sabato, agosto 02, 2008

... cansado de tanta guerra, crescido de coração...


Acho esse poema tão, mas tão bonito. Me lembra um tanto as histórias do meu avô, seu jeito de ver o mundo. Passei a gostar mais e mais do Quintana quando vi o espetáculo Sobre Anjos e Grilos da Deborah Finocchiaro. A primeira vez que li Quintana, eu não gostei. Devia ter uns quinze anos. A segunda, eu gostei um pouco. Na terceira mais um pouco. Depois o Junior me deu um livro com poemas dele, então eu comecei a entender um tantinho sobre a sua forma de escrever, de sentir. No entanto, apenas recentemente Quintana entrou em mim, penetrou os meus sentidos. É profundamente linda e diferente a sua forma de olhar para as coisas. É preciso entender Quintana, sentir Quintana. Todo grande autor nos obriga a desacostumar o olhar, nos incita a olhar diferente, a ler diferente cada palavrinha.

Quintana é um desses grandes.

Pequena Crônica Policial

Jazia no chão, sem vida,
e estava toda pintada!

Nem a morte lhe emprestara

A sua grande beleza...
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
as fundas marcas da idade,
das canseiras, das bebidas...

Triste da mulher perdida
que um marinheiro esfaqueara!

Vieram uns homens de branco,

foi levada ao necrotério.
E quando abriram, na mesa,
o seu corpo sem mistério,
que linda e alegre menina
entrou correndo no céu?!

Lá continuou como era
antes que o mundo lhe desse

a sua maldita sina:
sem nada saber da vida,
de vícios ou de perigos,

sem nada saber de nada...
Com a sua trança comprida,
os seus sonhos de menina,
os seus sapatos antigos!

Mário Quintana

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