma diferente... Por possuir outra religião, outros sonhos, outras vontades, outros desejos. Por desejar alguém do mesmo sexo. Por desenhar mal. Por não saber cantar. Por ter os dentes tortinhos como a pequena chinesinha cantora.
Alguém virá me dizer que esse mundo de discriminação é próprio da criança e eu direi: é uma ova! Pra quem já ouviu a aluna de quatro aninhos dizer que não gosta de pessoas de cor marrom... Não acho que aos quatro anos alguém consiga separar o que o pai pensa dos seus próprios pensamentos e vejo, claramente, nos preconceitos, no posicionamento político, na forma de encarar o mundo e o relacionamento com o outro dos meus alunos, os seus próprios pais. Eles são pequenos espelhinhos dos pais, dos irmãos, dos tios, das pessoas grandes com que convivem. Tá na hora dessas pessoas grandes mudarem a forma de agir, de pensar, de falar. Tá na hora dessas pessoas grandes repensarem o que estão ensinando para seus filhos, sobrinhos, irmãos. A menos que queiramos continuar criando pequenos monstrinhos, que alisam o cabelo e chamam o cabelo da coleguinha de vassoura, que tomam remédio para emagrecer e choram, aos 10 anos, por possuírem a estrutura física maior. Não estou falando de obesidade infantil, coisa que existe e que é assunto seríssimo. Estou falando de alunos saudáveis, crianças, inclusive, que ainda nem têm o corpo formado, mas que brigam com a balança, humilham os outros e sofrem humilhações, querendo atingir o inatingível.
Estou falando de um mundo em que pega uma cantora pequenina e diz que ela não poderá entrar no palco pois é considerada uma menina feia. Não me venham com papo de que estou dizendo que a China isso ou a China aquilo. Não estou falando da China, ok? Estou falando de algo que poderia ter acontecido em qualquer lugar. E que acontece muitas e muitas vezes, ainda que seja por debaixo dos panos. Ou mesmo escancaradamente. São meninos e meninas que querem ser de determinada maneira porque a moça da TV é. É silicone em todos os peitos. Antes a moda era ter peitos pequeninos e as peitudas sofriam. Agora é moda cada vez mais e mais peito. Lembro de uma amiga, que tem muito pouco peito, descrevendo a cirugia que ela diz que nunca fará: "Como é que alguém manda abrir o peito para enfiar um plástico?" Concordo em gênero, número e grau. Tenho amigas queridíssimas que são malucas para botar silicone. Já discuti com algumas, tentando falar o que penso e ouvi um "também você não precisa, é fácil falar assim...". Não preciso? Olha, não sou uma moça de muito grandes nem de muito pequenos peitos.. rs. Mas pelo andar da carruagem, pela quantidade de silicone que as moçoilas andam colocando no peito, o meu está quase virando muito pequeno... rs.
Não, eu não sou contra todas as cirurgias plásticas. Não é isso. Tenho uma grande amiga, inclusive, que operou sutilmente o nariz (digo sutilmente porque é quase imperceptível) para retirar um ossinho que a incomodava muito. O nariz mudou quase nada e a moça continou linda como sempre. E ainda com a auto-estima melhorada. Procurou seguir os padrões de estética? Procurou, sim. Mas é um caso. O que me assusta é quando todo mundo quer operar o nariz, o seio, a bunda, a barriga, a orelha, a vagina... rs. "Nariz de batata" não é harmônico, é melhor operar, disse um médico para uma amiga da minha irmã que tinha ido consultá-lo para operar o peito. O médico disse: seu peito é ótimo, mas o seu nariz... E lá se foi a moça operar o nariz. É, porque nariz bonito é de branco, nada que lembre os antepassados negros. Cabelo bom também é de branco. E negro bonito é o que tem "traços delicados", em outras palavras, traços de brancos. É assim que funciona.
