Acho esse poema tão, mas tão bonito. Me lembra um tanto as histórias do meu avô, seu jeito de ver o mundo. Passei a gostar mais e mais do Quintana quando vi o espetáculo Sobre Anjos e Grilos da Deborah Finocchiaro. A primeira vez que li Quintana, eu não gostei. Devia ter uns quinze anos. A segunda, eu gostei um pouco. Na terceira mais um pouco. Depois o Junior me deu um livro com poemas dele, então eu comecei a entender um tantinho sobre a sua forma de escrever, de sentir. No entanto, apenas recentemente Quintana entrou em mim, penetrou os meus sentidos. É profundamente linda e diferente a sua forma de olhar para as coisas. É preciso entender Quintana, sentir Quintana. Todo grande autor nos obriga a desacostumar o olhar, nos incita a olhar diferente, a ler diferente cada palavrinha.
Quintana é um desses grandes.
Quintana é um desses grandes.
Pequena Crônica Policial
Jazia no chão, sem vida,
e estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grande beleza...
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
as fundas marcas da idade,
das canseiras, das bebidas...
Triste da mulher perdida
que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
foi levada ao necrotério.
E quando abriram, na mesa,
o seu corpo sem mistério,
que linda e alegre menina
entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
antes que o mundo lhe desse
a sua maldita sina:
sem nada saber da vida,
de vícios ou de perigos,
sem nada saber de nada...
Com a sua trança comprida,
os seus sonhos de menina,
os seus sapatos antigos!
Mário Quintana
Jazia no chão, sem vida,
e estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grande beleza...
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
as fundas marcas da idade,
das canseiras, das bebidas...
Triste da mulher perdida
que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
foi levada ao necrotério.
E quando abriram, na mesa,
o seu corpo sem mistério,
que linda e alegre menina
entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
antes que o mundo lhe desse
a sua maldita sina:
sem nada saber da vida,
de vícios ou de perigos,
sem nada saber de nada...
Com a sua trança comprida,
os seus sonhos de menina,
os seus sapatos antigos!
Mário Quintana
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