Que me perdoem as minhas amigas que alisam as madeixas, que me perdoem algumas das minhas tias. Que me perdoem as que querem e sonham com o silicone. Eu mesma tenho vontade de mudar um tantinho isso ou um tantinho aquilo. Estou longe de deixar de ser influenciável, tenho lá as minhas neuras. Vivo nesse mundo, participo dessa sociedade, procuro buscar um meio termo razoável. Quero poder ser diferente sem olhares discriminatórios. E expressar o que julgo ser bonito. Quero ter o direito de ver da minha maneira a beleza dos outros. Ok, meu olhar - e de todos - ainda está dia ou outro viciado. Mas conservo desde pequena a mania de olhar diferente para as coisas do mundo, de estranhá-las e é a partir desse estranhamento que construo a minha forma de sentir. Já convivi com pessoas que impunham o padrão para tudo e sofri horrores por não me enquadrar. Todos já vivemos isso, eu acho. Mas também já convivi - e isso me enriqueceu muito - com um monte de gente que gosta de ver o mundo com outros olhos. Claro, mesmos esses não são perfeitos - ninguém é. Vez ou outra caem nas armadilhas dos padrões, nas guerras, nas imposições do "todo mundo igual". Mas lutam contra isso, lutam contra esses olhos que a mídia, que a escola, que as igrejas, que o governo, que as pessoas... Lutam contra esse olho que quer ver por eles, lutam pelo direito de poder enxergar com os próprios olhos e com os próprios olhos decidir, sentir o que é o bonito e o que é o feio.
Já estou até imaginando o Junior (que aliás nunca vem aqui..rs) dizendo: mas isso é cultura, não podemos nos excluir disso e mesmo quando achamos que estamos sendo diferentes acabamos sendo iguais, nunca é a nossa voz que diz, sempre há um coletivo e tal e tal e tal. (Será que o Junior diria isso mesmo? Se não fosse o Junior seria/será um outro/a). Mas sei lá, viu. Acho ainda que podemos tentar desacostumar o olhar e perceber o quanto infantis estamos sendo ao levar uma menina de 11 anos ao cabeleireiro e mandá-lo alisar o seu cabelo. Infantis e criminosos. Isso não se faz com uma criança. Os pais, irmãos, tios (e mesmo os professores, não me excluo) são espelhos para os quais a crianças olha, procurando se identificar, buscando modelos de comportamento. E que modelos que estamos apresentando? Mães e pais malucos para aparentarem 20 anos a menos. Silicones, lipos, alisamentos, remédios... O que mais? E em seguida antidepressivos e mais antidepressivos. Fora uma série de outras coisas menos palpáveis. O que será que estamos ensinando para essas crianças???
Sei lá, mas essa coisa da chinesinha que não pôde mostrar seu rostinho para o grande público porque é gordinha, tem os dentes tortos e é não é considerada 'expressiva' me irritou. Então ela precisa endireitar os dentes, emagrecer e fazer o que mais para poder aparecer fazendo o que sabe fazer???
Essas coisas me deixam deveras chateada. Penso nos meus aluninhos... Esse mundo que estamos fazendo está todo errado. E é desse mundo que eles retiram seus alimentos. É nesse mundo que eles estão aprendendo a ser, a sentir.
O que estamos ensinando para os nossos pequenos?
'Queríamos passar uma imagem perfeita e pensamos no que seria melhor para a nação', declarou Chen Qigang em entrevista à televisão chinesa, que também chegou a ser divulgada no portal Sina.com, antes de ser deletado do site.
Nesta terça-feira, a imprensa chinesa publica várias fotos de Lin Miaoke, de nove anos, que é tratada como uma 'estrela em ascensão'. Porém, não diz nada sobre Yang Peiyi, uma menina gordinha de sete anos com os dentes fora do lugar, mas com grande voz.
'Era uma questão de interesse nacional. A criança que apareceria diante das câmeras tinha que ser expressiva', justificou Chen, célebre compositor chinês.
'Lin Miaoke é excelente para tudo isto. Porém, no que diz respeito à voz, Yang Peiyi é perfeita. Toda a equipe concordou', acrescentou o diretor musical.
A menina se apresentou na última sexta-feira durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos diante de 91.000 pessoas no estádio Ninho do Pássaro e de bilhões de telespectadores de todo o mundo"
Terra - Notícias
Pode uma coisa dessas??????? Fiquei imaginando o quanto a menina cantora deve ter ficado chateada... E, sinceramente, não vi grandes diferenças entre as duas. Como dizer que uma é feia e outra é bonita? Baseando-se em que critérios? E para quê????
O que ensinamos quando separamos crianças dessa maneira? Como professora de pequenas e pequenos (e de alguns já bem grandinhos atualmente) que seguem ou não os padrões de beleza atuais, eu me revolto muito com essas coisas. Encontramos meninas (principalmente meninas...) alisando os cabelos desde os 11 anos, ficando loiras, ruivas, tomando remédios para emagrecer... Não consigo entender o que se passa na cabeça de uma mãe de uma menina de menos de 12 anos, cheia de cachinhos (que eu achava lindos, diga-se de passagem), para permitir que ela alisasse o cabelo com produtos fortes, só para parecer com as coleguinhas e "para ficar mais bonita". Que beleza é essa que estamos ensinando? Eu sei, eu sei, eu sei. Isso vem de muitos anos. Mulheres usavam espartilhos, verdadeiras correntes para parecerem mais acinturadas. Mulheres ainda hoje usam saltos finíssimos "para seduzir" o sexo oposto. "Para ficar bonita tem que sofrer" diz uma voz no salão de beleza... Voz que vem de muito tempo atrás. Desde sempre meninas e meninos, mulheres e homens sofrem com os padrões, sofrem para se aproximarem de um corpo que é tido como perfeito. Nas fotos dos anos 80 todas as tias e mãe e mocinhas exibiam os cabelos com permanente e quase sempre repicados. Um horror ao nosso olhar de 2008. Hoje os cabelos andam tão, mas tão lisos que até assusta, os fios nem se mexem mais. Hoje se vamos ao salão cortar as madeixas saímos de lá com os cabelos mais lisos e esticados do mundo, mesmo quando protestamos. E olha que o meu cabelo que já é liso o bastante... Não, eles sempre dão um jeito de esticar mais, de tirar todo o movimento, toda e qualquer ondinha que se apresente.
Confesso que gosto de cachinhos. E de cabelos lisos. E de cabelos ondulados, crespos... Gosto de gordinhos e gordinhas, de gente bem magra e de gente bem diferente. Gosto de encontrar gente que ouve música diferente, que come coisas diferentes. Não é um gosto pelo diferente em geral, é um gosto por olhar o mundo e perceber milhares de pessoas, milhares de mundos, de possibilidades. Me irrita uma única música martelando, ainda que seja a minha preferida. Me irrita se todo mundo de uma hora pra outra resolve vestir azul, que graça que tem o mundo com todo mundo vestindo a mesma cor?
Ok, a minha discussãozinha é deveras clichê, em cada esquina tem alguém falando sobre padrões e mídia e o cacete. Mas é o meu desabafo. É o olhar de uma professora que gosta de olhar pra sala e ver o Henrique tão diferente do Igor, que é tão diferente do Vitor, que é tão diferente do Fernando. Claro que a tendência - e a cobrança da escola - acaba fazendo com que o nosso olhar para o aprendizado deles seja padrão, o que é um erro, contra o qual luto muitas vezes. Cada um é cada um. Cada um tem seu tempo de aprender, seu direito a aprender e a não querer aprender também. Não dá para fazer o aluno engolir goela a baixo o bendito livro que você escolheu. E não dá para deixar de escolher. Quando vejo que estou esquecendo que cada aluno é um ser próprio, tem a sua identidade, as suas peculiaridades, o seu mundo, os seus gostos, me decepciono e viro a chavinha. Penso comigo mesma: Ele não tira 10 na prova e daí? Nem sempre o que tira 10 é o que mais entendeu o que você quis dizer e mesmo que seja... E daí? É apenas uma diferença.
O que eu quero dizer com todo esse papinho de professorinha (e eu sou professorinha com muito orgulho e carinho) é que (porra!!!) o mundo é feito de diferentes. O que seria do azul se todos gostassem do verde? Não é essa a fala que os pais dizem para os pequenos? (é pelo menos o que a minha mãe me dizia quando eu era pequena). O que será do mundo se todos continuarmos a alisar os cabelos, a ouvir as mesmas coisas, a ver os mesmos filmes, sempre, sempre, sempre? Para que obrigar as pessoas a seguirem a mesma receita, a mesma cartilha? No entanto é fácil escorregar e se ver diante do espelho, apontando um ou outro defeito, uma ou outra incapacidade. Eu não tenho filhos (ainda) mas desejo um mundo mais bonito para os filhos dos outros, para os meus alunos, para todos. Bonito no sentido de compreensivo, de menos cruel, de menos competitivo, de mais aberto a entender as diferenças de cada um, os limites de cada um.
Me entristece ver uma aluna (ou um aluno) chorando (como vi esses dias) por motivos bobos, por não seguir esse ou aquele padrão de beleza, de inteligência... Por não ser tão bom no basquete ou no futebol ou no jazz... Por ter um ritmo mais lento do que os outros para aprender ou mesmo por compreender de forma diferente... Por possuir outra religião, outros sonhos, outras vontades, outros desejos. Por desejar alguém do mesmo sexo. Por desenhar mal. Por não saber cantar. Por ter os dentes tortinhos como a pequena chinesinha cantora.
Alguém virá me dizer que esse mundo de discriminação é próprio da criança e eu direi: é uma ova! Pra quem já ouviu a aluna de quatro aninhos dizer que não gosta de pessoas de cor marrom... Não acho que aos quatro anos alguém consiga separar o que o pai pensa dos seus próprios pensamentos e vejo, claramente, nos preconceitos, no posicionamento político, na forma de encarar o mundo e o relacionamento com o outro dos meus alunos, os seus próprios pais. Eles são pequenos espelhinhos dos pais, dos irmãos, dos tios, das pessoas grandes com que convivem. Tá na hora dessas pessoas grandes mudarem a forma de agir, de pensar, de falar. Tá na hora dessas pessoas grandes repensarem o que estão ensinando para seus filhos, sobrinhos, irmãos. A menos que queiramos continuar criando pequenos monstrinhos, que alisam o cabelo e chamam o cabelo da coleguinha de vassoura, que tomam remédio para emagrecer e choram, aos 10 anos, por possuírem a estrutura física maior. Não estou falando de obesidade infantil, coisa que existe e que é assunto seríssimo. Estou falando de alunos saudáveis, crianças, inclusive, que ainda nem têm o corpo formado, mas que brigam com a balança, humilham os outros e sofrem humilhações, querendo atingir o inatingível.
Estou falando de um mundo em que pega uma cantora pequenina e diz que ela não poderá entrar no palco pois é considerada uma menina feia. Não me venham com papo de que estou dizendo que a China isso ou a China aquilo. Não estou falando da China, ok? Estou falando de algo que poderia ter acontecido em qualquer lugar. E que acontece muitas e muitas vezes, ainda que seja por debaixo dos panos. Ou mesmo escancaradamente. São meninos e meninas que querem ser de determinada maneira porque a moça da TV é. É silicone em todos os peitos. Antes a moda era ter peitos pequeninos e as peitudas sofriam. Agora é moda cada vez mais e mais peito. Lembro de uma amiga, que tem muito pouco peito, descrevendo a cirugia que ela diz que nunca fará: "Como é que alguém manda abrir o peito para enfiar um plástico?" Concordo em gênero, número e grau. Tenho amigas queridíssimas que são malucas para botar silicone. Já discuti com algumas, tentando falar o que penso e ouvi um "também você não precisa, é fácil falar assim...". Não preciso? Olha, não sou uma moça de muito grandes nem de muito pequenos peitos.. rs. Mas pelo andar da carruagem, pela quantidade de silicone que as moçoilas andam colocando no peito, o meu está quase virando muito pequeno... rs.
Não, eu não sou contra todas as cirurgias plásticas. Não é isso. Tenho uma grande amiga, inclusive, que operou sutilmente o nariz (digo sutilmente porque é quase imperceptível) para retirar um ossinho que a incomodava muito. O nariz mudou quase nada e a moça continou linda como sempre. E ainda com a auto-estima melhorada. Procurou seguir os padrões de estética? Procurou, sim. Mas é um caso. O que me assusta é quando todo mundo quer operar o nariz, o seio, a bunda, a barriga, a orelha, a vagina... rs. "Nariz de batata" não é harmônico, é melhor operar, disse um médico para uma amiga da minha irmã que tinha ido consultá-lo para operar o peito. O médico disse: seu peito é ótimo, mas o seu nariz... E lá se foi a moça operar o nariz. É, porque nariz bonito é de branco, nada que lembre os antepassados negros. Cabelo bom também é de branco. E negro bonito é o que tem "traços delicados", em outras palavras, traços de brancos. É assim que funciona.
Que me perdoem as minhas amigas que alisam as madeixas, que me perdoem algumas das minhas tias. Que me perdoem as que querem e sonham com o silicone. Eu mesma tenho vontade de mudar um tantinho isso ou um tantinho aquilo. Estou longe de deixar de ser influenciável, tenho lá as minhas neuras. Vivo nesse mundo, participo dessa sociedade, procuro buscar um meio termo razoável. Quero poder ser diferente sem olhares discriminatórios. E expressar o que julgo ser bonito. Quero ter o direito de ver da minha maneira a beleza dos outros. Ok, meu olhar - e de todos - ainda está dia ou outro viciado. Mas conservo desde pequena a mania de olhar diferente para as coisas do mundo, de estranhá-las e é a partir desse estranhamento que construo a minha forma de sentir. Já convivi com pessoas que impunham o padrão para tudo e sofri horrores por não me enquadrar. Todos já vivemos isso, eu acho. Mas também já convivi - e isso me enriqueceu muito - com um monte de gente que gosta de ver o mundo com outros olhos. Claro, mesmos esses não são perfeitos - ninguém é. Vez ou outra caem nas armadilhas dos padrões, nas guerras, nas imposições do "todo mundo igual". Mas lutam contra isso, lutam contra esses olhos que a mídia, que a escola, que as igrejas, que o governo, que as pessoas... Lutam contra esse olho que quer ver por eles, lutam pelo direito de poder enxergar com os próprios olhos e com os próprios olhos decidir, sentir o que é o bonito e o que é o feio.
Já estou até imaginando o Junior (que aliás nunca vem aqui..rs) dizendo: mas isso é cultura, não podemos nos excluir disso e mesmo quando achamos que estamos sendo diferentes acabamos sendo iguais, nunca é a nossa voz que diz, sempre há um coletivo e tal e tal e tal. (Será que o Junior diria isso mesmo? Se não fosse o Junior seria/será um outro/a). Mas sei lá, viu. Acho ainda que podemos tentar desacostumar o olhar e perceber o quanto infantis estamos sendo ao levar uma menina de 11 anos ao cabeleireiro e mandá-lo alisar o seu cabelo. Infantis e criminosos. Isso não se faz com uma criança. Os pais, irmãos, tios (e mesmo os professores, não me excluo) são espelhos para os quais a crianças olha, procurando se identificar, buscando modelos de comportamento. E que modelos que estamos apresentando? Mães e pais malucos para aparentarem 20 anos a menos. Silicones, lipos, alisamentos, remédios... O que mais? E em seguida antidepressivos e mais antidepressivos. Fora uma série de outras coisas menos palpáveis. O que será que estamos ensinando para essas crianças???
Sei lá, mas essa coisa da chinesinha que não pôde mostrar seu rostinho para o grande público porque é gordinha, tem os dentes tortos e é não é considerada 'expressiva' me irritou. Então ela precisa endireitar os dentes, emagrecer e fazer o que mais para poder aparecer fazendo o que sabe fazer???
Essas coisas me deixam deveras chateada. Penso nos meus aluninhos... Esse mundo que estamos fazendo está todo errado. E é desse mundo que eles retiram seus alimentos. É nesse mundo que eles estão aprendendo a ser, a sentir.
O que estamos ensinando para os nossos pequenos?

7 commenti:
O Ocidente chegou à China ou a China chegou ao Ocidente?
Camila em crise com o mundo dos padrões...é bem triste isso, né? Acho que vc vai ficar mais chocada quando chegar a sua nova TV ai, pq daí vc poder analisar cotidianamente esses tais padrões. Fico mais com o padrão Camila...rs, linda.
Beijos;
Boa a sua pergunta. hehehe...
Quem vê eu não estou cotidianamente convivendo com os padrões... Não estão só na tv, né?
E se a tv demorar perco toda a olimpíada com seus jogos e padrões... :O
Beijo grande!!!
Camila
A TV vai chegar e vc vai ganhar uma tremenda insônia, meu amor. Até to vendo, Camila dormindo de TV ligada...
Beijão;
A TV vai chegar e vc vai ganhar uma tremenda insônia, meu amor. Até to vendo, Camila dormindo de TV ligada...
Beijão;
Ca, adorei seu comentario sobre a chinesinha discriminada nas Olimpiadas e também as suas reflexoes sobre os "padroes de beleza". A proposito, eu sempre me perguntei sobre qual seria o "padrao" de beleza. A beleza é relativa, voce pode ser bonito para um e feio para outro. Entao, como é que eles elegem a Gisele Bundchen como a mulher mais bonita do mundo? Primeiro, ha muitas outras mulheres mais bonitas que ela no anonimato, segundo, tem muita gente que nao ve toda essa beleza nela...
Voce falou de cabelos...das meninas de 11 anos que ja começam a alisar as madeixas, pintar, fazer luzes e outras bobeiras. Recebi um e-mail esses dias sobre a infancia dos anos 70 e 80, uma infancia mais natural e saudavel. Nao me lembro na escola das meninas que se pintavam (salvo algumas exceçoes, raras), alisavam o cabelo, pintavam as unhas. Eu so lembro das meninas que corriam, descabeladas, suadas e que nem passavam um batom. Mas a geraçao dos adolescentes que nasceram nos anos 90 mudou muito. Para voce ter uma idéia, tenho uma prima, hoje com 19 anos, que quando era criança tinha os cabelinhos cheios de chachinos e o rostinho redondo, parecia aquelas bonequinhas de porcelana. Uma vez minha tia estava acertando a franja de uma outra prima nossa, que tem os cabelos lisos e loiros, e a priminha dos cachinhos começou a chorar dizendo que odiava seus cachos e que ela parecia um palhacinho (ela tinha apenas 10 anos). Hoje, essa minha prima alisa os longos cabelos castanhos, emagreceu muito e se comporta como uma top model.
Essa minha outra prima, a dos cabelos lisos e louros quando tinha la pelos seus 15 anos começou a fazer uma dieta a base de purgante e dedo na garganta, além de ser adepta ao uso da chapinha (nao sei para que, seus cabelos eram tao lisos que nem uma tiara os segurava). Um dia ela foi passar uns dias em SP na minha casa e saimos para comer no Mc Donald's... ela estava com tanta fome que comeu dois big macs e um sorvete e, logo depois de se pesar na farmacia que encontramos no meio do caminho, ela enfiou o dedo na boca e vomitou o que tinha comido la na rua mesmo. E depois mais um pouco em casa, trancada por horas no banheiro. Hoje, felizmente ela se curou desse mal, eram as amizades que acabavam influenciando e a cabecinha fraca.
Eu nao vou dizer que também nao fiz de tudo para ficar "bonita". Sim, claro que fiz, quem nao faz? Alias, é o cabelo meu ponto fraco. Sempre tive neurose com eles, queria que fossem lisos, achava que eram de vassoura, quiosque, etc. Ai depois comecei a ver que cada um tem seu tipo de cabelo, tanta gente que os tem liso querem um pouco de cacho, que as mulheres negras agora começaram a assumir suas cabeleiras (quanto maior, mais bonito, estilo Black Power), que tem tanta mulher bonita com cachinhos. Minha vizinha de casa aqui da Italia me disse ja varias vezes que eu tenho os cabelos lindos, que eles sao naturais. Nao estou querendo dizer que os cabelos lisos sao feios, muito pelo contrario, eu quero dizer que cabelo tem que ser natural (tudo bem, natural mas nao radical, um pouco de shampoo e condicionador nao vao estraga-lo...rs).
Outro caso de cabelo: no Ensino Médio estudava com uma menina que tinha os cabelos loiros (natural) e cheios e cachinhos. Parecia cabelo daquelas bonecas princesas. Um belo dia ela apareceu com eles pintados de vermelho e lisos. E sabe o que ela fez para alisa-los? Passou Alisabel que, além de deixa-los lisos, fez com que ela perdesse muitos fios. No final, ficou cheia de falhas e com os fiozinhos novos para cima, todo espetado. Hoje ela tem os cabelos longos e lisos, mas acho que faz escova progressiva ou chapinha todos os dias.
Outra minha prima também é fixada em cabelo liso. Ela nao penteiaos cabelos com o pente ou escova com a escova, mas com a chapinha. Assim que sai do banho, com os cabelos molhados, vai la "pentea-los" com a chapinha. E o cabelo é sempre opaco e com pontas duplas.
E nao é so cabelo o terror das mulheres. Os oculos também. Eu uso lentes e oculos, mas uso mais estes por serem comodos, praticos e incrementar o visual. Aqui na Italia a gente ve varias mulheres e meninas de oculos, cada armaçao bonita e estilosa e nao é sinonimo de feiura. No Brasil, parece que usar oculos é ser nerd, feia e quatro-olhos. A ultima prima que citei, essa que usa a chapinha para "pentear" os cabelos, uma vez queria ver um menino de quem ela era afim na praça la no interior. So que de longe ela nao enxerga e tava em casa, de oculos. Mesmo em casa, no meio de outras primas, ela nao colocou os oculos e pediu para uma de nos olhar e contar sobre o menino. E quando saia de oculos, nossa, parecia que era um ET e muita gente me via como a "patinha feia".
E o pior é que tem gente que da valor a essas coisas. E principalmente no universo feminino. Até os meninos, nao todos, acabam condicionados pelo "padrao estético". Eu lembro nos anos finais da escola que eles idolatravam as meninas de cabelos lisos, magras, vestidas com roupinhas fashions (e nao com o classico uniforme), populares e que nao usassem oculos (nao, naquela época nao era dependente deles, so para ler a lousa).
Na verdade, se as coisas continuarem como estao agora, vamos ter no mundo mulheres loiras, peitudas, cabelos lisos, bronzeado impecavel, altas (tem até cirugia para ficar mais alta), com o corpo e o rosto impecaveis, todas iguais (sim, até as negras e orientais, com cirurgias para branquear a pele e até deixar os olhos como dos ocidentais) como um exército de robos...
Ju, adorei seu comentário grandão. Que bom que vc leu e registrou aqui suas experiências. Eu nasci com o cabelo liso, não o liso das passarelas (um liso da cabeça até a última pontinha), mas muito e bem liso, escorridinho. Confesso que adoro cachinhos (acho uma beleza!), dia ou outro já fiz cachinhos, daqueles que ficam um dia. Mas nunca tentaria mudar o meu tipo de cabelo. Acho que as pessoas têm direito de mudar, se assim acharem melhor. Mas, como eu disse e vc tb, o grande problema é querer seguir um modelo maluco, todo mundo querer ser a mesma pessoa.
Tb já observei várias amigas e primas e tias tentando mudar... Acho que cada um sabe o que é bom pra si, mas me entristece quando vejo todo mundo querendo seguir um padrão, buscar um belo que vai agredir tanto o corpo, o cabelo...
Tb já fiz luzes (bem pouquinho, na verdade) para voltar a ter os cabelos um pouco mais claros, portanto, também tenho lá minha necessidade de parecer mais bela para mim e para os outros. Acho que todos temos. Quando adolescentes então... Uma doideira. Todo mundo se achando feio, sem graça. Mas acho que há um limite entre o que é saudável e o que é doentio. E acho que estamos numa sociedade doentia. Pela forma física, por querer parecer o que não é. Já li sobre a operação para aumentar a altura e, meu Deus, que violência e que dor e que perigo!!! Como vc disse, o que seria do mundo se todos fôssemos iguais? Robozinho, robozinhos...
Beijo grande, minha amiga dos cachinhos maravilhosos.
Te amo grandão!
Como sempre uma fofura de pessoa!
Claro, todas nos ja fizemos e fazemos algumas coisas para ficarmos mais bonitas. A gente se depila (isso tb é um padrao...ou nao, depende da mulher...rs), faz as unhas (aqui na Italia é raro ver as moças de unhas coloridas e bem feitinhas), passa maquiagem, faz luzes (eu tb ja fiz, queria voltar a ser loirinha como quando criança)...
Esqueci de contar uma coisa! Quando eu era pequena assistia muito o programa "Xou da Xuxa" (hahahahaha) e minha mae conta que eu dia eu peguei a escova e tentei alisar meus cachinhos para ficar com o cabelo igual ao da Xuxa. E naquela época eu ainda era loirinha e tinha cachinhos que eram facilissimos de alisar (os cachinhos de criança e bebe). Ainda bem que depois a moda da Xuxa passou, imagina eu se continuasse com aquela mania de sair de bota branca e até o joelho (a bota da Xuxa, para crianças), de varias xuxinhas (fui assim no hospital quando minha mae teve minha irma...minha tia, que ficou cuidando de mim, fazia tudo o que eu queria), de roupas estranhas (bom, so me vestia assim no carnaval, tinha até uma fantasia que era a copia da roupa da Xuxa do segundo LP)?
Mas eu acho que a Xuxa é o menor mal. Imagina que o Salvatore e muitos outros meninos italianos da idade dele foram crescidos vendo desenho japones violento? Ele ainda tem uma coleçao de VHS e até eu vi alguns... como é que pode num desenho para crianças aparecer sangue, brigas, cabeça que sai rolando? E até mesmo nos desenhos "inocentes" (que a gente ja viu varias vezes) aparece sempre alguma coisa de perigo: veja bem o desenho do Coiote e Bip-Bip, do Popeye, Pernalonga, Piu-piu e Frajola, Pica-pau...
Acho que fugi um pouco do tema ;)
Beijao Ca!
Te amo!!!
Juju
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